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A revolução mais esperada

A inovação revolucionou a ciência, a tecnologia, a gestão e as empresas. O desafio futuro é que a mesma inovação ajude agora a dar resposta à resolução de problemas sociais. Portugal já tem bons exemplos nesta matéria
16.05.2008


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Cátia Mateus
Há mais de 100 anos a criação de um sistema público de saúde, educação ou segurança social era vista como uma miragem. Por essa mesma altura, o conceito de ensino à distância não passava de uma hipótese irreal e um jardim-de-infância era algo completamente revolucionário. Ao longo dos anos, um pouco por todo o mundo, estas inovações passaram a barreira da ‘hipótese' para ganharem lugar de destaque no quotidiano, e aquilo que hoje é visto como banal constituiu, outrora, uma inovação social de grande revelo capaz de dar resposta eficiente às necessidades sociais de uma comunidade em constante mutação. Há boas práticas nesta matéria em todo o lado. Mas em Portugal é ainda necessário mudar mentalidades. O país já tem bons exemplos, mas precisa de maior investimento nesta área, que, de resto, é fundamental para a competitividade de um país que se quer global.


“O que de melhor a Europa tem para dar ao mundo é um modelo social”. A afirmação é de João Meneses, gestor da TESE, uma organização não-governamental que centra o seu trabalho na área da inovação social e que organizará em Portugal, de 29 a 30 de Maio, o primeiro congresso internacional dedicado ao tema. O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva ‘apadrinha' a iniciativa e eleva a ‘causa' — já apelidada de ‘próxima revolução' — a uma dimensão nacional. Durante dois dias vão passar pela Fundação Calouste Gulbenkian centenas de exemplos de inovação social, numa partilha de experiência que tem como metas “mostrar o que é a inovação social, onde e como acontece, inspirar os actuais e potenciais agentes de mudança e acelerar a inovação social em Portugal e no mundo”. Até porque, como refere João Meneses, “o modelo social europeu precisa de um «social silicon valley», de um reactor de aceleração da inovação social”.

Da Universidade Júnior ao projecto Emprego Apoiado, passando pelos programas Aprender a Empreender, Saúde 24, Telemedicina, Évora, Distrito Digital ou ainda por exemplos sociais como a Operação Nariz Vermelho, que presta apoio psicológico a crianças em situação de internamento, Portugal tem vindo a desenvolver — timidamente, quando comparado com outros países — várias iniciativas, começando já a ser exemplo no campo da inovação social. Ainda assim, o responsável da TESE argumenta que “Portugal e a Europa precisam de encontrar novas respostas para as necessidades sociais”.

João Meneses salienta que “muito do que hoje damos por adquirido no domínio social começou como uma inovação radical” e enfatiza a importância desta questão para a competitividade de um país. “Nunca podemos esquecer que a pobreza, a exclusão social, a falta de qualidade de vida ou de participação cívica resultam de necessidades sociais não satisfeitas”, explica.

O líder da ONG que quer hastear em Portugal a bandeira da inovação social argumenta que “a inovação social é crucial tanto no desenvolvimento de novas respostas para as necessidades sociais emergentes como no melhoramento das que são dadas actualmente, especialmente em áreas em que os problemas estão a agravar-se (envelhecimento da população, concentração urbana ou alterações climatéricas), em áreas onde os actuais modelos falharam ou estagnaram (justiça criminal, educação ou participação democrática) e onde há novas possibilidades que não estão a ser exploradas (uso inteligente da tecnologia na governação ou na habitação)”.

Na verdade, a inovação social acontece sempre que se encontram novas ou melhores respostas para necessidades sociais, seja na educação, no emprego, na saúde, no urbanismo ou até na Justiça. Soluções que podem partir do sector público, privado ou até nas universidades, “resultando melhor quando se mobilizam todos os agentes, de forma sistemática, integrada e colaborativa”, explica João Meneses.

É exactamente esta uma das intenções do congresso que agora se aproxima. Até porque, “no actual contexto económico nacional — caracterizado por uma crise financeira do Estado que o impede de alargar e aprofundar as respostas às necessidades sociais — e a envolvente internacional de recessão económica, a inovação social é fundamental para a rentabilização dos escassos recursos disponíveis para a resposta às necessidades sociais”, argumenta João Meneses.

