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Talentos sem medo

Talentos sem medo

Nos últimos anos, Portugal assistiu ao surgimento de um conjunto de novos negócios, cada vez mais competitivos e inovadores que desafiaram todas as adversidades económicas e escolheram vender ao mundo os seus produtos, mas a partir de Portugal. São empresas que hoje lideram nas suas áreas de atividade e cujos empreendedores atacaram a crise de frente só para as colocar no mercado.
06.10.2011 | Por Cátia Mateus


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É portuguesa a maior produtora mundial de kayaks de competição, a Mar Kayaks. É também portuguesa uma das líderes mundiais de software de identificação, a NDrive. Tem também o carimbo nacional, a Critical Software que aspirou um dia trabalhar com a Nasa e conseguiu. Hoje, tem já escritórios em Silicon Valley, na Califórnia, mas mantém-se sediada em Coimbra. São ainda de produção nacional, empresas como a ActualSales que revolucionou o mercado da publicidade digital, a rede mundial de crítica de vinhos Adegga.com que chamou a atenção da Business Week ou a Seed Studios que alcançou projeção internacional ao desenvolver o “Under Siege”, o primeiro jogo português para a PlayStation3 e que nem por isso virou costas ao seu país. Há em território nacional centenas de empresas de sucesso que projetam orgulhosamente, a nível mundial, a chancela made in Portugal. Empresas com um rosto. O rosto de um grupo de empreendedores sem medo que não teme a crise e acredita que fazer acontecer, é sempre melhor do que esperar por resultados milagrosos. Quando em pleno ano de crise Cláudia Ranito decidiu colocar no mercado a Medbone, Medical Devices, não esperava facilidades mas também não desistiu. A jovem engenheira de materiais, agora com 31 anos, criou em 2008 uma empresa que fabrica dispositivos médicos e que em três anos se tornou numa referência internacional na área da regeneração óssea. Na criação da empresa Cláudia Ranito investiu 600 mil euros que prevê recuperar dentro de dois a três anos. A adversidade financeira do país não demoveu a empreendedora da sua vontade de aplicar na prática a sua experiência de dez anos na área de I&D de Biomaterials. Tanto mais que para Cláudia Ranito não restam dúvidas: “a crise é real mas as oportunidades continuam a existir”. A Medbone veio suprir uma clara necessidade do mercado que é a falta de osso de qualidade disponível no mercado mundial. A partir de Portugal, Cláudia Ranito solucionou o problema e agora a empreendedora que com a sua atividade desenvolver produtos que contribuam para a qualidade de vida as pessoas. Foi isso que a fez acreditar no seu projeto e para a jovem “este é um estimulo de valor incalculável”. Mas Cláudia não foi a única a acreditar no potencial da Medbone. A Agência da Inovação apoiou o projeto, através do programa Netotec – Criação de Empresas de Base Tecnológica e a Medbone contou ainda com o apoio da DNA Cascais e da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE). Atualmente, Cláudia Ranito dá emprego a seis pessoas e meta é “desenvolver novos produtos, o que implicará aumentar os quadros nas áreas da produção, investigação e desenvolvimento, bem como na área comercial nacional e internacional”. Para a jovem, “a exportação foi estratégica desde o primeiro minuto, até porque a crise mundial não fará parar o mundo e a área da saúde requer evolução constante nos diversos mercados”. A Medbone vende diretamente a parceiros de distribuição material ortopédico, dentário, de cirurgia plástica e para veterinária. Parceiros esses que, por sua vez, comercializam os produtos junto de médicos, clínicas e hospitais das suas especialidades. A empresa faz tudo isto a partir de Portugal e tem conquistado a sua posição no mercado sem esquecer a sua origem lusa. Uma estratégia que para Cláudia sustenta parte do sucesso da Medbone. “Acreditei sempre que era possível a partir de Portugal ter um projeto tão ambicioso, devidamente implementado, com as melhores práticas, procedimentos, equipamentos e materiais a nível mundial”, confessa. E não errou. Nem ela, nem a equipa da Cell2B que desenvolve também a partir de Portugal uma terapia celular concebida para tratar doentes que apresentam sinais de rejeição após transplante de medula óssea. Daniela Couto, David Malta, Pedro Andrdade e Francisco Santos criaram em plena crise uma empresa 100% nacional, resultante da convicção de que seja qual for a conjuntura Portugal sabe fazer bem. A empresa de biotecnologia Cell2B atua também na área da saúde desenvolvendo terapias que eliminam o problema da rejeição de órgãos. “O projeto tecnológico surgiu no âmbito de uma colaboração entre o Instituto Português de Oncologia e o Laboratório de Bioengenharia de Células Estaminais do Instituto Superior Técnico”, explica Daniela Couto, uma das mentoras da empresa que avança que “a terapia foi inicialmente administrada a sete doentes ao abrigo de uma autorização especial e o sucesso da sua aplicação levou a disponibilizá-la a todos os pacientes que dela necessitem”. Para a