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Graciosa em «stand-by»

A ilha da Graciosa, nos Açores, tem muito para dar mas poucos são os que lá querem investir
28.02.2008


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Marisa Antunes
Tem 60 quilómetros quadrados de harmoniosas belezas naturais mas são poucos os turistas que a visitam. Tem peixe fresquinho do Atlântico, mas uma boa parte acaba no lixo por dificuldades de transporte em escoá-lo. Tem vacas criadas a pasto, mas o selo de qualidade da carne livre de anabolizantes acaba totalmente desperdiçado. São muitas as potencialidades existentes na Graciosa, nos Açores, mas a falta de investimentos e os acessos difíceis estão a asfixiar lentamente o futuro de quem lá vive.

Na semana que passou, durante os dois dias que durou o congresso de Economia, sob o tema ‘A ilha Graciosa e os desafios do desenvolvimento do século XXI', constatou-se que há ainda muito a fazer para travar a desertificação local. Com menos de 5000 habitantes, uma taxa brutal de envelhecimento que ronda os 140% (mais do dobro da taxa regional) e uma população activa que não chega às 1400 pessoas, a ilha tem vindo a perder, todos os anos, jovens que procuram oportunidades longe dali e que acabam por não mais voltar.

Enveredar pelo turismo diferenciador, não o de massas, pode ser uma das soluções de sobrevivência. António Moreira Carrizo, docente na Universidade de Aveiro e um dos oradores no congresso lembrou o exemplo das ilhas Baleares “que há trinta anos não eram muito diferentes dos Açores”. De facto, uma das ilhas das Baleares, Formentera, com os seus 17 quilómetros de comprimento e cinco de largura, pouco difere em dimensão da Graciosa mas soube explorar turisticamente bem o seu pequeno oásis de belezas naturais.

“O turismo é um caminho natural que poderá ser estrutural no futuro da economia da Graciosa. Os Açores têm a grande vantagem de ainda não serem vítimas do turismo de exploração de massas, como o Algarve, por exemplo. Conseguem captar aqueles que querem algo completamente diferente e novo”, realça ainda o professor de empreendedorismo, dando exemplos como o golfe ou a canoagem marítima, como actividades em que valeria a pena apostar.

José Ramos Aguiar, presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz da Graciosa, lembra que, apesar das vicissitudes, já se começaram a dar os primeiros passos no turismo selectivo. “O mergulho e a fotografia subaquática é uma área que está a ser muito procurada aqui na Graciosa”, realça o autarca. Aliás, uma boa parte das 8000 dormidas registadas no ano passado, na ilha, devem-se a estas actividades.

Mas não basta, por isso José Aguiar refere a importância de dinamizar “outros nichos como o turismo da vulcanologia e o termalismo”. “Nos Açores só existem três zonas termais e no continente também não existem assim tantas daí que é bastante importante o investimento que está a ser feito para a ampliação das termas do Carapacho”, reforça ainda o responsável.

Carapacho spa

Já a partir de Maio e durante os sete meses seguintes, as termas vão fechar para obras de reabilitação e ampliação orçadas em 1,3 milhões de euros com o objectivo de modernizar as termas e enquadrá-las no ambiente Spa, tão na moda nos últimos tempos, adiantou Arnaldo Machado, director regional de Apoio a Coesão Económica e representante do Governo regional durante o congresso.

Este investimento é da responsabilidade do Governo regional através da sociedade de capitais públicos, Ilhas de Valor, tal como o novo hotel de quatro estrelas, com capacidade para 60 quartos e cuja construção arrancou há cinco meses. “O hotel vai estar seguramente terminado ainda este ano. É um investimento de dez milhões de euros. O Governo vai dar este arranque ao projecto e depois a ideia é concessionar a gestão a um agente privado. Tenho a certeza que vai dar um impulso enorme à ilha e vai ter efeitos induzidos no comércio, artesanato, restauração e pequenas empresas de animação turística”, sublinha Arnaldo Machado.

Mas apesar destes sinais positivos, a ideia consensual que passou no congresso é que são necessários mais investimentos estruturais na região. “O governo regional está a investir e muito bem no hotel mas nós precisamos de um investimento forte noutras áreas”, apontou Luís Henrique Silva, deputado regional pelo PSD e até há bem pouco tempo presidente da Associação de Agricultores da Graciosa.

O deputado levantou algumas questões e deixou outras tantas sugestões: “A Graciosa tem, ao nível da criação de gado, um estatuto sanitário do mais elevado que há, pois o facto de ser uma ilha funciona como uma barreira às doenças, já não falar de que é uma carne produzida quase totalmente em pastoreio. Mas que vantagens ganhamos nós com esta mais-valia?”.

