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Fora de horas

Os portugueses insistem em não cumprir horários
24.02.2006


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Marisa Antunes
A FALTA de pontualidade é uma característica típica dos portugueses, a que nem o meio empresarial escapa. É frequente, generalizado e aceite o incumprimento de horários. Reuniões que não começam na hora marcada e prazos de entrega que não são respeitados fazem também parte do rol de falhas da cultura de exigência que grassa nas empresas nacionais e que são a ponta do «icebergue» de problemas graves como os baixos níveis de produtividade dos trabalhadores portugueses, segundo os especialistas contactados pelo EXPRESSO.


«Portugal é o país do nacional-porreirismo, o que leva facilmente à falta de exigência. No mundo dos negócios, o fenómeno é visível dentro das empresas: atrasos à entrada, longos intervalos para o almoço e inúmeros cafés, prazos que não são cumpridos. E tudo isto sem que se sintam quaisquer consequências significativas», aponta Luís Cabral, director do Departamento de Economia da Stern School of Business, da Universidade de Nova Iorque.

Luís Cabral, que esteve recentemente em Portugal para falar sobre o tema da pontualidade num congresso no Instituto Superior de Economia e Gestão, lembra que esta «falta de exigência, — em parte uma característica genética do português — acaba por se transformar numa doença». «Uma doença contagiosa que afecta pessoas e empresas. Se os meus clientes não pagam a tempo, então tenho desculpa para não pagar aos meus fornecedores. Se os meus concorrentes não pagam IVA, então justifica-se que eu faça o mesmo e por aí fora», exemplifica o economista.

«Os trabalhadores já perceberam que não precisam de cumprir prazos ou horários porque, em princípio, os outros também não os vão respeitar. E este é dos factores da baixa de produtividade», reforça o historiador e professor na Universidade de Coimbra, Paulo Varela Gomes. E enfatiza: «O problema é que neste país quem faz mal não é penalizado e quem faz bem não é recompensado».

O estudo «Changing a cultural grammar», realizado por Miguel Pina e Cunha e Rita Campos e Cunha, docentes na Universidade Nova de Lisboa, revelou que a gestão do tempo — quer ao nível da pontualidade, quer ao nível do cumprimento de prazos — não é considerada uma questão primordial. Mas só para os gestores portugueses.

A pesquisa, que foi divulgada no ano passado, abrangeu 80 gestores a trabalhar em Portugal, dos quais 56 portugueses e 24 estrangeiros de diversos países. «A conclusão principal é a existência de uma tensão entre o quadro mental tradicional e aquele que vem de fora. Para os gestores portugueses, o tempo é elástico e várias coisas podem ser feitas em simultâneo. Para os gestores estrangeiros o tempo é linear e rigoroso. A reunião das nove deve começar às nove», explica Miguel Pina e Cunha.

Posturas diferentes que resultam de factores históricos, refere o estudo. Portugal não teve um grande desenvolvimento industrial, que pressupõe uma gestão rigorosa do tempo. Também a pressão para a conformidade associada ao regime salazarista levou os portugueses a enveredar para um estilo de gestão mais fechado e distante dos trabalhadores.

Quem se atrasa vai para a rua

NA EMPRESA CRH, especializada na prestação de serviços de recursos humanos, a pontualidade é «determinante», como acentua o presidente do grupo, Fernando Calado Lopes.

Os 2000 trabalhadores dos «call-centers» sabem, desde o período de formação, que as faltas de pontualidade sistemáticas têm tolerância zero e como resultado o despedimento. «Quem não cumpre a regra de chegar a horas não fica cá. Num 'call-center' basta que dois trabalhadores se atrasem para aumentar em 30 segundos o tempo médio de espera dos nossos clientes», exemplifica Fernando Calado Lopes.

Para as faltas de pontualidade esporádicas e a partir dos 15 minutos de atraso, o castigo passa pelo desconto no ordenado correspondente ao tempo da «infracção». «De um modo geral, o comportamento laboral dos portugueses é muito indisciplinado e a indisciplina aliada à impunidade leva ao problema económico número um de Portugal: a falta de produtividade», conclui o presidente da CRH.





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