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Reformados e activos

13.02.2004


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Fernanda Pedro, Ruben Eiras

PARAR é morrer. Esta é uma frase que habitualmente muitas pessoas utilizam quando atingem a idade da reforma. Para contrariar essa ideia, muitos deles decidem não baixar os braços e continuar com uma actividade profissional.


A perspectiva de calçarem as pantufas, sentarem-se no sofá a ver televisão, irem para um banco do jardim ou jogarem às cartas no café mais próximo não os entusiasma.

Bem pelo contrário, essas situações são incompatíveis com as suas personalidades e pretendem, apesar da idade, integrar a sociedade activa até que as capacidades físicas os limitem.

O Ministério da Segurança Social e do Trabalho refere que são 64.007 as pessoas que se enquadram neste perfil e a quem a segurança social paga uma melhoria de pensão, resultantes do esforço contributivo efectuado posteriormente à reforma.

Deste segmento, são os trabalhadores mais qualificados que optam pelo prolongamento da actividade profissional.

Brandão Pereira, de 70 anos é um desses casos que ainda continuam a "mexer" mesmo depois de reformado.

Depois de uma carreira militar como oficial da Marinha e de trabalhar em várias empresas como especialista de organização ou gestão de recursos humanos, quando passou à reserva, Brandão Pereira não conseguiu ficar parado quando a idade assim o obrigou.

Como consultor, este reformado continuou a trabalhar na área em que estava inserido, "não de uma forma obrigatória, mas sim como necessidade de continuar a dar um contributo a nível profissional".

Foi com essa ideia que chegou até à Associação Portuguesa de Consultores Seniores (APCS) há nove anos.

Hoje, é o presidente desta instituição e refere que aqui todos os profissionais que não estejam incompatibilizados com a sua actividade e que queiram dar um contributo profissional, podem fazê-lo.

Consultoria, auditoria, peritagem e arbitragem, são algumas das funções que qualquer profissional pode fazer mesmo depois da reforma na APCS. "É um voluntário técnico, mas que pode ajudar muito quem precise de algumas orientações de profissionais experientes", explica Brandão Pereira.

Mário Ceitil, director associado da CEGOC, refere que estes profissionais são muitas vezes disputados pelas empresas porque estas "procuram genericamente ou serviços de apoio ou, então, a experiência e o conhecimento acumulados dessas pessoas, utilizando-os, muitas vezes como assessores, sobretudo, quando estes reformados são pessoas altamente qualificadas".

Juntar o útil ao agradável

Nesse sentido, Mário Ceitil observa que as actividades mais procuradas são as de consultoria e de assessoria. Isto porque não são tão constrangedoras em relação a regras como, por exemplo, horários de trabalho ou compromissos em relação a resultados.

"O reformado quer manter-se útil, mas sem os constrangimentos e o stresse que tinha anteriormente. Gosta de trabalhar, sente que ainda tem vigor e entusiasmo para fazer coisas úteis e, obviamente, arranjar uns complementos financeiros para a sua reforma", salienta o especialista.

Aquele responsável garante ainda que estes reformados querem também "ter tempo para fazer as suas caminhadas, os seus ginásios, o seu golfe... e tudo aquilo de que ainda for capaz e a sua imaginação permitir".

Um dos grandes objectivos de muitos reformados é ter tempo suficiente para se dedicarem às actividades de que mais gostam e não ficarem fechados em casa. Quer seja em actividades pessoais ou profissionais, o importante é não ficar parado.

Martinho Albano, reformado e com 64 anos de idade, pensa desta forma. Durante 33 anos trabalhou na Carris, como caixa-bilheteiro. Quando chegou o momento da empresa renovar os seus quadros em 1997, Martinho decidiu sair com uma indemnização, indo para o fundo de desemprego.

Em 2001 chegou a reforma. Esteve ainda quatro anos sem exercer qualquer actividade, mas nunca foi um homem de ficar em casa.

Foi por isso que há cerca de dois anos lhe perguntaram se queria fazer umas horas como auxiliar de educação na Escola Secundária Emídio Navarro, em Almada.

Martinho nem hesitou, aceitou no momento. "Comecei logo ao outro dia. Não sou capaz de estar parado e foi uma maneira de ocupar o meu tempo", explica o reformado.

Com um horário das 15h às 19h30, Martinho passa agora este período da sua vida preocupado em garantir a segurança na entrada e saída dos alunos no estabelecimento de ensino.

"Gosto muito de exercer esta actividade e consigo igualmente ter tempo para mim e para a família", reconhece Martinho Albano.

Uma fonte de criação de emprego

Além destes casos, Mário Ceitil garante que os reformados podem vir a ter uma expressão significativa no aumento das taxas de auto-emprego e na criação de postos de trabalho, gerando pequenas empresas numa base familiar ou em parcerias de vários sócios.

Contudo, este especialista alerta para outro tipo de situação, menos feliz e mais preocupante: "é a daquele tipo de pessoas que se tornaram verdadeiros 'workaholics' e que, em situação de reforma, não conseguem definir outro tipo de rumo para a sua vida, procurando outra actividade profissional como forma de fugir à depressão".

Neste tipo de situações, Mário Ceitil, assegura que a reforma pode acarretar custos psicológicos sérios para os próprios reformados e as suas famílias, pelo que, "muitas vezes, uma nova ocupação pode ser um 'escape' importante".

Claro que para este responsável, a situação mais feliz de todas é aquela em que é a própria pessoa que toma a iniciativa de procurar uma reforma antecipada, para se poder dedicar a actividades que lhe dêem maior gratificação pessoal.

"Seja como for, é fundamental que cada pessoa procure gerir a sua vida como uma linha contínua, procurando equilibrar uma carreira profissional de sucesso com uma vida pessoal e emocional rica, que lhe permita manter os equilíbrios em todas as fases da sua existência", remata o especialista.

Qualificados lideram reforma activa

OS portugueses mais qualificados e com maior nível de escolaridade são mais propensos a permanecer a trabalhar depois da idade da reforma.

Esta é uma das principais conclusões do estudo "Trabalhadores mais velhos: políticas públicas e práticas empresariais", da autoria de Nuno Nóbrega Pestana, investigador na Direcção Geral de Emprego e Relações de Trabalho do Ministério da Segurança Social e do Trabalho.

Com base na análise dos Quadros de Pessoal de 2000, aquele especialista constatou que, na generalidade, os trabalhadores por conta de outrem tendem a permanecer activos até à idade da reforma. Mas quando a atingem a maioria aposenta-se.

Por outro lado, embora a tendência dos seniores licenciados seja sair mais cedo da sua actividade, aqueles que continuam activos até à idade da reforma são mais propensos a adiar o fim da sua era laboral.

No plano da qualificação, os dados mostram que existe um aumento significativo da proporção de quadros superiores nos grupos etários entre os 60 e os 64 anos e de 65 e mais anos (passa de 7,5% para 12,6%).

Ou seja, face a outros níveis de qualificação, esta variação poderá indicar uma maior propensão dos trabalhadores por conta de outrem com este nível de qualificação para permanecerem empregados além dos 65 anos.





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