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Stresse: a nova epidemia do mundo laboral

11.04.2003


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Katya Delimbeuf

É, PROVAVELMENTE, uma das palavras que mais usamos, nos dias que correm. Cada vez mais. "Andamos stressados". "A vida está um stresse". Não há como escapar-lhe.






Guia de combate e prevenção




Aportuguesámos a palavra e acolhêmo-la, como um amigo a quem se dá guarida, no seio do nosso trabalho, da nossa casa e até da nossa família. O stresse é, hoje, uma das principais causas de atrito laboral e familiar, e poucos parecem saber o que fazer para o conseguir expulsar da sua vida.

Aqui ficam as causas, físicas e psicológicas, do stresse, e alguns conselhos para melhor o combater.

Apesar de termos tendência para achar que o stresse é um fenómeno marcadamente contemporâneo, a verdade é que a palavra, enquanto conceito científico, existe desde o século XVII, na área da física.

Foi pela primeira vez aplicada ao ser humano na década de 30 do século XX, pelo médico Hans Selye, para definir a reacção de um organismo perante situações adversas.

No entanto, conforme explica Marco Ramos, director clínico do Instituto de Prevenção do Stresse e Saúde Ocupacional (IPSSO), no Caramulo, "foi sobretudo nos anos 70-80 que o stresse entrou no dia-a-dia das pessoas, com as transformações sociais e culturais associadas ao trabalho. O stresse existe desde sempre, mas o caldo social, político, económico e cultural em que ele melhor prolifera é recente. Sempre acompanhou a existência humana, só que actualmente há uma maior variedade, quantidade e intensidade de causas de stresse, a par de uma diminuição considerável dos recursos para lhe fazer frente. Por isso, ele parece um fenómeno contemporâneo, quando na verdade apenas é mais visível".

Segundo o psicólogo, existem três causas principais de stresse, hoje em dia, e todas preocupantemente relacionadas com uma em particular: o trabalho. A conciliação entre o trabalho e a família, e os valores sociais, "marcadamente construídos em torno do trabalho", são os dois outros.

Em boa verdade, a matriz de quase todos os factores de stresse está ligada ao universo laboral. O trabalho, pelo menos, nos moldes em que actualmente existe, é quase sempre o início e o fim das causas de stresse na vida das pessoas; o que não deixa de constituir matéria para reflexão.

"O trabalho tem estado acentuadamente ligado ao stresse, por causa de factores como a insegurança, a precariedade de condições, a crise económica, a má formação das pessoas que fazem do trabalho uma selva, onde reina o espírito salve-se quem puder em vez de um lugar de bem-estar e crescimento pessoal e social", afirma o psicólogo. "A conciliação do trabalho com a família tem-se feito sempre em desfavor da família - basta ver-se a taxa de divórcios -, e até em desfavor da vida conjugal - é incrível a falta de cumplicidade que assola os casais... Por último, os valores sociais, marcadamente construídos em torno do trabalho, promovem perversamente o individualismo e o isolamento social -, o consumismo (compram-se telemóveis com imagens e vídeo para estarmos mais perto dos que amamos, mas não arranjamos tempo para estar com eles), o desajustamento psicológico e a má saúde mental - repare-se no consumo de antidepressivos e ansiolíticos, que não pára de crescer".

Na verdade, "as pessoas que chegam ao IPSSO queixam-se da vida pessoal/conjugal/familiar, directa ou indirectamente, por causa da vida no trabalho. E isto tem que ver com a falta de tempo. Sobretudo, quatro tipos de falta de tempo: falta de tempo para actividades de união e coesão conjugal e familiar; falta de tempo para a vida pessoal e íntima; falta de tempo para a vida social e cívica; e falta de tempo para digerir os acontecimentos e dar resposta às solicitações, a começar pelo trabalho e a acabar na família".

No fundo, é aquilo que o psicólogo resume, quando se lhe pergunta qual o diagnóstico mais comum que aparece no IPSSO, da seguinte forma: "Falta de sentido para a vida. Como se dissessem: o que fiz eu da minha vida?". 60% dos que procuram o Instituto de Prevenção do Stresse são mulheres entre os 35 e os 45 anos, com filhos, oriundas sobretudo da Grande Lisboa, Grande Porto, Aveiro, Guimarães, Braga e Leiria. Marco Ramos salienta ainda que o mais difícil é não voltar a cair nos mesmos hábitos - "Mudar é a coisa mais difícil para qualquer pessoa. Mas é a mudar que crescemos, não é?".

Mas o stresse não tem que ser um fenómeno forçosamente negativo. Desde que devidamente canalizado, pode ser aproveitado, como de resto o é, habitualmente para garantir as produtividade, no universo laboral.

O IPSSO também faz tratamentos de empresas, às quais diagnostica situações de stresse laboral e prescreve medidas correctoras, de acordo com as necessidades e desejos das organizações.

Marco Ramos garante: "Não há empresas que não estejam stressadas. Uma empresa que não está stressada não é viva, capaz, criativa, flexível. Ou seja, é uma firma à espera de falir. O stresse também pode ser motor do crescimento e do desenvolvimento. Basta aproveitá-lo nesse sentido, evitando que ele se instale negativamente".
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Guia de combate e prevenção

"Em rigor, não se pode evitar o stresse", assegura Marco Ramos. A afirmação provoca-nos um imediato franzir de sobrolho de preocupação. "Mas podem-se evitar as suas consequências negativas, para a saúde individual e para o rendimento organizacional. Pode-se controlar ou eliminar as suas causas".

Em regra, os primeiros sinais do stresse são os seguintes: cansaço,
irritabilidade, perturbações do sono, dificuldades de concentração, problemas de memória, desmotivação, tristeza, ansiedade e angústia, perda do apetite sexual, taquicardias e hipertensão, problemas digestivos


O QUE PODEMOS FAZER?


1) Reconhecer que não estamos bem e que não temos que andar assim

2) Diagnosticar o que nos causa stresse e perceber porquê. "Por vezes, não é tanto determinado acontecimento que nos faz sofrer, mas a forma como o valorizamos ou até o facto dele pôr em cheque um aspecto da personalidade que merece ser revisto", afirma o clínico.

3) Perceber o que nos falta para saber lidar com o stresse, em termos de competências psicológicas e em termos de recursos sociais.
Depois, procurar obter o que nos falta.

A nível organizacional, os sinais mais visíveis são o absentismo e o aumento do número de acidentes no trabalho, além dos erros na tomada de decisões.


O QUE PODEMOS FAZER?


1) Saber que o stresse existe na nossa empresa e não o ignorar

2) Diagnosticar as situações na empresa que geram stresse

3) Diagnosticar os sintomas individuais de stresse e os custos, directos e indirectos, suportados pela empresa por causa deste

4) Estabelecer um programa de intervenção a vários níveis:

a) Mudanças organizacionais - eliminar as causas de stresse que podem ser suprimidas, controlar os efeitos das que não podem ser

b )Formação experiencial, para as pessoas aprenderem de facto a lidar com o stresse

c) Encaminhamento para ajuda clínica das pessoas já afectadas pelo stresse

5) Avaliação dos resultados, sobretudo a nível financeiro; para confirmar aquilo que alguns estudos já mostram: a gestão organizacional do stresse é mais barata do que os custos do stresse não gerido.


 





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