Com uma produção média de 7000 cabeças de gado em toda a ilha, a Graciosa exporta cerca de 1200 animais vivos para o continente. Luís Silva defende que a instalação de um matadouro e a transformação da carne traria vantagens exponenciais para os criadores de gado.

“Hoje em dia toda a gente quer comer carne de boa qualidade, do ponto de vista da saúde humana. Não faz sentido termos animais de excelente qualidade, mas que exportamos em contentores e que vão cair em explorações no Continente, algumas boas, mas outras más. E o que era bom passa a ser mau. Tudo isto porque não temos capacidade de transformação na ilha, uma actividade que arrastaria outras como a dos curtumes e que permitiria a criação de muitos postos de trabalho”.

"Onde estão os milhões?"

Infra-estruturas como o matadouro que poderiam absorver parte das verbas destinadas ao fundo de coesão e que Luís Silva questiona a sua utilização. “Por ser uma das ilhas da coesão, no último quadro de apoio, estavam previstos 16, 8 milhões de euros de investimento do governo regional na Graciosa. Porém, a verba inscrita no plano para a promoção do investimento e de coesão vai pouco além dos cinco milhões. Eu acredito que esse dinheiro vai, em parte, para ilhas que nem fazem parte da coesão”, acusa o deputado (ver caixa).

O escoamento do peixe é outro problema crónico existente na região. Fonte de (bom) rendimento para os mais de 100 pescadores e 30 armadores existentes da ilha, fica ainda assim aquém de toda as suas potencialidades. Em 2007, estes profissionais do mar, exportaram 150 toneladas de pescado (100 das quais só de goraz) não só para o Continente mas também para Espanha e Itália, entre outros países. O goraz já chegou a atingir em lota cerca de 30 euros, o que revela bem a rentabilidade desta espécie.

Segundo Valentino Benjamim, representante dos armadores da ilha, o rendimento médio de um pescador ronda os mil euros/mês e o de um armador pode variar entre os três mil e os cinco mil euros mensais. Apesar da situação já por si folgada, está ainda assim longe de ser aproveitada na sua total capacidade devido a dificuldades no transporte aéreo, sempre dependente da disponibilidade de espaço existente no porão do avião, o remanescente após o embarque dos passageiros. Um problema que leva Luís Silva, o deputado regional laranja, a defender compra, por parte do governo regional, de um avião exclusivo para mercadorias a exportar e a importar.

Incentivos aos empreendedores

Arnaldo Machado, director regional de Apoio a Coesão Económica

P: Durante o congresso questionou-se muito sobre a aplicação das verbas do fundo de coesão... Foi referido que dos 16 milhões de euros previstos no fundo apenas foram utilizados cinco milhões. Quer comentar?
R: O que posso dizer é que as ilhas de coesão (Santa Maria, Graciosa, Corvos, Flores e São Jorge) são ilhas com condicionalismos vários, com uma série de fragilidades e uma dimensão de procura muito reduzida, onde é muito difícil obter economias de escala em certos sectores de actividade. É precisamente por isso que o Governo regional tem prestado particular atenção a estas ilhas e as tem diferenciado positivamente. Veja-se o exemplo do sistema de incentivos ao investimento. Qualquer projecto que seja concretizado numa das ilhas de coesão tem sempre mais 10% de incentivo a fundo perdido do que qualquer outra ilha que não pertença a este grupo de coesão.

Dê-me um exemplo prático…
Por exemplo, um empreendimento pequeno no domínio da animação turística, num escalão de investimento até 200 mil euros, que em São Miguel é comparticipado com 40% a fundo perdido, na Graciosa tem 50% a fundo perdido. Este sistema pode dar um grande impulso ao investimento privado.

Como funciona este sistema de incentivos?
Neste momento estamos a atravessar um novo período de programação financeira que envolve sete anos, entre 2007 e 2013, inclusive. E temos três incentivos: um que se destina ao aproveitamento das energias renováveis e outro que se destina ao fomento do empreendedorismo jovem. Depois temos um grande programa que é a coluna vertebral dos incentivos que é o sistema de incentivos ao desenvolvimento regional dos Açores. Abrange várias áreas como o comércio, turismo, serviços, energia, aproveitamento de resíduos.

Mas voltando às verbas do fundo de coesão, como se justifica a não utilização destas verbas conforme foi referido no congresso?
Têm existido avultadas verbas para incentivos financeiros ao investimento. No ano anterior, o Programa Quinze que é o programa para a promoção do investimento e da coesão, que tem as verbas destinadas a este domínio, teve uma execução de 99,9%.

E essa taxa de execução reporta-se à utilização das verbas da Graciosa?
Quando falo de 99,9% é a execução global do programa que abrange toda a região.





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