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O que conta na escolha de um curso?

10.09.2004


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Cátia Mateus, Fernanda Pedro, Maribela Freitas e Ruben Eiras

RUI BRITO, 27 anos, demorou três anos até encontrar a sua vocação. Inserido numa família com fortes tradições na advocacia, não lhe foi dado muito espaço para optar por outra via. O pai já o encarava como advogado mesmo antes de entrar para a universidade. Um ano foi quanto passou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. "Não resisti mais. Não era, definitivamente, a minha vocação", confessa. Transitou para Relações Internacionais, mas também não ficou por aí. À terceira foi de vez. "Gestão é definitivamente aquilo que me fascina até porque tenho já um projecto empresarial em gestação", explica Rui Brito. Reconhece que, "muitas vezes a família influencia-nos a seguir por uma área que não é a melhor para o nosso perfil e é muito complicado ganhar algumas batalhas aos 18 ou 19 anos".


A vocação é fundamental, mas não chega


Sem receios, assume que "a decisão de tirar um curso de Gestão depois de duas experiências na área das humanidades não tem a ver com razões económicas". Embora reconheça que o mercado de trabalho na área das letras está muito mais saturado, garante que a sua escolha "é mesmo uma questão de vocação e gosto profissional".

A alternativa de Rui Brito em tentar estudar uma área que gosta já depois de ter definido o seu percurso profissional é um exemplo que pode ser seguido por outros jovens. E, na verdade, essa solução é por vezes aconselhada pelos orientadores de carreira.
Segundo Hélia Moura, directora de serviços de informação e orientação do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), a orientação profissional passa muito pelo papel de conselheiro e nunca de decisor, "porque esse cabe apenas à pessoa que está a iniciar a sua carreira".

Mas Hélia Moura refere que, por vezes, aquilo que os jovens consideram por vocação pode ser, na realidade, um interesse momentâneo e, "por isso, aconselhamos a que eles desenvolvam essa actividade apenas como um hóbi e só depois devem escolher".

O primado da vocação


Segundo Jorge Manuel Ribeiro, director nacional da área de recrutamento e selecção do Grupo Select Vedior, os factores mais determinantes na escolha de um curso superior são, em primeiro lugar, "a vocação do candidato" e, em segundo lugar, "a perspectiva de empregabilidade".

Para Maria José Bravo, responsável da empresa de recursos humanos Selgec, "hoje os jovens avaliam bem as componentes vocacional e económica na altura de seleccionar o curso a que irão concorrer".

A especialista adianta que se há alguns anos a preocupação era frequentar os cursos que davam prestígio, actualmente os jovens dão grande atenção às saídas profissionais. Maria José Bravo esclarece que "há já a mentalidade de que a vocação está acima de tudo" (ver caixa).

O exemplo de Joana Reis é paradigmático desta tendência. Com 25 anos, a escolha da licenciatura em Ciências da Comunicação e da Cultura na vertente de Jornalismo surgiu através do gosto pessoal pelas letras. Foi a partir do 10º ano de escolaridade que esse desejo se tornou mais claro e a opção pela comunicação social aconteceu depois de estudar as várias oportunidades de percurso profissional no mundo das letras.

Relativamente ao peso das saídas profissionais do curso que escolheu, Joana Reis refere que esse factor não influenciou a sua decisão, já que "actualmente em qualquer área é difícil a inserção no mercado de trabalho e por isso investi naquilo que gostava". Reconhece que não sofreu qualquer influência para seguir este curso, nem mesmo por parte da família.

Neste momento encontra-se a estagiar mas não quer fazer muitos planos para o futuro, porque o "mais importante é agarrar as oportunidades que surgem, deixar seguir o curso das coisas e acima de tudo mostrar muita vontade de trabalhar".

A marca do professor

De acordo com Cristina Silva, professora universitária da área da psicologia educacional, docente do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), outros factores que poderão condicionar a escolha de um curso são a pressão familiar para seguir determinado caminho, a perspectiva da remuneração que algumas profissões poderão proporcionar.

Além disso, sublinha que "a influência de um professor pode ser decisiva, nomeadamente se se gosta muito da disciplina que este lecciona. O problema é que muitas vezes se segue esse caminho sem ter consciência dos currículos e das saídas profissionais que este oferece", esclarece.

Na questão da orientação para um caminho profissional as escolas devem desempenhar um papel. "A escola deve ter uma palavra a dizer no auxílio para a orientação do aluno relativamente ao curso que este quer tirar. Ou seja, proporcionar os currículos, levá-los à recolha de informação e à verificação de saídas profissionais", remata Cristina Silva.


TRABALHAR COM PRAZER

QUANDO escolhem uma licenciatura, os jovens universitários portugueses valorizam acima de tudo um trabalho que lhes dê prazer e que seja ajustado à sua vocação.Este é um dos resultados de um recente estudo denominado "Diversidade na Universidade" conduzido em conjunto pelo Observatório Permanente da Juventude Portuguesa, um organismo do Instituto Português da Juventude, e uma equipa de investigadores do ISCTE. Os dados foram recolhidos com base em mais 200.000 inquéritos distribuídos por várias instituições de ensino superior nacional. Segundo aquela investigação, os outros factores que influenciam mais na escolha de um curso são o desejo de completar a formação para desenvolver potencialidades pessoais, conquistar uma profissão qualificada e razoavelmente bem remunerada e conseguir intervir na vida social.





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