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Em busca dos políticos profissionais

11.11.2005


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Marisa Antunes


«EU NÃO sou um político profissional», disse Cavaco Silva e a polémica instalou-se. Mário Soares criticou o seu rival na corrida às Presidenciais e atirou: «Está na moda dizer mal da política e o professor Cavaco Silva não teve coragem de dizer aquilo que devia: ‘Tenho muita honra em ser político'».Mas deve ou não a política ser encarada como uma profissão e os políticos como profissionais nessa área?


«Quando se quer escolher um bom profissional, seja qual for a área de actividade, parte-se das qualificações académicas e da experiência profissional que tem o candidato ao lugar. Também na política a experiência profissional é um elemento positivo. Imagine-se como funcionaria o Parlamento com deputados inexperientes», diz André Freire, investigador e docente de Ciência Política no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e Empresa (ISCTE).

Para Marcelo Rebelo de Sousa, a questão reside não só no grau de profissionalismo mas também na independência financeira de quem ocupa lugares políticos. «De forma a não se correrem riscos de clientelismos, é importante que quem desempenha a sua actividade na política não esteja dependente financeiramente do partido», sublinha o professor. «Da minha experiência posso dizer que sempre mantive uma margem de recuo não política, mas há muitas pessoas, especialmente gestores públicos cujas decisões assentam na lógica de onde vão ser colocados se tomarem esta ou aquela posição», exemplifica.

Manuel Meirinho, especialista em Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, da Universidade Técnica, corrobora: «Muitos profissionais da política aparecem pela via partidária e pela lógica do clientelismo, o que significa que existem muitas pessoas a desempenhar actividades políticas, mas não são profissionais».

Acreditar verdadeiramente em ideais e respeitar o sentido de responsabilidade são por isso requisitos-base para um bom político. «No tempo da ditadura, quem se interessava por política era acusado de actividades subversivas. O ideal nessa altura era dizer-se ‘a minha política é o trabalho'. Cresci a odiar essa frase. Por isso rejeito profundamente a ideia da actividade política considerada como se fosse uma profissão qualquer. Dito isto, é evidente que quando se é eleito para um cargo público tem de se ter uma dedicação total à responsabilidade que isso implica, e nesse sentido é errado afirmar-se, como fez Cavaco Silva, que não se é ‘político profissional'», sublinha a socialista Helena Roseta.

Profissionalizar a política, no melhor sentido do termo passa pela gestão dos recursos humanos como se de uma organização empresarial se tratasse. Segundo Manuel Meirinho, «é preciso alterar os processos de recrutamento, procurando trazer profissionais mais bem preparados e com valor acrescentado. Depois, e tal como acontece em outras profissões é preciso apostar na aprendizagem e na formação. Os dirigentes políticos até podem ter uma boa preparação académica mas têm grandes deficiências na área das ciências políticas e na cultura de ética e responsabilidade».

O passo da mudança deve assim começar nas juventudes partidárias, defendem os especialistas auscultados pelo EXPRESSO. «Eu vejo pelos meus alunos: eles reagem com muita ‘alergia' aos discursos das juventudes partidárias», critica o professor Marcelo. «As juventudes partidárias precisam de se renovar. Apesar de jovens, repetem os erros dos velhos aparelhos partidários: a lógica das fidelidades sobrepõe-se à das convicções e há demasiado cálculo e demasiada hipocrisia», aponta Helena Roseta.

Rodrigo Saraiva, secretário-geral da Juventude Social Democrata (JSD) refuta as acusações: «Os jovens da JSD estão na política por gosto, convicção e vocação. A actual comissão política da JSD tem 22 membros que trabalham em empresas, na advocacia, na medicina, no ensino. Através da política só duas pessoas desta comissão estão a exercer alguma função, ambos como assessores em câmaras municipais».

Uma maior abertura do sistema político aos jovens, às mulheres, às minorias permitiria também ajudar a profissionalizar a política, realçam os especialistas. «A entrada de sangue novo pode ajudar a reforçar os laços com a sociedade, entre governantes e governados», reforça André Freire. Para Marcelo Rebelo de Sousa, «o sistema político português está muito afunilado». «A carreira política foi concebida para homens. A entrada das mulheres na política foi um fenómeno lento, dos últimos dez anos. E não se vê, por exemplo, dirigentes locais ou nacionais provindos das minorias e no entanto, um quinto da população portuguesa é emigrante», realça o professor.

Helena Roseta partilha a mesma opinião: «Os mesmos são sempre os mesmos. Como os lugares de eleição são ‘numerus clausus', para entrarem mulheres têm de sair alguns homens. A quota é um dos instrumentos para contrariar isso. Há democracias que já foram mais longe e exigem paridade. Mais tarde ou mais cedo é o que terá de acontecer, sob pena de a política se tornar obsoleta porque desfasada da realidade social».





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