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Navegar em trabalho temporário

09.05.2003


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Fernanda Pedro

O "Stad Amsterdam" é um veleiro de formação onde as tarefas são executadas por temporários.


A MANHÃ acordou com um sol radioso na cidade de Málaga, em Espanha. As ondas do mediterrâneo balouçavam suavemente o "Stad Amsterdam", um veleiro holandês construído em homenagem aos famosos "clippers" do século XIX.

Do porto seguiu rumo a Setúbal numa viagem de três dias. No estreito de Gibraltar desceu as velas e navegou em direcção ao cabo de S. Vicente e a temperatura amena deu lugar a ventos do norte fustigando o mar com vagas de quatro metros. A viagem serena transformou-se num turbilhão de enjoos apesar de ter valido a pena árdua tarefa de navegar a bordo do "Stad Amsterdam".

Mas afinal o que tem de especial este veleiro? Até aqui, nada de estranho, não fosse o facto deste navio pertencer a uma empresa de trabalho temporário holandesa, a Randstad e à cidade de Amesterdão.

A navegar desde 2000, o "Stad Amsterdan" tem a particularidade de ter sido totalmente construído por trabalhadores temporários. Hoje, além da tripulação fixa, o veleiro tem a função de dar formação e experiência profissional a todos aqueles que necessitem de um trabalho mesmo que seja em regime temporário.

O EXPRESSO subiu a bordo do "Stad Amsterdam" e viu como se vive e trabalha no navio holandês. Logo pela manhã, Hein Hermans, um jovem oriundo de Amsterdão encontrava-se na proa do navio e era com um especial cuidado que limpava o sino do veleiro. Os cabelos louros encaracolados agitavam-se ao sabor do vento e a sua pele bronzeada demonstrava que há algum tempo se encontra a navegar.

Na verdade, Hein está prestes a completar um ano de trabalho no Clipper e no final deste mês um novo desafio profissional irá surgir na sua vida. Qual? Ainda não sabe, porque Hein Hermans é um trabalhador temporário que durante um ano prestou serviço a bordo do "Stad Amsterdam".

Hein Hermans terminou o curso de informática e passou por algumas experiências profissionais como técnico nesta área. Em determinada altura ficou sem emprego e surgiu a oportunidade de trabalhar no "clipper" com um contrato de um ano. Apesar das múltiplas tarefas a cumprir a bordo, Hein garante que está a adorar a experiência.

Quando, em finais de Maio, deixar o navio não saberá o que irá fazer, contudo, diz que não voltará a navegar, porque "tenho namorada e isso seria incompatível com a minha vida pessoal".

Na realidade a conciliação deste trabalho - mesmo temporário -, com a família é, por vezes, o maior obstáculo para estes jovens. Que o diga Huib de Vries, que veio também da Holanda e exerce as funções de "barman" a bordo do navio. "Sempre adorei o mar e quando visitei o 'Stad Amsterdam' decidi que queria trabalhar aqui", lembra.

Mas essa decisão custou-lhe o final do namoro. Em contrapartida conheceu a futura mulher no veleiro, "caso-me em Junho e quando o meu contrato terminar daqui a um mês tenho a esperança de conseguir renovar por mais um ano", espera Huib.

Se tal não acontecer, o jovem "barman" pensa comprar uma carrinha e com a mulher ir correr a Europa até encontrar um emprego. "A minha profissão não tem fronteiras e até em Portugal posso encontrar trabalho", afirma confiante.

Formação a bordo

Dentro de um navio as experiências profissionais podem ser das mais variadas, mas a arte de navegação necessita de conhecimentos específicos. É por este motivo que o "Stad Amsterdam" tem a função de dar formação aos jovens que estudam nas escolas náuticas.

"Este navio tem a particularidade de dar emprego a jovens mas não só, também proporcionamos a aprendizagem de profissões marítimas. É por esse motivo que temos a bordo estagiários de escolas náuticas e da marinha holandesa", explica Pieter Brantjes, capitão do "Stad Amsterdam".

Maarten Out, é um futuro cadete da marinha, está neste momento na escola náutica a terminar o curso. Na sala de navegação os instrumentos são de alta tecnologia e Maarten estava atento ao GPS e à carta geográfica que se encontrava na mesa.

Entusiasmado, falou da sua paixão pelo mar: "O meu sonho desde criança é ser marinheiro. Quando terminar o curso vou continuar a navegar e seguir o meu percurso profissional nesta área, é tudo o que eu quero fazer".

Mesmo que a arte de navegar seja, na maioria das vezes uma profissão só para homens, actualmente também as mulheres vão sendo uma presença nos navios. Nic Gardner, é uma australiana de 22 anos que até hoje não fez outra coisa senão trabalhar em navios.

Apesar de se encontrarem a bordo quatro mulheres, Nic é a única a ter uma função de liderança em termos de navegação. A ela cabe-lhe a tarefa de dar formação à tripulação e distribui as tarefas dentro do navio. "Na Austrália, em qualquer curso desta área, a teoria é simultânea com a prática. Por isso é impensável tirar uma especialidade náutica sem ter qualquer experiência real com um navio", explica Nic.

Na verdade, o "Stad Amsterdam" é uma escola em movimento e que além da formação nas diversas profissões ali implícitas fortalece o espírito de equipa. É por esse motivo que a cidade de Amsterdão tem um projecto ainda mais ambicioso nesta área.

"Os jovens que por vezes se desviam do seu percurso normal de ensino e de vida são aconselhados e orientados a fazer uma experiência profissional a bordo do veleiro", explica Guy Mallet, director geral da Randstad em Portugal. Para este responsável, a participação de Portugal neste projecto pode também acontecer em breve.

Quando o "Stad Amsterdam" atracou em Setúbal ficou a sensação de que ter uma experiência de trabalho neste veleiro pode ser o sonho de muitos jovens portugueses que procuram ainda a sua vocação profissional.





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