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Moçambique atrai talento português

Moçambique atrai talento português

Há novas gerações a trocar Portugal pelo sonho africano. Com uma economia pujante, níveis de crescimento promissores e riquezas naturais incalculáveis, Moçambique, a Pérola do Índico, está cada vez mais na rota dos profissionais portugueses qualificados. Estima-se que no país vivam já cerca de 27 mil portugueses. O número que cresce a cada ano. Mas se Moçambique é um país a que nenhum estrangeiro fica indiferente, é também  uma nação de contrastes e de múltiplas realidades. 

27.06.2014 | Por Cátia Mateus


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A cada ano chegam a Moçambique centenas de portugueses à procura de um novo rumo profissional. Nem todos são empurrados pelas elevadas taxas de desemprego portuguesas ou pelo cenário de crise. Entre esta nova geração de emigrantes que escolhe Moçambique como destino há profissionais altamente qualificados em áreas como as Tecnologias de Informação, Banca, Hotelaria, Energia e muitas outras geradoras de oportunidades no mercado moçambicano e onde há elevada carência de perfis qualificados. Há também empreendedores que apostam no território para expandir ou lançar novos projetos. Viver em Moçambique é “maningue nice” (muito bom), mas nem tudo é um mar de rosas.

O povo é hospitaleiro e os portugueses fáceis de adaptar, mas Moçambique é um país de contrastes e tudo deve ser equacionado antes de aceitar um desafio profissional no país. “Trabalhar em Maputo é diferente de trabalhar na Beira ou em Nacala”, explica Carlos Sezões, partner da consultora de recrutamento Stanton Chase International. O especialista confirma que “Moçambique é claramente atrativo para os portugueses”. O país registou em 2013 um crescimento de 7% e deverá alcançar os 8% este ano, somando novos investimentos em várias áreas. Um contexto local que leva Carlos Sezões a considerar que o país “continuará a necessitar de profissionais talentosos que suportem as empresas aí presentes”. A afinidade linguística e cultural, o nível de condições de vida superior a outros países da lusofonia e as boas condições de remuneração praticadas reforçam este nível de atratividade.

Leonor Gomes corrobora esta visão. Com um percurso como empresária consolidado em Portugal, colocou pela primeira vez áfrica no seu “road map de vida” em 1993. Só em 2012 teve o “click” de partir. “Um dia numa conversa em que desabafava com o meu filho (na altura com 21 anos) o quanto me sentia triste com o contexto político-social português, não pela crise em si mas falta de visão dos decisores políticos no que tocava a medidas de incentivo para as empresas e motivações para os empresários, recebi como resposta um ‘se não estás feliz aqui, ou fazes alguma coisa para mudar ou... és livre para escolher qualquer outro lugar no mundo’”, relembra. Escolheu Moçambique. Na bagagem levou 23 anos de experiências e aprendizagens como empreendedora e empresária social, cinco anos como formadora, dez como mentora e dois anos como consultora e dirigente associativa. “Seriam seguramente valências úteis num país em crescimento”, pensou. E foram, mas não sem antes desbravar um longo caminho.

Depois de ter feito às malas na sua cabeça e ter interiorizado que iria prescindir de condições logísticas, de habitação, da presença da família e dos amigos  - “essas são as malas mais difíceis de fazer”, confessa – rumou ao país. Fez o que desaconselham todos os manuais, ao partir sem garantia de emprego, mas a sua ambição era detetar a melhor oportunidade para si, tendo em conta o seu percurso profissional, num país pleno de desafios.

Em janeiro de 2013 tinha já uma empresa constituída na área da formação e consultoria em empreendedorismo. Começou a promover workshops, a participar em congressos e a estabelecer parcerias de formação e apoio à promoção de novos negócios com instituições locais como o Instituto para a Promoção das Pequenas e Médias Empresas (IPEME) e a Televisão de Moçambique no âmbito do projeto Moçambique Empreende. Aos poucos foi ganhando mercado e chegou a dar formação à Autoridade Tributária do Xai Xai. Este mês, recebeu um novo desafio: coordenar a implementação dos novos cursos de pós-graduação da Escola de Negócios e Administração de Moçambique (ENAM), uma parceria do Instituto Superior de Transportes e Comunicações (Moçambique) com o ISCTE (Portugal).

