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Quem quer ser jornalista?

17.02.2005


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Diogo Archer


AQUELA que era, até ao 25 de Abril, uma profissão aprendida na redacção, com a «tarimba» da experiência, mudou radicalmente com a transição para a democracia.

Além do fim da censura, o ofício de jornalista passou a ter que lidar com profundas transformações sociais e profissionais, que o obrigaram a maior esforço de adaptação à realidade.

O surgimento de cursos de Comunicação Social no início dos anos oitenta foi o primeiro passo no sentido da qualificação adequada dos profissionais que actuavam nesta área de actividade. Alguns anos depois, o mercado começou a exigir uma certa especialização, por áreas (economia, sociedade, política, justiça, desporto, etc), e os jornalistas tiveram que voltar a investir na sua própria formação. Actualmente a segmentação é de tal ordem que já começaram a surgir associações de jornalistas por áreas de trabalho.

Sobre o surgimento de cursos de Comunicação Social, Fernando Cascais, director do Centro Protocolar de Formação de Jornalistas (Cenjor) explica que «foi algo que veio trazer um acréscimo qualitativo na formação. A questão é que a oferta que existe hoje é excessiva».

Outro aspecto crítico relativamente aos cursos de Comunicação Social ou de Ciências de Comunicação diz respeito aos seus currículos, «desfasados da realidade do jornalismo», salienta José Luiz Fernandes, vice-presidente do Sindicato de Jornalistas (SJ) com o pelouro da formação.

Na opinião do responsável do Cenjor, é importante a base cultural proporcionada pelos cursos de comunicação, embora a parte prática seja descuidada. Por outro lado, ter uma licenciatura em áreas como Economia ou Direito, seguido da aprendizagem das técnicas de escrita, pode trazer benefícios. «Ter conhecimentos teóricos sobre questões como o Orçamento do Estado pode traduzir-se num maior domínio sobre estas áreas e correspondente melhoria na preparação para as entrevistas. O senão advém do perigo para entrar em pormenores técnicos e os textos não serem perceptíveis para leitores menos informados».

Para o professor Eduardo Prado Coelho, o jornalista que tenha uma formação genérica, não especializada numa área deve passar por um «trabalho pessoal de ir conhecendo o mundo, numa aprendizagem constante». Por outro lado, os chamados especialistas devem sobretudo «saber ler com atenção a informação. No entanto, por vezes nota-se, nas entrevistas, um conhecimento superficial das questões».

Na opinião de José Luiz Fernandes, «o que é necessário é entender a matéria-prima do jornalismo e a realidade em toda a sua complexidade, independentemente da formação de base escolhida».

Actualmente, o Cenjor e a Associação Portuguesa de Radiodifusão lideram as acções formativas na área da imprensa, onde a área da Tecnologias de Informação assume um papel de crescente destaque. Fernando Cascais considera, porém, que ainda há alguns obstáculos à formação contínua, nomeadamente ao nível dos custos.

A exiguidade dos quadros das redacções, dificultando a dispensa dos jornalistas para frequentarem acções formativas, é também uma limitação. «A formação profissional implica um investimento para as empresas, logo é difícil de cumprir», explica o responsável.

João Palmeiro, presidente da Associação de Imprensa Portuguesa (AIND), frisa, por outro lado, que «os cursos que a maior parte das empresas oferece não estão certificados no âmbito do IEFP, pelo que dificilmente podem influenciar a progressão da carreira do jornalista».

Impõe-se, por isso, segundo este responsável, um novo modelo público de formação para jornalistas cujo reconhecimento possa ser proveitoso para todas as partes.



Nunca é tarde para aprender

O CENTRO de formação da Rádio e Televisão, que promove acções de formação para jornalistas do grupo RTP, é apontado como um exemplo na área da reciclagem de conhecimentos. Abriu formalmente em Junho de 2004, apesar de as acções terem começado no inicio do ano. «O centro pretende realizar uma vasta acção de actualização de competências, após muito tempo sem qualquer iniciativo do género», explica Eduardo Oliveira e Silva, responsável do projecto. Neste momento já passaram pelo processo de reconversão profissional cerca de 120 jornalistas de rádio e 70 de televisão, «alguns deles com dez anos de casa».

O conteúdo formativo alberga as áreas de Televisão, Rádio e Equipamento Técnico. O ênfase do curso passa, entre outros aspectos, por «técnicas de apresentação (postura) frente às câmaras, colocação de voz, produção e multimédia». Esta última área está em expansão, principalmente no que respeita às «SMS» (mensagens escritas de telemóvel), estando a proceder-se à formação de formadores para o centro. «Todo este processo está a ser realizado em coordenação com as redacções da RTP e RDP, de modo a que haja disponibilidade para dar dispensa aos jornalistas e também de modo a criar sinergias entre os dois meios de comunicação», remata Eduardo Oliveira e Silva.

 





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