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Amigos, amigos ... trabalho à parte

Trabalhar entre amigos ou familiares nem sempre é tarefa fácil, e colocar em prática o célebre ditado ‘trabalho é trabalho, conhaque é conhaque’ tornou-se um desafio cada vez maior num país onde o culto organizacional ainda tem muito de ‘familiar’
09.11.2007


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Cátia Mateus e Marisa Antunes
Representam cerca de 80% do tecido empresarial português e algumas delas fazem hoje parte do grupo que mais postos de trabalho cria de norte a sul do país. As empresas familiares (das mais pequenas às de maior dimensão) são o grande motor de inovação e desenvolvimento nacional. Mas a sua gestão quotidiana exige cuidados adicionais. Porque, quer numa organização onde dominem os laços familiares quer numa empresa cuja equipa seja formada por amigos e colegas de curso, gerir afectos rumo ao sucesso da organização nem sempre é tarefa fácil e tem tanto de positivo como de arriscado.

Aos 22 anos, Carlos Oliveira criou, a partir de Braga, a MobiComp, uma empresa que hoje dá cartas no sector mundial das telecomunicações e mobilidade. Com apenas sete anos de actividade tem já presença em Madrid, Londres e Dubai. Quando criou a sua empresa, Carlos Oliveira rodeou-se das melhores pessoas, tendo sempre como meta o sucesso do seu projecto empresarial e a internacionalização. Coincidência ou não, algumas delas eram colegas de curso do jovem empresário. Hoje, a MobiComp emprega 40 colaboradores. Sete dos quais partilharam com Carlos Oliveira os bancos da Universidade do Minho, onde cursou Engenharia de Sistemas.

O empresário bracarense não nega que “existem, à partida, diferenças naturais no relacionamento laboral com pessoas que conhecemos há mais tempo e com os que conhecemos recentemente”. E embora assuma sem rodeios que “existe de facto o risco de misturar diferentes planos e gerar ambiguidades”, diz que a experiência já lhe mostrou que “as pessoas, em geral, compreendem a necessidade de haver regras claras no ambiente de trabalho, bem como relacionamentos profissionais e transparentes, assentes na competência e no mérito”.

Carlos Oliveira reconhece mesmo vantagens em trabalhar com amigos. “A existência de um «background» comum potencia os entendimentos e facilita o trabalho em equipa e a gestão de expectativas”, argumenta. O empreendedor enfatiza ainda a ideia de que “neste contexto, é genericamente mais fácil gerar um entendimento comum sobre a missão da empresa e um bom ambiente de trabalho e camaradagem, que potencia quer a produtividade quer o compromisso com os bons resultados da empresa”. Ainda assim, Carlos Oliveira deixa claro que “a MobiComp é uma empresa pequena que trabalha num ambiente internacional e numa indústria muito competitiva, o que torna insustentável qualquer confusão entre amizade e capacidade profissional. Dependemos diariamente demasiado das competências e do empenho da equipa para que possa subsistir durante muito tempo qualquer confusão entre competência e amizade”.

Esta é, aliás, a ideia-base que a multinacional de «outsourcing» DBM Portugal passa aos trabalhadores que durante o seu processo de reavaliação de carreiras apostam na iniciativa privada. “É um assunto muito trabalhado. É importante que quem resolva criar empresas com familiares ou pessoas próximas leve à risca o lema ‘amigos, amigos, negócios à parte'. Não ser complacente, não deixar de tomar certas atitudes por achar que se vai magoar o outro, não confundir os papéis de sócio com o de amigo, é fundamental para o negócio, que existe não pela amizade mas para dar lucro”, realça Anabela Ventura, directora da DBM, empresa-líder de mercado que se destina exclusivamente a organizações que, por diversos motivos (fusões, aquisições, deslocalizações, encerramentos ou desajustes), acabam por rescindir com os seus colaboradores, oferecendo-lhes apoio profissional na sua reinserção no mercado de trabalho.