“Encontrei-me num país distante e desconhecido, com um porto de abrigo que me deu o apoio necessário para me tornar autónoma”, relembra Leonor Gomes enfatizando o seu gosto pela conquista do desconhecido: “não era novo para mim encarar um ambiente desconhecido e um mundo de oportunidades para agarrar e não me refiro a um emprego. É-me estimulante e desafiante ter de construir algo a partir do zero. Talvez seja uma ‘descobridora deste século’, à semelhança dos descobridores do passado que hoje apresentamos como empreendedores”.

A portuguesa reconhece que nem todas as pessoas se adaptam a um desafio desta natureza e considera que abordar o mercado moçambicano exige muito “foco no objetivo de melhoria de vida, persistência e nunca desistir (existem muitos motivos para desistir mas prefiro salientar os outros!)”. Do futuro Leonor Gomes sabe apenas que se estipulou como meta permanecer em Moçambique por um período mínimo de dez anos. Quer dar “tempo para ter retorno do maior investimento de todos, o de mudar”.

Se a formação é uma oportunidade de carreira em Moçambique, um país onde falta profissionais qualificados em muitas áreas, há outros setores de atividade que Carlos Sezões identifica claramente como focos de oportunidade laboral para os portugueses, que até são beneficiados pelas empresas locais que lhes reconhecem competência técnica, mas também capacidade de adaptação e proximidade linguística. “Os dados de que dispomos apontam para cerca de 25 a 27 mil portugueses em Moçambique atualmente, com aumento anuais constantes”, explica acrescentando que “com o crescimento de alguns sectores (em particular o da energia) que requerem talento internacional com grande expertise técnica, é um número que certamente irá aumentar”. Energia (petróleo, gás natural e carvão), comunicações, transportes, serviços financeiros, infraestruturas e indústria mineira são, segundo o partner da Stanton Chase, setores onde é de prever que continuem a aumentar as oportunidades.

A quem decida rumar ao território, Carlos Sezões aconselha a que estude detalhadamente o contexto em que vai trabalhar em termos culturais e sociais, acautelando o conhecimento sólido sobre variáveis como a segurança, habitação, cuidados de saúde e transportes. “Não menos importante é obter a máxima informação sobre a empresa, o sector e outros dados para uma melhor gestão de carreira, nomeadamente se a oportunidade em cima da mesa pressupõe um novo projeto de vida e não um curto assignment de dois ou três anos”, conclui.

Investimento luso a crescer
País de múltiplas oportunidades, Moçambique é também uma terra de contrastes. Quem decide investir no país deve estudar em detalhe a região onde se vai sediar para minimizar riscos de inadaptação. Maputo, Beira, Tete, Nampula e Pemba são as áreas de maior crescimento e empregabilidade no território. Além dos cuidados com o alojamento, cuidados de saúde, escolas (se viajar com a família) e segurança, é fundamental também recolher o maior número de informação possível sobre potenciais empregadores ou até mesmo sobre a empresa onde vai trabalhar.

Para muitos portugueses a tarefa de integração profissional tem vindo a ser facilitada pelo número crescente de empresas nacionais que estão a expandir atividade para o território, podendo vir a recrutar portugueses para as suas operações locais. Segundo o Centro de Promoção de Investimento (CPI) moçambicano, Portugal liderou nos três primeiros meses do ano a lista de investidores estrangeiros no país, apresentando 43 projetos orçamentados em mais de 150 milhões de euros, entre 28 países e um investimento direto estrangeiro global de mais de 263 milhões de euros.

Além da banca onde é notória a presença portuguesa, empresas como a construtora Lúcios, a agência de publicidade Opal ou empresa de formação Rumos, entre muitas, apostaram em Moçambique. A Lúcios prevê mesmo triplicar a sua faturação no país, até ao final deste ano.



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