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TT: uma janela de oportunidades

28.03.2003


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Fernanda Pedro

COM a crise de emprego generalizada o trabalho temporário (TT) ganhou maior expressão e adesão no mercado português. Por opção ou necessidade, muitos fizeram do TT a sua forma de vida.

O EXPRESSO foi saber como é que alguns trabalhadores chegaram até ao TT e descobriu que apesar da ideia negativa que todos tinham deste regime de trabalho, acabaram por alterar as suas opiniões e agora crêem mesmo que foi a melhor escolha profissional que tomaram até hoje.

Vasco Mendes tem 26 anos e desde os 16 que conhece o mercado de trabalho. Passou por várias empresas e desdobrou-se em diversas actividades. Mesmo quando saía de um emprego nunca tinha problemas em arranjar outro. De vigilante, a técnico comercial, a administrativo, Vasco fez de tudo um pouco.

Mas nem sempre a sorte o acompanhou e em Novembro de 2002 viu-se confrontado com o desemprego. As respostas a anúncios de trabalho passaram a fazer parte do seu dia-a-dia e "pela primeira vez aconteceu enviar o currículo e não me chamarem. Depois de uma entrevista a resposta era sempre a mesma: se for aceite nós contactamos", conta. Mas a resposta nunca veio e durante um mês Vasco Mendes sentiu na "pele" a crise de emprego com que Portugal se debatia.

A solução surgiu através do TT. "Até aí, nem tinha uma ideia muito positiva deste regime laboral. Achava que devia ser difícil às pessoas sujeitarem-se a trabalhar por períodos tão curtos e sem qualquer esperança de futuro", explica. Mas Vasco Mendes acabou por mudar a sua opinião porque logo que se inscreveu numa empresa de TT, foi chamado de imediato.

Desde Janeiro deste ano que se encontra a trabalhar como escriturário e verifica que tem sido uma experiência muito positiva. "O ambiente de trabalho é muito bom e procuro empenhar-me para corresponder ao que esperam de mim", refere. Vasco entende agora porque a entidade patronal recorre muito ao TT: "As empresas precisam de avaliar as pessoas que pretendem recrutar e consoante o desempenho do trabalhador temporário, eles escolhem aquele que se adapta melhor às funções pretendidas".

O mais difícil neste tipo de trabalho, é na opinião deste profissional, os contratos mensais. "Naturalmente que alguns podem ser renováveis mas o facto de todos os meses sermos confrontados com a continuação ou não na empresa, é o mais complicado de gerir", explica. Mas Vasco Mendes alimenta a esperança de vir a integrar os quadros da instituição onde se encontra neste momento. Além disso, está a frequentar o curso de informática no ensino nocturno, o que poderá ajudar na preferência da empresa pelos seus serviços.

Para Sandra Costa, de 28 anos, o TT foi uma opção pessoal. Contudo, garante que apesar da sua decisão, o TT surgiu por necessidade. "No emprego em que me encontrava há cerca de um ano não ganhava o suficiente para fazer face às despesas mensais. Não podia ficar ali e iniciei a minha pesquisa pelo mercado de trabalho em busca de algo melhor. Foi assim que cheguei a uma empresa de TT", lembra.

Também esta trabalhadora não era adepta da ideia de algum dia recorrer ao TT, "achava mesmo que nunca iria para um regime de trabalho desta natureza. Para mais, vivo sozinha, tenho obrigações financeiras e o facto de não ter um emprego certo assustava-me. Mas afinal enganei-me".

Para o confirmar, está o facto de logo no dia seguinte à sua inscrição na empresa de TT, foi chamada para se apresentar numa empresa para exercer as funções de administrativa.

Decorreu um ano e Sandra Costa nunca mais deixou de trabalhar. Já esteve em quatro empresas e em seis meses ficou apenas um dia em casa. "Assim que acabo um contrato, sou chamada para outro. E isso tem sido muito positivo porque vou adquirindo experiências e tenho sempre a esperança que um dia acabe por ficar numa das empresas por onde passo", revela.

"É difícil quebrar os laços afectivos"

Um dos pontos negativos relativamente ao TT é, na opinião de Sandra Costa, a ruptura com os colegas das empresas por onde passa. "Quando começamos a estabelecer laços com as pessoas e nos vamos ambientando ao trabalho, temos de nos ir embora, e para mim, isso é o mais difícil", refere.

Mafalda Martins, de 25 anos, ainda não passou por essa experiência, porque se encontra na mesma empresa desde recorreu ao TT. Tudo aconteceu há cerca de um ano quando terminou a licenciatura em Engenharia de Ordenamento de Recursos Naturais. A procura do primeiro emprego foi difícil e não encontrou respostas positivas na área do seu curso. "Acabei por tentar também uma empresa de TT e foi precisamente aí que surgiu a solução para o meu problema", lembra.

Na realidade, foi na Adecco, empresa de trabalho temporário, que Mafalda entrou para o mundo laboral. Aqui trabalhou durante alguns meses e só depois foi colocada numa empresa com um contrato de quatro meses como Operadora de Registo de Dados. "Já passou quase um ano e ainda me encontro no mesmo sítio. Existe inclusive a perspectiva de ficar", adianta.

Apesar de não estar a trabalhar na área para a qual estudou, Mafalda Martins não se sente desmotivada, pelo contrário. "Gosto do que faço e onde estou. É muito gratificante porque estou a aumentar e a diversificar os meus conhecimentos. Não podemos ficar presas só ao curso que tiramos e desta forma, o leque de ofertas de trabalho pode ser maior".

Para esta trabalhadora o TT tem também a vantagem de nunca se ficar subjugado à rotina. Além disso, a necessidade de provar que possui capacidades para desempenhar as funções exigidas, obriga a um empenho maior. "Isso obriga a um esforço adicional e a tentarmo-nos superar todos os dias", salienta Mafalda.

Uma das situações mais ingratas para o trabalhador temporário, é na opinião desta profissional, o acesso às regalias sociais: "Nós temos todos os direitos legais, nomeadamente as férias e os subsídios, mas somos prejudicados em relação aos trabalhadores dos quadros".

Outro dos inconvenientes do trabalho temporário, é para Mafalda Martins, a insegurança do futuro. Segundo esta profissional, o que poderá ser bom para os jovens que ganham experiência "não será para as pessoas que tenham família construída e que não podem dar-se ao 'luxo' de apostar num destino incerto.


 

 







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