Convém ainda não esquecer que são as indústrias sociais que serão determinantes na composição futura do PIB dos países europeus e que as áreas da saúde, educação, bem-estar e transportes representam maior potencial de crescimento nos próximos anos. Razão pela qual a inovação social será determinante para a competitividade interna e externa. E ainda que o país tenha já bons exemplos (ver caixa), João Meneses acredita que “falta, em Portugal, uma cultura para a inovação no domínio social”.

Há bons exemplos em todo o mundo (ver caixa), no sector público, privado (tanto em multinacionais como empresas familiares) e até ao nível da sociedade civil, mas o responsável da TESE afiança que “Portugal tem óptimas condições para ser um «case study» mundial de inovação social, pois tem várias necessidades sociais não satisfeitas, tem uma boa dimensão e localização e, em geral, os portugueses são «early adopters» quando confrontados com novas oportunidades ou riscos”. João defende que o país teria, neste momento, as condições ideais para acolher um «social silicon valley», um espaço de aceleração da inovação social para a Europa que ajudasse a encontrar novas soluções para um modelo social europeu, para a inclusão social e qualidade de vida dos seus cidadãos.

Um desafio que, defende, o país deveria abraçar e que o congresso agendado para o final deste mês pode ajudar a materializar. “Espera-se que o congresso cumpra o papel de reunir uma rede de potenciais agentes aceleradores da inovação social, em Portugal e na Europa — provenientes dos sectores público, privado, terceiro sector, universidades e «media» —, com vista a criar uma consciência do seu potencial na resposta às necessidades sociais”, realça.

Por ocasião deste congresso será ainda lançado um novo movimento da sociedade civil neste campo: o Fórum da Inovação Social. A estrutura assume como metas encontrar e debater novas e melhores respostas às necessidades sociais do país, ajudar a criar uma cultura para a inovação social lusa e dar origem a uma estrutura dedicada exclusivamente à investigação, promoção e disseminação da inovação social entre os diversos agentes em Portugal e na Europa. António Câmara (YDreams), Carlos Zorrinho (Gabinete da Estratégia de Lisboa e do Plano Tecnológico), Carlos Vasconcelos (Cisco Systems), Francisco Murteira Nabo (Galpenergia) e David Justino (Casa Civil do Presidente da República) são apenas algumas das individualidades que já abraçaram esta causa e assumiram a inovação social como uma questão nacional para um país historicamente habituado a liderar novos ‘descobrimentos'.

Portugal (mais) social

A inovação social está a entrar timidamente no quotidiano nacional e ainda que em reduzida escala o país tem já exemplos de sucesso neste âmbito. Ora tome nota de alguns:

. Banco Alimentar Contra a Fome;
. Operação Nariz Vermelho;
. Revista Cais;
. Centros Nacionais de Apoio ao Imigrante;
. Orquestra Juvenil Geração (Gulbenkian);
. Projecto de domiciliação dos cuidados de saúde do Hospital Pediátrico de Coimbra e da Unidade Móvel Médico Social de Mértola;
. Comércio justo;
. Empresas ‘carbono zero';
. Microcrédito;
. Programa Aprender a Empreender;
. Universidade Júnior;
. Projecto ‘B-Sapiens' («coaching» de trabalhadores menos qualificados);
. Fnac & AMI (rede de Infotecas contra a infoexclusão de pessoas carenciadas);
. Emprego Apoiado (oportunidades de escolha, acesso e manutenção de emprego);
. Iniciativas governamentais como: Linha Saúde 24; projecto Escola Móvel; iniciativa ‘Um dia na prisão', Cheque-dentista ou, até, o Cartão do Cidadão.

Exemplos que chegam de longe

Nesta, como noutras áreas, a inspiração extravasa as fronteiras geográficas do país. Bastante mais sensibilizados para as questões da inovação e empreendedorismo social, muitos são os países que dão cartas nesta matéria com exemplos que se destacam pela dimensão humana das bases que os sustentam. A saber:

. Young Foundation (www.youngfoundation.org.uk)
. Kaos Pilot (www.kaospilot.dk/docs/About..asp)
. Nesta (www.nesta.org.uk)
. The Hubb (www.the-hub.net)
. Bookshare (www.bookshare.org)
. Fix my Street (www.fixmystreet.com)
.Time Bank (www.timebank.or.uk)
. Civic Ventures (www.civicventures.org)
. Nabuur (www.nabuur.com)
. Teach a Man How to Fish (www.teachamantofish.org.uk)
. Doe (www.doe.org)
. Dentista do Bem (www.turmadobem.org.br)





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