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Cursos que não dão emprego

O mercado de trabalho praticamente ignora-os, mas muitas pessoas insistem em frequentá-los
23.09.2005


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Maribela Freitas e Marisa Antunes


QUEIMAM pestanas durante anos a fio a estudar, licenciam-se, muitos deles em faculdades distintas, mas, no final do curso, quase ninguém os quer recrutar. Formados em Direito, Sociologia, Psicologia, Ciências da Comunicação, Relações Públicas, Marketing, Relações Internacionais, Letras, História, Filosofia e em todos os cursos que têm apenas como saída a via do ensino, fazem parte da lista negra de profissionais qualificados que o mercado de trabalho não absorve na totalidade, segundo confirmou o EXPRESSO junto de algumas das maiores empresas de recrutamento do país.


Para a Adecco, Egor e Ray Human Capital, o excesso de licenciados nas áreas referidas é uma das causas deste desemprego qualificado. Apesar do índice de insucesso na integração destes profissionais em actividades de acordo com a sua bagagem académica, os jovens continuam a optar por cursos condenados ao desemprego. Direito integra esse grupo.

Mesmo sendo uma área saturada, só este ano abriram 1260 vagas nas universidades estatais. Os estudantes acreditam que esta licenciatura lhes permitirá um leque variado de opções de trabalho, como a magistratura, diplomacia ou notariado, como refere Rogério Alves, bastonário da Ordem dos Advogados (OA). «Esta questão deveria ser objecto de uma análise mais cuidada por parte do Governo, para não permitir ilusões aos jovens», refere o bastonário.

Por seu turno, «a OA quer elevar a bitola de exigência no acesso à profissão: o período de estágio foi alargado de 18 para 24 meses e passam a ser obrigatórias duas provas, uma escrita e outra oral», acrescenta. Estas exigências irão diminuir a taxa de admissão à OA, que é neste momento de 90%. «Queremos destruir a ideia de que quem faz o estágio entra directamente para a ordem», explica Rogério Alves.

Quem opta por cursos de Letras ou cuja saída profissional se restrinja à via do ensino também não tem a vida facilitada. De um universo de 50 mil candidatos a concurso (que não pertencem aos quadros do Ministério da Educação), só 10.039 conseguiram colocação. «Todos os anos continuam a entrar no mercado entre 3500 e 4000 licenciados em áreas da via de ensino. O Estado insiste na formação destes jovens que vão acabar no desemprego. Não existe coragem política para travar o excesso de vagas neste tipo de cursos que não têm saída profissional», critica Carlos Chagas, presidente da Federação Nacional de Educação.

«Resolver este problema crónico passa não só pela contenção das vagas mas também pela orientação profissional dos alunos no secundário, para que saibam qual a realidade económica do país», sugere Carlos Chagas.

Andreia Alves entrou este ano para o curso de Estudos Africanos. Inicialmente queria seguir Psicologia, mas optou por outra licenciatura. «Tenho ideia de que a empregabilidade é difícil na área das ciências sociais, mas prefiro tirar um curso de que gosto». Também Diana Nascimento ingressou este mês na faculdade, na sua única opção: Línguas e Literaturas Modernas — estudos alemães. O seu objectivo é seguir turismo e acredita que existe procura no mercado de trabalho para tradutores de alemão.

Mas se, para um formado em línguas, o futuro pode apresentar alternativas, o mesmo não acontece com os psicólogos. «Existem muitas carreiras que não estão abertas porque a sociedade portuguesa aposta pouco na inovação. Os psicólogos não são apenas clínicos. Temos os educacionais, para as organizações de ensino; os forenses, para trabalharem com os tribunais; os mediadores de conflitos, para os divórcios. Só para citar alguns exemplos», explica Benedita Monteiro, presidente da Associação Portuguesa de Psicologia (APP).

E acrescenta que a empregabilidade na área da psicologia passa também pela iniciativa dos licenciados. «As pessoas querem ter o emprego à porta de casa. Em muitos centros de saúde fora das grandes cidades, não há atendimento psicológico por falta de profissionais. O mesmo se passa nas autarquias, que até têm fundos comunitários para programas de intervenção social e precisam destes trabalhadores no apoio às populações com necessidades especiais».

Mas há excepções. Joana Maia tem uma clara noção da realidade da vida activa. «Há quatro anos, quando entrei para Psicologia, existia uma saturação no mercado de trabalho em quase todas os ramos», frisa a estudante. A sua opção no âmbito da psicologia é o sector educacional, onde vislumbra hipóteses de ocupação. «Não espero vir a ter um vínculo a uma empresa, pois isso é um pouco utópico. O futuro irá passar mais por trabalhar como ‘freelancer', em projectos e parcerias», explica.

«Há empresários que não contratam profissionais das ciências sociais por considerá-los avessos ao trabalho em grupo, pouco agressivos e mais vocacionados para estar num gabinete», finaliza Amândio da Fonseca, director da Egor.




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