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Porto combate abandono escolar

08.02.2003


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Cátia Mateus

O ABANDONO escolar precoce é, nos dias que correm, garantia quase certa para uma situação laboral precária e mal remunerada. Mas é também uma "opção" que pode abrir caminho à marginalidade.


Para combater esta tendência, o Instituto Superior de Serviço Social do Porto (ISSSP) e a associação Qualificar para Incluir (QPI) uniram-se no projecto "Reconstruir a Identidade Social no Contexto da Socialização Inclusiva".

Criado no ano 2000, este projecto beneficia anualmente cerca de 120 adolescentes dos vários bairros degradados da zona do Porto.
Há três anos, a percentagem de abandono escolar precoce (com o 5º ou 6º anos de escolaridade) entre a população jovem residente em três bairros da zona do Porto - Rainha D. Leonor, Pasteleira e Pinheiro Torres - excedia dos 50%, de acordo com um inquérito realizado pelo ISSSP e a QPI.

Uma situação de forte desqualificação que veio mais uma vez confirmar uma necessidade já detectada pelas duas instituições: resgatar os adolescentes em risco. Trazê-los de volta para o ensino. À partida, a tarefa não se apresentou nada fácil, mas era demasiado importante para dar lugar a desistências.

O ISSSP e a QPI criaram em conjunto o referido projecto. A meta é ajudar os jovens (entre os 11 e os 17 anos de idade) provenientes de áreas residenciais tendencialmente desfavorecidas, no Grande Porto, a encontrar um projecto de vida compatível com as exigências da sociedade actual. O caminho é o da qualificação.

"A nossa actuação sustenta-se no acompanhamento dos jovens, que na sua socialização familiar foram gravemente impossibilitados de crescer, procurando, através do apoio de um grupo de professores, conduzi-los a uma solução de formação qualificante que lhes permita uma autonomia no futuro"
, explica Cidália Queiroz, presidente da direcção da Qualificar para Incluir e responsável pela orientação e coordenação da acção no terreno.

Para concretizar este objectivo, as duas instituições conceberam um projecto de actuação que articula um vasto conjunto de intervenções, "todas elas subordinadas à tarefa crucial de criar uma relação de confiança mútua e um vínculo entre os jovens e a equipa técnica".

Na prática, os jovens são integrados em grupos de oito elementos e acompanhados por uma equipa formada por professores, assistente social e alunos do ISSSP. São posteriormente envolvidos num plano de trabalho para o acompanhamento do estudo das matérias escolares - "com a articulação de dinâmicas de grupo orientadas para a simulação de situações geradoras de reflexão sobre valores, sentimentos, comunicação, regras de conduta, dilemas e problemas da vida quotidiana" -, ao mesmo tempo que introduz a prática de um conjunto de actividades artísticas, culturais e desportivas.

Minimizar a rejeição ao meio escolar

Segundo Cidália Queiroz, "há uma distância cultural muito grande entre o que vem nos livros e a vivência real destes miúdos - e é necessário cativá-los para o ensino". A responsável não tem dúvidas de que o sistema de ensino não está preparado para escolarizar estes jovens. "Trata-se de jovens com taxas muito elevadas de insucesso escolar desde a escola primária. Por outro lado, são, regra geral, crianças entregues a si mesmas. As famílias estão muito alheias às exigências do sistema de ensino e são pouco participativas", explica.

Talvez por isso, um dos grandes papéis deste projecto é garantir o acompanhamento dos jovens "nos bons e maus momentos", tal como uma família. Para a responsável, é nesta "partilha" que reside uma percentagem do sucesso do programa. "Ao sentirem que têm alguém que partilha com eles os progressos escolares, os jovens acabam por entender que não estão sozinhos neste processo e que o empenho deles é também um empenho de muita gente", garante Cidália Queiroz.

Para lá de um intenso trabalho de mediação cultural, privilegiando a descodificação sistemática das linguagens, a compreensão dos conteúdos (em vez da memorização) e a demonstração da utilidade dos conhecimentos, "a orientação do projecto tem em vista a aplicação prática do equilíbrio, sempre muito difícil e instável, entre a compreensão empática e a marcação de limites", explica Cidália Queiroz.

Actualmente, o projecto dá apoio a 117 jovens - 27 no ensino recorrente e 90 no regime normal. É no primeiro grupo que o programa atinge maior percentagem de sucesso. "Pelo facto de as aulas decorrerem durante a noite, os jovens têm um maior acompanhamento durante o dia. Regra geral, estão connosco diariamente, passam o dia a estudar, são depois conduzidos à escola e, no final das aulas, são transportados para casa", explica.

Um acompanhamento que não se torna possível com os jovens da via de ensino regular. A elevada carga horária faz com que o seu contacto com a equipa de apoio se resuma a dois dias por semana.

Ainda assim, Cidália Queiroz faz um balanço positivo dos resultados do programa. "O grupo recorrente conseguiu uma taxa de sucesso de 100%, enquanto no ensino regular ficámos pelos 60%", conclui.

Ainda assim, para a responsável, o projecto está no bom caminho. Cidália Queiroz não hesita em afirmar que, "apesar de se tratar de crianças que desmotivam com muita facilidade, o projecto tem condições para promover a integração séria destes miúdos".

Para a presidente da direcção da QPI, "é um projecto que permite ganhos para todos. Para os alunos, que terão um futuro melhor, se pensarmos que numa economia mais exigente se torna difícil a entrada dos jovens com níveis baixos de qualificação na vida activa; para as escolas, porque reduz as taxas de abandono e insucesso escolar; e para a sociedade em si, já que minimiza os riscos de exclusão".







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