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A crise da habitação pode travar o recrutamento?

A crise da habitação pode travar o recrutamento?

Aceitar emprego noutra cidade implica encontrar habitação compatível com o salário oferecido. Quando essa conta não é certa, que oportunidades perdem os profissionais e que dificuldades enfrentam as empresas para contratar? Estamos a confundir falta de trabalhadores com falta de condições para viver onde são necessários? E que impactos teremos a médio prazo?

06.11.2026


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Alexandra Andrade
Diretora-geral da Adecco Portugal

Portugal debate frequentemente a escassez de talento. Mas talvez estejamos a fazer a pergunta errada. Em vez de questionarmos apenas quanto custa às empresas contratar, deveríamos perguntar também: quanto custa às pessoas aceitar um emprego?

A crise da habitação deixou de ser exclusivamente um problema social. É hoje um obstáculo à mobilidade profissional, à competitividade das empresas e ao crescimento económico. Segundo o INE, os preços da habitação aumentaram 16,5% no segundo trimestre de 2026, face ao período homólogo. A OCDE alerta que a dificuldade de acesso à habitação limita a mobilidade dos trabalhadores e agrava o desencontro entre competências e oportunidades.

Na prática, uma proposta salarial atrativa pode tornar-se economicamente inviável quando somamos renda, transportes e custos de deslocação. Quantos profissionais recusam oportunidades não por falta de ambição, mas porque não conseguem suportar o custo de viver onde o emprego existe?

Corremos o risco de confundir escassez de talento com escassez de condições para trabalhar. E esta distinção é determinante. Quando uma empresa não consegue atrair profissionais, não perde apenas capacidade de recrutamento. Pode perder produtividade, investimento e oportunidades de crescimento. Quando um trabalhador não consegue mudar de cidade, perde liberdade de escolha e progressão profissional. No limite, perde o país.

As empresas devem integrar esta realidade nas suas estratégias de talento: repensar políticas salariais, apoiar a mobilidade, flexibilizar modelos de trabalho e alargar geografias de recrutamento. Mas nenhuma organização conseguirá resolver isoladamente um problema que exige políticas públicas articuladas de habitação, transportes e desenvolvimento regional.

Precisamos também de medir melhor esta realidade. Não basta conhecer as vagas por preencher. É fundamental compreender quantas oportunidades ficam por concretizar porque trabalhar deixou de ser economicamente viável em determinadas regiões. Um país que ambiciona atrair investimento e competir pelo talento não pode ignorar onde vão viver as pessoas que sustentam o seu crescimento. Porque o talento pode não ter morada fixa. Mas precisa de uma morada possível para construir o futuro.

 

 

Álvaro Fernandéz
Diretor-geral da Michael Page Portugal

Há dias, numa conversa com uma profissional que estamos a acompanhar, surgiu uma observação que me ficou na memória. Tinha passado uns dias em Lisboa e falava da cidade com entusiasmo, perspetivando a possibilidade de transferir para aqui o seu centro de trabalho. Mas, ao comparar os custos da habitação com os da cidade onde vive, a reação foi de surpresa. Esperava encontrar preços elevados. Não estava preparada para uma diferença tão expressiva. Esta não só não é uma história invulgar, como ajuda a ilustrar uma das grandes contradições do mercado de trabalho dos nossos dias.

Nunca foi tão fácil construir uma carreira internacional. As empresas recrutam talento além-fronteiras com uma naturalidade que seria impensável há uns anos. Os profissionais avaliam oportunidades em diferentes geografias, mudam de país, trabalham para equipas distribuídas por vários mercados. Em muitos sectores, as fronteiras tornaram-se cada vez menos relevantes. Mas há uma pergunta que continua a pesar mais do que outras no momento de tomar uma decisão: “Consigo construir a minha vida aí?”

Durante anos, acreditámos que a tecnologia reduziria a importância da localização. O talento tornou-se mais móvel, as equipas mais distribuídas e as oportunidades mais acessíveis. Ainda assim, a habitação está a devolver peso à geografia. Observamo-lo quer no talento internacional, quer entre os profissionais portugueses. Há quem pondere regressar ao país e adie essa decisão. Há jovens qualificados que, perante uma combinação mais atrativa entre salário, custo da habitação e perspetivas de carreira, acabam por escolher construir o seu futuro noutra cidade.

Quando a mobilidade diminui, todos perdem. Os profissionais ficam com menos opções. As empresas enfrentam maiores dificuldades para atrair talento e a economia torna-se menos dinâmica. Daí que a habitação deixou de ser apenas uma questão social, é também uma questão de competitividade. Num momento em que Portugal compete por talento, mas procura também recuperar profissionais que viu partir, as condições de vida passaram a integrar a proposta de valor do país. O mercado de trabalho nunca foi tão global, mas talvez a grande ironia do nosso tempo seja esta: num mundo profissional sem fronteiras, é o preço da habitação que volta a desenhá-las.

 

Amândio da Fonseca
Presidente do Grupo Egor

Seria fácil atribuir à habitação a culpa exclusiva das dificuldades de recrutamento, mas, como em todas as generalizações, seria injusto. Um diretor a quem se propõe mudar de cidade negoceia um pacote que absorve o custo da casa; o jovem em início de carreira ou o trabalhador pouco qualificado, cujo salário mal cobre a renda, não tem essa margem e acaba por recusar a oportunidade ou por ficar onde a família lhes garante teto.

