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Um novo recomeço

Mais do que colmatar as lacunas formativas, o programa Novas Oportunidades vem aumentar a auto-estima dos portugueses e possibilitar-lhes uma progressão na carreira. Alertadas para esta realidade, várias centenas de empresas estão a aderir a esta iniciativa e a apostar na qualificação dos seu trabalhadores
27.07.2007


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Marisa Antunes e Maribela Freitas
A Judite de Sousa a vender revistas num quiosque, o Pedro Abrunhosa como ‘arrumador' de pessoas numa sala de espectáculos ou a Maria Gambina a fazer bainhas numa máquina de costura, foram talvez as primeiras imagens que uma boa parte do público-alvo que o Governo pretendia atingir começou a interiorizar. Sim, estas pessoas estudaram, e graças a esse esforço foram bem mais longe.

Estava lançada a campanha publicitária do programa Novas Oportunidades, uma das principais bandeiras do executivo de Sócrates e que já começou a dar frutos. Com um grande empurrão por parte de empresas e instituições de norte a sul de Portugal que estão a possibilitar aos seus trabalhadores complementar a sua formação, seja cedendo as próprias instalações para a realização dos cursos, seja libertando-os em pleno horário de trabalho para estudarem.

Empresas como a Jerónimo Martins, que assinou recentemente um acordo para a certificação de 11. 500 colaboradores, os CTT que vai dar a certificação a cerca de 800 trabalhadores, a GNR e a PSP, a Einhell, Continental Mabor, Salvador Caetano ou o Grupo Amorim são apenas alguns dos exemplos entre os 477 protocolos assinados com a Agência Nacional de Qualificação, que gere o processo, e que vai possibilitar a certificação de 100 mil activos empregados.

E há muito por fazer: rezam as nossas pouco honrosas estatísticas que seis em cada dez trabalhadores portugueses têm apenas pouco mais que a quarta classe, precisamente escassos seis anos de escolaridade. Situação cada vez mais problemática quando os números demonstram que nos últimos seis anos a economia “eliminou” 245 mil postos de trabalho que exigiam apenas a qualificação mínima, até ao básico. Em contrapartida, criavam-se, no mesmo período, 400 mil postos para pessoas com qualificação de nível secundário ou superior.

Antónia Brás, de 40 anos, faz parte deste grupo que não se resigna com o seu destino. Trabalhadora da Jerónimo Martins (JM) há 16 anos, Antónia é chefe do sector dos sazonais (onde se incluem os brinquedos e os materiais desportivos), no Feira Nova de Telheiras.

Apesar de confessar sentir-se “bem profissionalmente”, achou que não devia deixar escapar a oportunidade de melhorar a sua formação. Até porque interrompeu os estudos por imposição familiar, um pesar que guarda até hoje. Com o 5º ano de escolaridade, esta trabalhadora pretende agora a certificação até ao 9º ano, por isso, quando ouviu falar nas Novas Oportunidades, nem hesitou: “Inscrevi-me de imediato num centro pois sempre tive a vontade de aprender mais e melhor. Mas, entretanto, surgiu esta possibilidade de o fazer através da própria empresa, o que é excelente”. E Antónia até já se imagina a estudar com o filho, de 17 anos, um dos principais impulsionadores da mãe e que está a terminar o secundário. Esta funcionária vai frequentar a escola de formação que a JM tem nas suas instalações em Telheiras. Além desta, o grupo possui mais uma escola em Braga e outra em Santa Maria da Feira que vão passar a receber os técnicos do Instituto do Emprego e Formação Profissional.

João Raimundo, outro colaborador da JM há 16 anos, é «catering manager» no supermercado Recheio e vai aproveitar toda a sua experiência profissional para completar o último ano que lhe falta do secundário. Depois de um interregno nos estudos, João ainda iniciou o 12º ano como trabalhador-estudante mas o ritmo de trabalho, que começava às seis da manhã, foram decisivos para a sua desistência. “Ficava muito cansado a estudar à noite. Mas agora vou ter, em princípio, duas aulas por mês, para completar o secundário. Esta é uma oportunidade para nós e para o país pois somos dos mais atrasados da Europa na questão da qualificação”, adianta João Raimundo. Lembrando que “cada vez mais as pessoas dão importância ao grau académico”, o colaborador agora até se sente motivado a tirar um curso superior na área da Gestão, assim que terminar a sua certificação que não deverá levar mais de seis meses.

