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Os profissionais do CO2

18.11.2005


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Marisa Antunes

FOI baptizado como Mercado do Carbono e nele está subjacente a consciência ambiental dos países que se comprometeram, através do Protocolo de Quioto, a reduzir o efeito de estufa do planeta. Um esforço convertido em multas e créditos consoante se emite mais ou menos dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera. A introdução de novos mecanismos menos poluidores no processo de produção começou, entretanto, a dinamizar - ainda que timidamente -, o mercado de trabalho em Portugal.


Como aponta Humberto Rosa, secretário de Estado do Ambiente ao EXPRESSO, «o mercado do carbono já criou novas oportunidades de negócio no âmbito da consultoria ambiental e existe toda uma frente directa de criação de emprego associado aos operadores ao nível de apoio na monitorização das emissões, nos relatórios que as empresas devem emitir com os níveis de CO2, que por sua vez, são validados pelos 'verificadores' (que efectivam essas emissões)».

Mas não só. O governante lembra que, indirectamente, o mercado do carbono, ao surgir em complemento com as energias renováveis - fundamentais para produzir energia mais limpa -, é também responsável pela criação indirecta de postos de trabalho.

Tomás Ramos, especialista em emprego ambiental e docente na Faculdade do Ambiente, na Universidade do Algarve acredita também num dinamismo do mercado de trabalho associado a esta nova realidade: «Neste momento, é uma área prioritária e com um grande potencial em termos de criação de trabalho. As universidades já se aperceberam disso e muitas estão já a pensar em ter especializações e mestrados associados a esta área».

Para já, existem em Portugal 244 «operadores», ou seja, empresas dos sectores mais poluidores como a energia, cimento, papel ou o vidro a quem o Estado atribuiu licenças com limites de emissão de CO2. Esta semana foi activado o Registo Português de Licenças de Emissão (RPLE), que, na prática, permite a esses operadores deixarem de efectuar as suas transacções de CO2 no mercado de futuros, como faziam até agora, e passarem a fazê-lo no mercado corrente.

«Todas as empresas obrigadas pela Directiva ao comércio de emissões estão em movimento, adaptando as suas operações a esta nova realidade. Não tendo um conhecimento detalhado de todas as empresas posso afirmar que um grande número delas estão já a implementar estratégias de redução das emissões. E sem dúvida que as acções já em curso implicaram o reforço das equipas das empresas, pela necessidade de serem atendidas as novas competências técnicas exigidas por estas acções», refere Luís Rochartre, secretário-geral da BCSD Portugal Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Esta associação sem fins lucrativos, ligada à WBCSD - World Business Council for Sustainable Development, foi criada pela Sonae, Cimpor e Soporcel, em conjunto com 33 empresas, com o objectivo de promover a articulação entre o sector privado, Estado e sociedade civil nas questões que assentem no desenvolvimento sustentável como a eco-eficiência ou a responsabilidade social.

Além das adaptações funcionais nos chamados «operadores», surgiram também novas especializações nas multinacionais de auditoria e até empresas criadas de raiz para assessoria ambiental. «As primeiras empresas emergentes desta nova realidade são de consultoria técnica. Penso ainda que o mercado irá incentivar a criação de empresas especializadas na monitorização das emissões, bem como outras especializadas no desenvolvimento de estratégias de redução da intensidade energética e numa abordagem mais lata da eco-eficiência», reforça ainda Luís Rochartre.

A E-Value faz parte desse grupo de empresas emergentes cuja principal área de actuação se centra no mercado do carbono, não só prestando consultoria nos sectores mais poluidores mas também nos tradicionais. Um dos projectos da E-Value, em colaboração com a Associação dos Produtores Florestais assenta na criação de uma marca - o «Carbono Zero» - ao qual as empresas, se podem candidatar, se compensarem as suas emissões de CO2 através da reflorestação, por exemplo. «A receptividade das empresas está a ser muito boa, pois mesmo nos sectores tradicionais existe a consciência de que é uma oportunidade de negócio apostar neste tipo de marcas», explica José Eduardo Barroso, director da E-Value. Quanto às empresas dos sectores mais poluidores, dos chamados «operadores», só agora, com a activação do RPLE, se pode esperar um maior fluxo na requisição de serviços de consultoria ambiental, remata o director da E-Value.




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