A responsável salienta que são muitas as mais-valias nas sociedades empresariais onde os laços familiares e de amizade são fortes, beneficiando assim a produtividade, a criatividade e, logo, a rentabilidade da empresa. “Para que um negócio resulte, é essencial que os sócios se relacionem bem. Isso aplica-se, aliás, em todas as situações. Basta pensar que um bom ambiente de trabalho se faz com chefias e os colegas com quem nos identificamos”, realça.

Definir muito bem o plano financeiro da empresa, as responsabilidade de cada um e o peso dos contributos (seja em dinheiro, trabalho ou cedência de espaço onde vai ficar sediado o negócio) na partilha dos lucros é imprescindível, aconselha a especialista. Mas não só. Não basta escolher alguém que se conhece para repartir a gestão do negócio. É fundamental que exista complementaridade. “Os sócios que melhor funcionam são aqueles que, além de terem confiança um no outro, têm competências complementares e permitem explorar todo o potencial da sociedade”, reforça ainda Anabela Ventura.

É precisamente este o ambiente que se vive na Graça Viterbo Decorações. Referência incontornável, a decoradora, com 38 anos de carreira, conquistou há muito o seu lugar ao sol neste mercado. A filha, Gracinha, que cresceu neste ambiente criativo seguiu-lhe as pisadas e, concluída a sua formação em Londres, regressou a Portugal onde integrou há sete anos o ateliê da mãe. Uma etapa óbvia para ambas e de onde retiram muitas compensações. “Foi uma decisão tomada com naturalidade e entusiasmo de ambas as partes, o processo criativo a seguir o seu curso natural…”, recorda Graça Viterbo, que lançou recentemente um guia prático de decoração.

Questionadas sobre os principais benefícios que retiram na vivência profissional conjunta, Gracinha realça a “aprendizagem, actualização e o diálogo”. “O trabalho de equipa tem a grande vantagem de exigir o máximo de cada um. Uma dupla funciona quase como uma explosão de criatividade. Se decidir a dois implica uma fusão, também pode por vezes resultar em divergência saudável. Afinal cada artista tem a sua visão muito própria e uma personalidade muito vincada, no nosso caso”, sublinha Gracinha Viterbo. Conhecida pelo seu rigor e exigência, Graça Viterbo garante que não existem condescendências, apesar do grau de proximidade tão forte com a sua ‘sócia': “Ser exigente é uma óptima disciplina! Beneficiamos as duas da mesma exigência... e o cliente também”.

E esta política é também seguida por outras empresas que representam hoje casos de sucesso no campo da gestão familiar. Basta pensar em grupos como a Sonae, Mello, Espírito Santo, Jerónimo Martins, Amorim ou Luís Simões, que começaram com uma base familiar e actualmente empregam milhares de pessoas. Na opinião da docente universitária e especialista em gestão de recursos humanos, Maria Márcia Trigo, “em Portugal, onde mais de 90% das empresas são PME e PMI (menos de 10 trabalhadores) ou microempresas, a maioria das pessoas trabalha com amigos ou familiares”.

Esta realidade pode trazer alguns problemas como “a não-profissionalização das relações de trabalho; a contratação e promoção de pessoas menos competentes para determinada função; a desvalorização das qualificações e da formação ao longo da vida; uma mobilidade excessiva das chefias e equipas de projecto; a volatilidade nas estratégias e na concretização de resultados; criação de um ambiente de impunidade; consolidação de uma cultura nacional pouco exigente ou, até, aumento para níveis excessivos do número de trabalhadores.

A especialista defende que, face a esta realidade incontornável; “as pessoas devem e podem valorizar e profissionalizar a relação de trabalho, quer se trate de chefias de topo, «midle management», quadros médios ou outros”. Márcia Trigo adianta que “quando tal não acontece, a regra é o emprego e as empresas correrem maiores riscos e as relações tenderem a ter ciclos de grande turbulência”.





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