“Este é o programa de formação mais alargado que a JM já teve. Temos 11.500 pessoas que têm as qualificações abaixo do 12º ano — 5500 com menos do 9º ano e 6000 com menos do 12º ano — num universo de 19 mil trabalhadores, só em Portugal. O grupo JM é um negócio de pessoas para pessoas e apoiam muito os colaboradores, por isso queremos aumentar os seus índices de motivação. Faz sentido numa óptica de responsabilidade não só interna, mas de responsabilidade social para com o país, contribuir desta forma, para melhorar a competitividade nacional”, sublinha Marta Maia, directora de Recursos Humanos do grupo Jerónimo Martins para a área da distribuição.

Já em Setembro, explica esta responsável, arranca a certificação dos primeiros 250 trabalhadores da JM, a grande maioria pessoas que exercem cargos de responsabilidade. “Vamos disponibilizar todos os recursos aos nossos colaboradores, que receberão a formação durante o horário laboral nas nossas escolas de formação. Para aqueles que não trabalham perto de nenhuma das nossas três escolas, nós custeamos as despesas de deslocação aos centros de certificação mais próximos”, resume Marta Maia. Refira-se que existem já 269 centros Novas Oportunidades espalhados por todo o país.

O número de horas necessárias para a obtenção dos ‘canudos' é decidido após uma análise do processo do candidato e onde conta toda a experiência profissional acumulada até àquela data. Como explica Clara Correia, presidente da Agência Nacional para a Qualificação, que coordena a iniciativa Novas Oportunidades, “os conhecimentos adquiridos ao longo da vida são reconhecidos à luz de um referencial de competências-chave. Se existirem lacunas, estas serão colmatadas pela via da formação”.

A responsável exemplifica: “Uma pessoa que tem o primeiro ciclo do ensino básico, apenas a quarta classe, mas com 20 anos de experiência profissional, e mais de 1000 horas de formação não certificada em várias áreas, tem um capital que não é igual ao de uma outra que acabou o primeiro ciclo do ensino básico, sem muita experiência e que vai fazer a sua progressão até ao 9º ano. Tudo isso é levado em linha de conta”.

Realça Clara Correia que “o nível da auto-estima e da apetência para a aprendizagem gera resultados”. “Não tenho dúvidas também de que quando a empresa entende isto como importante, gera efeitos na progressão da carreira e dos níveis salariais”, complementa a responsável.

Alberto Rui Gonçalves, presidente da Einhell, uma empresa de ferramentas e «bricolage», está imbuído deste espírito. Nem hesitou quando surgiu a possibilidade de inscrever dez dos seus 31 trabalhadores que têm menos do 12º ano de escolaridade nesta iniciativa governamental (alguns deles reunidos para a foto publicada na capa). Isto apesar de saber que mais formação poderá ser o passaporte para eles saírem da empresa e procurarem um trabalho de acordo com as qualificações que vão entretanto adquirir. “As pessoas sentem-se socialmente desconfortáveis e até inferiorizadas por não terem sequer o 9ºano. Coloquei-me na pele deles e resolvi assinar um protocolo com o Centro de Reabilitação Profissional de Gaia, cujos técnicos vêm às nossas instalações para dar formação”, conta o responsável.

A reacção dos trabalhadores, a maioria pessoal do armazém e operadores de logística não poderia ter sido melhor. “Mas nunca pensei que fosse tão boa… Ficaram muito motivados. Muitos deles tinham o desejo de estudar mais, mas a perspectiva de voltarem para uma escola, lado a lado com pessoas muito mais jovens, deixava-os completamente desconfortáveis. Assim, é completamente diferente e sentem que vão efectivamente ganhar uma mais-valia”, sublinha Alberto Rui Gonçalves.

Segundo a OCDE, Portugal é um dos países em que ter qualificação é mais compensador. Um trabalhador com ensino secundário ganha, em média, mais 60% do que um outro que não tenha obtido essa escolaridade. E quem tem o ensino superior ganha em média mais do triplo de quem só tem no máximo o ensino básico completo.

O programa Novas Oportunidades abrange não só a formação de adultos como também de jovens que passam a ter maior oferta profissionalizante no ensino regular. Para aceder ao programa, o adulto que não terminou os estudos precisa de ter 18 anos, no mínimo três anos de experiência profissional e inscrever-se num centro de novas oportunidades.





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