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À beira de um ataque de nervos

Cerca de 60% dos trabalhadores portugueses sofrem de stresse moderado a perigoso extrapolou a Deco, a associação dos consumidores, a partir de um estudo que abrangeu pessoas de todo o país, de diferentes profissões
08.05.2009


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Marisa Antunes
É feliz no trabalho? Sente-se reconhecido pelos seus chefes, recebe o ordenado que merece e tem o relacionamento ideal com os seus colegas? Se sim, saiba então que faz parte de um grupo de excepção, pois a maioria dos trabalhadores portugueses sente-se esgotado, mal pago, em má sintonia com a chefia e até com os colegas de trabalho. As conclusões são da DECO (Associação Portuguesa para a Defesa dos Consumidores) que, a partir de um estudo com 1965 profissionais portugueses entre os 18 e os 65 anos (de diversas profissões), apurou que “59% sofriam de stresse profissional, entre o nível moderado e perigoso”, sendo que “36% estão mesmo em risco de burnout , palavra inglesa que se pode traduzir por ‘esgotamento'”.

Mais: cerca de 7% revelaram ter faltado ao trabalho cerca de nove dias, em média, por ano, devido a este estado de ansiedade. Feita a extrapolação para a população activa, a DECO, que publicou o estudo na “Teste Saúde” de Abril/ Maio, contabilizou três milhões de dias de trabalho perdidos por ano.

Um fenómeno que se poderá agravar proporcionalmente à crise económica. Verena Santos, psicoterapeuta e formadora comportamental, confirma que o número de pessoas que procuram a sua ajuda devido ao “stresse negativo” tem vindo a aumentar nos últimos anos.

Um cenário que poderá piorar ainda mais, a curto prazo, com o final do ano lectivo nas universidades. “Além dos que estão no activo, penso nas centenas de jovens que saem para o mercado de trabalho todos os anos e para quem o futuro se apresenta bastante incerto”, refere Verena Santos, que é também docente convidada nas faculdades Nova e Católica de Lisboa.

Para quem tem trabalho, as perspectivas, ainda que mais positivas, não deixam de ser pouco animadoras, segundo o estudo da DECO, realizado em simultâneo na Bélgica, Espanha e Itália. A pesquisa conclui que “a maioria dos portugueses sente-se obrigado a trabalhar muito depressa, de forma intensa e com prazos apertados, pelo menos em certas ocasiões. A profissão exige um grande esforço e só um em cada quatro afirma ter tempo suficiente para todas as tarefas”, sublinha-se. Se as relações com as chefias são más, também não são perfeitas com os colegas de trabalho: um quarto dos entrevistados não sente apoio dos companheiros e as más relações com os colegas afectam 38%.

Cerca de 67% das pessoas consideram que o ordenado que ganham não compensa o esforço e seis em cada dez não acreditam que a competência seja o principal atributo para progredir na carreira.

Stressados mas conscientes

O cenário actual não é o mais favorável, mas Helena Marujo, professora de Psicologia na Universidade de Lisboa e membro de direcção da International Positive Psychology Association, lembra que nunca como hoje os “trabalhadores foram tão conscientes do que sentem, dos riscos que correm e das suas vivências subjectivas”. Se essa consciência profissional lhes pode acarretar mais ansiedade, também lhes confere mais capacidades para “imprimir mudanças de atitude que se contraponham a esse stresse”, defende ainda.

“As empresas com mais sucesso no embate à crise são as que cuidam do seu grupo humano e que investem na intervenção organizacional para conseguir tê-los felizes no contexto laboral. E resulta francamente em termos de performance — um trabalhador que se sente respeitado e valorizado, que vive experiências profissionais recompensadoras, vai animado para o trabalho e rende mais (pessoas a viver emoções positivas têm, de acordo com a investigação científica, mais capacidade de serem criativos, de encontrar soluções, e alimentam espirais de fortalecimento progressivo)”, reforça ainda Helena Marujo, que é investigadora pioneira em Portugal em metodologias como o Desenvolvimento do Sentido de Humor, tema que explora nas suas palestras motivacionais realizadas através da empresa Izi Palestras Speaker Bureau.

A psicóloga Verena Santos corrobora, acrescentando que a solução para ambientes de trabalho mais desanuviados pode passar pela formação de quem ocupa cargos de direcção. “A grande maioria das chefias não recebe formação específica para ‘ser chefia' e muitos deles limitam-se a reproduzir os padrões de comportamento aprendidos com os que foram seus chefes. Sabemos que valorizar o trabalho, através do reconhecimento verbal, de forma directa e oportuna, é das formas mais potentes de motivar quem trabalha. No entanto, poucos chefes a empregam de forma correcta, não por falta de tempo ou porque custe dinheiro, apenas porque não sabem como fazê-lo! Isso é possível de colmatar com formação", justifica Verena Menezes Santos.

Para quem não é chefe, a psicoterapeuta deixa um conselho: “Existe stresse positivo, é possível aprender a reconhecê-lo e a modificar alguns padrões mais ‘estereotipados' de pensar. Hoje em dia a investigação está a dirigir-se para o que é positivo e para a nossa capacidade natura de prestar atenção e apreciar as vivências que nos produzem emoções positivas”.

Helena Marujo reforça, recordando que é importante criar defesas contra o alarmismo generalizado. E é fundamental saber relativizar. “Como não andar stressado se a cada hora se ouvem notícias sobre despedimentos em massa, gripes pandémicas ou corrupção dos governantes? E sim, claro, os despedimentos, a vulnerabilidade, são reais, mas são tão empolgados que aumentam o clima de medo — e o stresse alimenta-se, como planta carnívora, de tudo o que for emoção negativa... Mas quantas vezes na história da humanidade já vivemos momentos piores? Quantos milhões de pessoas tiveram que emigrar de Portugal durante décadas para procurar formas de subsistirem? E quando os filhos partiam para a guerra do ultramar? Ou quando vivíamos debaixo de um regime sem liberdade de expressão?, questiona a speaker da Izi Palestras.

Para a professora de psicologia, “numa crise, mais do que ‘sobreviver' é preciso ‘superviver' ou viver na excelência, como dizia recentemente uma aluna finalista do mestrado, a trabalhar no Serviço de Atendimento Familiar da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa”. Como? “Centrando-nos nas soluções positivas, agindo e indo para além do que nos limita”.





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