O problema não é só português. A habitação encareceu em toda a Europa, mas lá fora os salários são bem superiores. Em Portugal, onde, segundo o Eurostat, o preço das casas subiu 17,2% num ano, o triplo da média europeia, e arrendar consome 82% do rendimento familiar (101% em Faro, 80% em Lisboa, 31% na Guarda), a conta raramente fecha. Daí o paradoxo nacional: empregos onde não há casas e casas onde não há empregos.

No recrutamento, as consequências sentem-se todos os dias: candidatos qualificados que recusam propostas porque a renda absorve o aumento salarial, vagas na hotelaria, na saúde e na construção que ficam por preencher em Lisboa e no Algarve, e empresas forçadas a escolher quem mora perto, e não o melhor perfil. A empregabilidade deixou de depender apenas das competências; depende, cada vez mais, do código postal.

Estaremos a confundir falta de trabalhadores com falta de condições? Em boa parte, sim. As empresas recorrem cada vez mais a imigrantes que, à espera da regularização, ficam condenados a trabalhos precários e a alojamentos sobrelotados. Priorizar a legalização não é só uma questão de dignidade: é a condição para que acedam a contratos estáveis e, por consequência, a uma habitação condigna. A médio prazo, agravar-se-á a hemorragia de talentos, adiar-se-á a natalidade e a produtividade ficará no pelotão da cauda. Ao Estado compete licenciar e construir mais depressa e usar o património público devoluto; às empresas, integrar a habitação na proposta de valor e descentralizar funções; aos profissionais, encarar a mobilidade como parte do seu projeto de vida. Enquanto a casa custar mais do que o salário pago, Portugal continuará a formar talento para o exportar.

 


Paula Baptista
Diretora-geral da Hays Portugal

Há uma frase que ouço vezes sem conta: “Não conseguimos encontrar pessoas.” E se estivermos a simplificar demasiado o problema? Hoje, aceitar um emprego noutra cidade já não é apenas uma decisão profissional. Antes de pensar na função, na empresa ou na progressão de carreira, há uma conta muito mais básica que o candidato precisa de fazer: com o salário oferecido, conseguirá suportar a mudança? E, demasiadas vezes, a resposta é não.

Quando uma mudança implica pagar uma renda que absorve uma parte significativa do salário, muitas pessoas deixam simplesmente de poder considerar essa oportunidade. Não porque lhes falte ambição. Não porque não queiram mudar. Mas porque a conta não fecha.

É aqui que a crise da habitação passa também a ser um problema para as empresas. Podemos aumentar salários, rever benefícios, procurar candidatos mais longe ou flexibilizar modelos de trabalho. Mas há um limite para aquilo que uma empresa consegue fazer quando trabalhar num determinado local significa não conseguir viver nesse mesmo local.

Talvez por isso tenhamos de questionar a própria ideia de “falta de candidatos”. Quantas oportunidades ficam por preencher porque não existem profissionais e quantas porque esses profissionais não conseguem viver onde as oportunidades existem?

A médio prazo, este cenário preocupa-me. Menos mobilidade significa menos escolha para as pessoas e menos talento disponível para as empresas. Significa maior pressão sobre os salários e mais dificuldade em atrair investimento para regiões onde o acesso à habitação não acompanha a criação de emprego. E há um risco menos visível: começarmos a criar oportunidades que apenas alguns conseguem aceitar.

Não há uma solução simples. As empresas têm de fazer a sua parte, repensando flexibilidade, mobilidade e modelos de compensação. Mas temos também de deixar de discutir habitação, transportes, emprego e competitividade como se fossem problemas independentes. Porque talvez não nos faltem pessoas. Talvez nos estejam a faltar condições para que possam estar onde precisamos delas.

 

Rui Teixeira
Diretor-geral do ManpowerGroup Portugal

O acesso à habitação tem vindo a condicionar cada vez mais as decisões profissionais e a mobilidade do talento em Portugal, num contexto em que 82% dos empregadores portugueses enfrentam dificuldades em recrutar, segundo o ManpowerGroup. Esta é uma realidade com particular impacto em sectores como o turismo ou a construção, que dependem de trabalhadores deslocados, mas também nas tecnologias e nos serviços partilhados, onde as empresas competem internacionalmente pela atração de talento.

É também muito acentuada entre os jovens, que enfrentam dificuldades acrescidas na conquista de autonomia financeira. Segundo dados da Deloitte, 81% da Geração Z e 78% dos Millennials no país afirmam que a habitação influencia as suas decisões de carreira. Mas a escassez de talento tem raízes estruturais mais profundas, associadas ao envelhecimento da população ativa, à evolução das expectativas profissionais e à transformação tecnológica, que acelera o desencontro de competências.

Estes desafios cruzam-se, também, com a baixa produtividade da economia portuguesa, que condiciona a capacidade das empresas para criar valor, crescer e oferecer salários mais competitivos, melhorando o poder de compra dos trabalhadores e a sua capacidade para suportar os custos da habitação. A resposta exige, por isso, uma atuação concertada sobre estes diferentes fatores. Na habitação, a OCDE defende acelerar a construção, mobilizar imóveis subutilizados e promover um mercado de arrendamento mais dinâmico. A CIP propõe um vale-habitação para que empresas apoiem os trabalhadores.

Em paralelo, precisamos de aproximar o ensino das necessidades das empresas, reforçar a formação profissional e acelerar o investimento em upskilling e reskilling. Este esforço deve acompanhar a inovação, a digitalização e a adoção da IA, assegurando que a transformação tecnológica gera ganhos efetivos de produtividade. Articular melhores condições de acesso à habitação com uma estratégia de desenvolvimento de competências e de crescimento da produtividade será fundamental para reforçar a capacidade de atração de talento, com empregos mais qualificados e mais bem remunerados e uma economia mais competitiva.



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