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Eu não quero ser promovido!

Eu não quero ser promovido!

Se pensa que recusar uma promoção a um cargo de chefia é coisa que não passa pela cabeça de muita gente, está redondamente enganado. Em tempos adversos há quem prefira ser chefiado do que chefiar. Tudo para se salvaguardar do stresse que faz cada vez mais vítimas no mundo laboral
22.10.2009 | Por Cátia Mateus


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Você diria que não a um cargo de chefia, em época de crise? Pois saiba que há quem recuse promoções, imagine-se, exactamente por causa da crise. Um estudo realizado na vizinha Espanha pela empresa de recursos humanos Randstad, revela que perante a actual conjuntura o desinteresse pelas posições de liderança tem vindo a aumentar. A empresa inquiriu 2200 funcionários e 833 executivos e metade assume não ver com bons olhos aceitar um cargo directivo na empresa onde trabalha enquanto a economia não vir melhores dias. Porquê? É que 80% assumem temer os efeitos na saúde do stresse e da pressão dos superiores para resolução dos problemas que se colocam na gestão de qualquer empresa em cenários de adversidade.

Um panorama que não se restringe ao país vizinho. Com efeito, desde que a economia mundial abanou o consumo de antidepressivos aumentou em Portugal, ao mesmo tempo que cresceram os casos de depressão entre os profissionais. Segundo um estudo da Universidade do Porto, as vendas de antidepressivos e estabilizadores de humor bateram recordes desde final do ano passado. “Até Setembro de 2009, venderam-se 6736 milhões de embalagens, representando um crescimento de 3,1% face a igual mês do ano passado”, revela o estudo.

Um consumo que atinge já crianças, mas sobretudo profissionais expostos às exigências do trabalho intensivo e exaustivo. Na verdade, o stresse profissional associado à crise tem feito vítimas um pouco por todo o mundo. O caso mais visível serão, sem dúvida, os 25 suicídios ocorridos entre funcionários da France Telecom nos últimos cerca de dois anos. Mas outros há, ainda que em menor escala. De tal ordem que a revista “Economist” já classificou a infelicidade no trabalho — que cresce a olhos vistos — como a nova epidemia das economias ocidentais.

Na verdade, os receios dos trabalhadores inquiridos pela Randstad espanhola são comuns a tantos outros espalhados pelo mundo inteiro. Não é que tema o peso das responsabilidades. O que temem é ser forçados a tomar posturas como ter de despedir colegas, por exemplo.

De olhos postos na realidade francesa que a partir de Fevereiro de 2010 terá em todas as grandes empresas planos anti-stresse (a medida deverá abranger cerca de 2500 organizações), muitas empresas por todo o mundo estão já a apoiar os seus colaboradores a minimizar o impacto destes tempos mais adversos e mais exigentes sob o ponto de vista laboral.

Portugal não é excepção. Pedro Oliveira, director da Albenture, uma empresa especializada na prestação de serviços de ajuda à conciliação da vida pessoal e laboral, defende que “a palavra crise converteu-se numa obsessão da qual se torna difícil desligar, com reflexos no campo das relações pessoais e laborais”. Diz o especialista que “aumenta a tensão e a irascibilidade, diminui a concentração e o rendimento dos trabalhadores e, o que é pior, afecta a sua qualidade de vida e a saúde, chegando nalguns casos a provocar problemas de saúde como transtornos digestivos, alterações do sono, depressão, irritabilidade ou agressividade”.

Para travar esta onda, o especialista argumenta que muitas empresas têm vindo a recorrer à Albenture para ajudar os seus colaboradores, colocando ao seu dispor especialistas financeiros para os ajudar a reorganizar as suas economias domésticas, ou psicólogos para os ajudar a ultrapassar eventuais estados de stresse, ansiedade ou depressão. Medidas que Pedro Oliveira diz serem muito apreciadas pelos colaboradores.

Mas para os psicólogos o papel das empresas e dos gestores tem de ir além disto. Os números não podem e não devem sobrepor-se às pessoas e esta é uma regra que ainda continua a falhar nas políticas de gestão de muitas organizações. O psiquiatra Daniel Sampaio alerta para que as mudanças organizacionais devem ser feitas sempre que necessário, mas devem ter sempre em conta as pessoas. E o especialista vai ainda mais longe, defendendo a necessidade da promoção da saúde mental no seio das empresas, através da criação de unidades de intervenção em crise e de psicólogos nas organizações que estejam aptos a apoiar os colaboradores a gerir qualquer situação disfuncional relacionada com o trabalho.

Virar as costas a um cargo de chefia para se salvaguardar da pressão e do stresse é apenas uma das atitudes possíveis entre os colaboradores. Mas nem mesmo esta postura de salvaguarda está isenta de problemas. É que uma recusa a uma promoção pode ser mal encarada pela chefia e como consequência tazer novos atritos ao colaborador que se vê assim ‘entre a espada e a parede'. Caso para dizer que nos dias que correm, não ter emprego é muito mau, mas colocando os olhos nos exemplos da France Telecom, é bem verdade que ninguém trabalha para morrer.



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