empreendedora, a empresa que lidera é única no mercado. A Cell2B emprega os seus quatro fundadores, mas reúne também um conselho científico e estratégico de seis especialistas de renome internacional que se dedicam a pensar o desenvolvimento científico e estratégico da empresa. Daniela adianta que “os métodos de tratamento da rejeição após um transplante apenas tentam intervir perante os sintomas, mas não existe atualmente no mercado nenhuma terapêutica que revele eficácia na cura. Não há nada igual ao que nós desenvolvemos”. Nada igual ao que Daniela e a equipa realizam a partir de Portugal. Apesar da coincidência dos exemplos o talento nacional não está só na área da saúde. Nos últimos anos, enfrentando todas as conjunturas adversas, os empreendedores nacionais souberam destacar-se em várias áreas desde o turismo, à nanotecnologia, passando pelas novas tecnologias. É o caso na Innowave Technologies, criada em 2008 por Tiago Gonçalves e Fernando Correia e que gerou lucro logo nos primeiros três meses de vida e que hoje tem 70% das suas receitas provenientes do exterior. A empresa tecnológica atua na área do business inteligence e, mais recentemente, na da televisão. Está presente em mercados como a Bélgica, Itália e Alemanha, prevê faturar 2,1 milhões de euros este ano e acredita que o sucesso é possível a partir de Portugal, seja qual for a conjuntura. Outra tecnológica nacional a dar cartas no estrangeiro é a VoiceInteraction. A empresa nacional é responsável por instalar todo o software de reconhecimento de voz nos tribunais brasileiros, vendo assim a sua faturação anual subir em 125 mil euros já este ano. A empresa tem já contratos com o Tribunal Regional de Trabalho do Paraná e com o Tribunal de Justiça de Mato Grosso, representando 300 salas de audiência. E para Renato Casaca, um dos acionistas da VoiceInteraction, “a empresa está voltada para o Brasil pois este é um mercado que não tem concorrência”. A empresa foi criada em 2008, como spin-off do INESC-ID Lisboa e está pensada para desenvolver tecnologias na área do processamento da fala. Mais uma vez, a conjuntura económica não intimidou a vontade de concretizar. Entre 2008 e 2010, pelo contexto de adversidade económica no país, foram criadas 7737 empresas por desempregados, sendo que 2589 surgiram em 2010. Esta capacidade de arriscar e empreender fazendo frente a uma conjuntura hostil permitiu, segundo dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) dar emprego a 17.460 desempregados. Mas o presidente da Comissão Executiva da ANJE, Manuel Teixeira, reconhece que as dificuldades no acesso ao crédito poderão condicionar a atividade empreendedora em Portugal. “É importante que o Estado continue a apoiar o empreendedorismo sobretudo em setores de bens e serviços transacionáveis que permitam aumentar as exportações ou substituir as importações”, defende. Segundo especialista, “está a crescer no país o número de PME de base tecnológica que desenvolvem atividades de I&D, envolvem recursos humanos altamente qualificados e apresentam um grande potencial de internacionalização”. Muitas destas PME foram fundadas, em pleno período de hostilidade, por jovens empreendedores que converteram desta forma o seu conhecimento técnico-centífico em valor empresarial. É inquestionável o ganho que Portugal capitalizou nos últimos anos no que toca à crescente inovação e competitividade dos projetos empresariais que viu nascer no país. “Há uma forte geração de cientistas/empreendedores que criou empresas muito competitivas num segmento high tech e cuja atividade é hoje, maioritariamente, direcionada para os mercados externos”, explica Manuel Teixeira salientando que “desde 2007 que Portugal é um exportador líquido de tecnologia o que significa que o país está a abandonar o modelo económico assente em mão de obra intensiva e produtos ou serviços de baixo perfil tecnológico, para assumir um modelo económico baseado no trinómio ciência, tecnologia e inovação”. Manuel Teixeira aplaude a decisão destas jovens empresas manterem cá a sua atividade, mas estarem voltadas para o mercado internacional. Uma realidade que também agrada a Pedro Rocha Vieira, presidente da Beta-i, Associação para a Promoção da Inovação e Empreendedorismo. O líder confirma o crescimento de novos negócios com forte caráter de inovação e internacionalmente competitivos e até acredita que “a crise em Portugal pode ser alavancada para a criação de novas empresas se se conseguir, em primeiro lugar, aproveitar a crise para uma maior consolidação e reestruturação dos setores, através da criação de novas empresas com maior capacidade de produção, gestão e exportação”. Pedro Rocha Vieira defende ainda que é fundamental aproveitar a inevitabilidade dos despedimentos para potenciar a criação de programas que apoiem a criação de empresas por parte dos trabalhadores qualificados, com capacidade de iniciativa que perderam o lugar nas empresas onde trabalhavam. Uma estratégia que poderá ajudar a diminuir o eventual receio de arriscar em época de adversidade.


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