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Por conta de outrem

Os portugueses são o povo da Europa que mais valoriza o emprego por conta de outrem. A criação do próprio negócio está na mira de muitos, mas poucos passam da teoria à prática. Em dois anos, o país perdeu cerca de 49 mil empresas
11.05.2007


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Cátia Mateus
Os dados mais recentes não deixam margem para dúvidas. Em dois anos, Portugal perdeu 48.500 micro e pequenas empresas, negócios capazes de gerar emprego a terceiros e dinamizar a economia, que não resistiram a uma conjuntura económica adversa. Os portugueses continuam a ser o povo europeu mais dependente de outrem em matéria de emprego e o empreendedorismo atrai, mas não o suficiente para dar o passo em frente. Uma realidade que o presidente da associação de pequenas e médias empresas PME Portugal, Joaquim Rocha da Cunha, encara com preocupação e receio.


Ana Ávila criou em 2002 a sua própria empresa, depois de largos anos a trabalhar por conta de outrem, na área do «marketing». Deu o salto para um negócio próprio “em parte aliciada por uma maior facilidade na gestão do tempo já que tinha sido mãe há relativamente pouco tempo”, relembra. No arranque da empresa, uma editora contou com um sócio que se revelou fatal. “Cerca de dois anos depois da criação da empresa, o meu sócio quis abandonar o projecto e estávamos na fase de crescimento decisivo da empresa. Ainda tentei aguentar o projecto sozinha, mas a área era muito competitiva e acabei por optar regressar ao mercado de trabalho”, explica Ana.

Igual destino teve Pedro Almeida que calculou mal o seu negócio. Natural do distrito de Viseu, Pedro resolveu criar com uma prima uma loja de reciclagem de roupa (remodelação de vestuário usado) naquela cidade. Aquilo que aparentemente seria um negócio de sucesso e com forte adesão por parte do público jovem acabou por se revelar “uma aposta deslumbrada”, segundo o empreendedor. “Investimos muito no aluguer de um espaço, decoração e material e negligenciámos a divulgação do conceito de negócio e adequação dos preços e serviços à região”, enfatiza Pedro. A sua empresa durou apenas um ano e meio.

Estes dois casos não são raridades num país onde a vontade de trabalhar por conta própria é superior à da média europeia (78% em Portugal contra os 45% da média europeia, à luz dos dados do último Eurobarómetro), mas onde o receio do fracasso ainda impede a maioria dos trabalhadores que ambicionam empreender (62%) de trocarem um emprego por conta de outrem por um negócio próprio.

Na verdade, segundo Joaquim Cunha, “os primeiros três anos são os mais dramáticos na vida de uma empresa, designando-se até ‘vale da morte'”. O presidente da PME Portugal esclarece, contudo, que “as empresas que vimos fechar podem não estar exactamente nos seus primeiros anos de vida”. Até porque na opinião do especialista, esta perda de quase 49 mil empresas nos últimos dois anos está relacionada com uma “crise generalizada de confiança, um peso excessivo do Estado, da burocracia, dos impostos e com falta de estímulo ao empreendedorismo com políticas económicas que se baseiam na imagem do «big is beautiful» ao invés do «small is beautiful» fazendo crer que só as empresas de grande dimensão têm valor.

São várias as razões que podem conduzir à ‘morte' de um negócio mas o presidente da PME Portugal aponta a “falta de viabilidade económica, a ausência de mercados ou de liquidez desses mercados e o desânimo dos promotores” como principais problemas. Joaquim Cunha acrescenta ainda que “no caso das micro e pequenas empresas, cá como em todo o lado, vivem à volta da figura do seu criador e sócio-gerente. Se ele acredita, consegue e concretiza, então as coisas acontecem. Agora, se é tratado como um explorador, como acontece em Portugal, então o desânimo instala-se”.

De acordo com o Banco de Portugal, além da quebra de 48.500 empresas em dois anos, Portugal assistiu também a uma redução do número de trabalhadores por conta própria (prestadores de serviços) e empresários em nome individual sem funcionários a seu cargo que eram em 2006 menos 21 mil do que os existentes em 2004. Para o presidente da PME Portugal, “há muito que a associação vinha sentindo as dificuldades e o agravar desta conjuntura”. O responsável garante que nos últimos dois anos, apesar da entrada de milhares de associados, houve muitas desistências por encerramento da actividade.

Ainda que não seja possível determinar com exactidão o número de empresas e os sectores onde mais falências se registaram no último ano, Joaquim Cunha assegura que em matéria de regiões “o norte e o centro deverão liderar pois são as únicas regiões realmente viradas para a exportação e expostas à globalização, sem as protecções administrativas de que beneficiam as empresas que exploram os monopólios”. Contudo, o especialista aponta a indústria transformadora (particularmente a têxtil), a construção e o comércio tradicional como os principais líderes nas falências.

Inverter esta tendência passa, segundo Joaquim Cunha, por “mudar a atitude face aos empreendedores”. É que para o presidente da PME Portugal, “enquanto for mais compensador ser funcionário público ou quadro de uma multinacional teremos cada vez menos empreendedores e gestores nas PME menos qualificados. As coisas não se mudam apenas com anúncios ou ensinando o empreendedorismo nas escolas. É preciso que a vida real mostre que vale a pena”.





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