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Inovar sem retorno

Inovar sem retorno

Inovar não basta. É preciso patentear os produtos novos. Inventar e não proteger pode fazer a diferença entre facturar zero ou milhões de euros.
11.02.2010 | Por Marisa Antunes


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A crise refreou os investimentos mas não a criatividade de quem quer inovar através de novos produtos. Em 2008, particulares e empresas pediram protecção para 464 invenções e ao longo do ano passado, o número quase que duplicou. Ou seja, em média, por cada dia que passou, surgiram dois novos pedidos de protecção de invenções.

Será, pois, Portugal um país de inventores? “Diria antes que Portugal é um país de inventores que não protegem as suas invenções”, responde Gonçalo Sampaio, secretário-geral da Associação Portuguesa dos Consultores em Propriedade Industrial (ACPI), sublinhando que as patentes registadas estão, ainda assim, além da realidade criativa dos nossos empreendedores.

Para este responsável, “ainda falta uma geração para conseguir que os empreendedores portugueses tenham espírito de cultura de protecção das suas invenções”, uma área que carece de muita formação, “e na qual o Estado deveria apostar fortemente”.

É que, “inventar e não proteger, vale zero”, acrescenta ainda o porta-voz da ACPI e também responsável pelo escritório Cabinet Dias Costa, que procede à gestão e acompanhamento de direitos de propriedade industrial.

Prova disso é a fatia diminuta de empreendedores portugueses que se fazem representar no total de pedidos de patentes europeias: “Para se fazer uma ideia, e em relação a 2009, basta dizer que de um total de 160 mil pedidos, apenas 0,03% são de entidades portuguesas. Ou seja, apenas 70 pedidos”.

A caminho da internacionalização

A Ortik (ver caixa) é uma empresa portuguesa que lançou produtos inovadores na área das actividades “outdoor”, dos quais o “Heat-it” continua a ser um dos seus principais cartões de visita. Este dispositivo leve, à base de tecido anti-fogo e que permite cozinhar em condições agrestes (como no pico do Evereste) passou por um processo de patenteamento não só a nível nacional mas internacional. Um passo fundamental, até porque neste momento, como adianta Pedro Carradinha, um dos sócios, a Ortik já está em processo de exportação para 15 países, do Nepal ao Japão, da Espanha aos  EUA.

Um caminho moroso, ainda que essencial ao desenvolvimento da empresa. Da experiência que acumulou até agora, Pedro recomenda um acompanhamento especializado junto de consultores especializados para evitar surpresas desagradáveis. “O registo da patente é um processo muito lento devido às pesquisas e etapas que têm que ser realizadas, sobretudo no nosso caso que avançámos para o registo internacional. A complexidade destes pedidos de registo é tal, que é recomendável a contratação de profissionais. No meu caso dei inicio ao pedido de patente nacional, sozinho. Contudo na patente internacional, foram contratados mandatários da propriedade industrial”, conta Pedro Carradinha.

Gonçalo Sampaio reforça, lembrando que acreditar naquilo que se inventou não basta. “É preciso ter uma estrutura e proteger os produtos com patentes. Não basta ganhar medalhas em Genebra. O que não falta por aí são os caça-inventos que em troca de pouco dinheiro acabam por ficar com a exploração, enquanto que quem inventa fica com a menção honrosa ou pouco mais”.

À prova de sobrevivência

Pedro Carradinha, da Ortik tem já um percurso firmado no mercado internacional com os seus produtos patenteados para desportos e lazer “outdoor”. Uma experiência profissional que conta já oito anos. Aqui ficam algumas das suas dicas de sobrevivência empresarial:

-Dar início à protecção industrial com patente nacional apenas quando o produto estiver totalmente desenvolvido. Desta forma a empresa beneficia da protecção nacional e é-lhe reservada a opção de registo internacional. Pode assim dar início a contactos comerciais ou mesmo licenciamento da patente, apenas realizando o investimento de patente internacional nos países com mais interesse.

-A informação disponível é pouca e o público, em geral, tem uma ideia muito vaga acerca do processo de patentes, o que leva a que se criem mitos absurdos tipo "não vale a pena fazer o registo da  ideia porque aparece alguém que muda um pouco a forma e já pode começar a produzir um produto igual." O registo de patente passa pela descrição, reivindicações e desenhos onde os conceitos são apresentados.

-Ampliar a rede de contactos. Há sempre boas hipóteses de falar directamente com os responsáveis pelas decisões nas feiras especializadas no sector (é aconselhável dar início a breve descrição do produto, com vista marcação de reunião de exposição detalhada).

- No caso de ser um inventor com um produto novo com o objectivo de licenciamento da patente, a melhor opção será fazer um registo nacional e iniciar de imediato os contactos para beneficiar da prioridade de registo internacional. Contudo esta forma de obtenção de dividendos assenta numa percentagem sobre o numero de unidades chamado “royalty”. Este valor é negociado pelo que será recomendável haver alguma experiência e preparação por parte do inventor, ou a contratação de um profissional que proteja os seus interesses. De outra forma verá a receita dos seus inventos muito reduzido.

- Realizar a venda do produto para uma marca, ou seja o inventor atrair uma marca a interessar-se pela sua invenção e conseguir um numero que encomendas que justifique dar inicio a uma produção que poderá ser em “outsourcing” com vista ao abastecimento da dita marca e obtendo dividendos mais elevados.



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