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«Precisamos de elites mais cosmopolitas»

23.04.2004


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Ruben Eiras e Vítor Andrade

"O PROBLEMA das elites está no sistema de formação e, nesta matéria, é crucial que elas tenham uma preparação mais cosmopolita. Isso é fundamental para países pequenos como Portugal". A tese é defendida por António Costa Pinto, presidente da Comissão de Comemoração dos 30 anos do 25 de Abril, professor no Instituto de Ciências Sociais e um dos autores do estudo comparado entre as elites políticas de Portugal, Grécia e Espanha, intitulado "Who Governs Southern Europe?: Regime Change and Ministerial Recruitment, 1850-2000".


EXPRESSO - Portugal está bem servido de elites?

ANTÓNIO COSTA PINTO
- Não, não está. O problema das elites está no sistema de formação. É crucial que a nossa elite tenha uma formação mais cosmopolita. Pequenos países como Portugal precisam de elites muito cosmopolitas, com uma boa formação técnica e linguística. Isto porque, a nível económico, o país não possui um mercado interno suficientemente grande. Além disso, é fundamental para a sua afirmação internacional num mundo globalizado. É a única forma dos pequenos países se afirmarem perante os grandes, colmatando assim a sua falta de diversidade.

EXP. - A falta de diversidade é uma das grandes diferenças, por exemplo, entre Portugal e Espanha, já que esta é praticamente cosmopolita em si própria...

A. C. P. - Sim, devido a Espanha ser um conglomerado de nações. Por isso, a Holanda é um modelo a seguir pelo nosso país, porque é um pequeno país, tem um problema de identidade com o seu grande vizinho (a Alemanha), como nós temos com Espanha, além de também ter um passado colonial. A Holanda venceu o desafio por apostar no ensino secundário e no cosmopolitismo - o inglês é obrigatório a partir do segundo ano do liceu. Todavia, elites altamente escolarizadas e desenvolvidas normalmente não são sinónimo de desenvolvimento. Há países do Terceiro Mundo, como por exemplo o Brasil, em que grande parte da sua elite política, empresarial e científica é formada em grandes escolas americanas e europeias. O passo fundamental para o desenvolvimento é a formação a nível intermédio. E esse é um dos maiores dramas do desenvolvimento da sociedade portuguesa. Temos de resolver o problema da formação intermédia e do abandono escolar para conseguir aumentar a base de "recrutamento" das elites. A segunda dimensão onde se deverá agir para renovar a nossa elite é no sistema universitário.

EXP. - E como é que se inverte esta situação?

A. C. P.
- Deverá ser criado um pacto entre as universidades e o ministério da Ciência e do Ensino Superior que permita ao sistema universitário agir como quiser, para actuar onde tiver mais apetência e vocação. Isto para se tornar mais elitista e diversificado. Até lá, nos segmentos onde tivermos mais pobreza de profissionais de alta qualificação, a solução é formar quadros no estrangeiro, como tem sido feito em grande parte nas áreas da gestão, ciência e tecnologia.

EXP. - Passemos às elites propriamente ditas. Como estamos de dirigentes políticos?

A. C. P.
- Em certos segmentos não estamos bem servidos, como, por exemplo, na elite parlamentar. A elite política portuguesa não se distingue muito das elites políticas do sul da Europa, que tendem para a profissionalização política, o que provoca um maior afastamento da sociedade civil.

EXP. - E a nível de governos como estamos?


A. C. P. - Neste ponto, em termos de formação, até estamos bem. Mas depois temos a mediatização. Muitas vezes, quadros bem preparados a nível técnico são ineptos a nível de imagem e a nível político.

EXP. - Isso também é uma falha na formação das nossas elites...

A. C. P. - Sim. Aqueles que conseguiram dominar bem os 'media' são hoje apetecíveis politicamente. Mas muitos também não entram na política porque têm outros ramos de actividade mais lucrativos. Mas na elite ministerial, a situação é relativamente diferente, porque no geral uma das características da democracia portuguesa é o recurso a muitos independentes ou militantes que não são políticos profissionais, porque têm o perfil de imagem de competência técnica.

EXP. - E isso é sinónimo de mais qualidade?

A. C. P. - Não necessariamente. É sinónimo de que a sociedade portuguesa não confia suficientemente na sua classe política. Olhamos para a elite política britânica e esse problema não se põe - uma parte significativa são políticos profissionais. O Governo recruta sempre a sua elite ministerial a partir da sua elite parlamentar. O que não quer dizer que os ingleses não pensem mal da sua classe política.

EXP. - E como se poderia resolver este problema em Portugal?

A. C. P. - Com centros elitistas de formação universitária. Por exemplo, França tem, no geral, uma classe política altamente elitista, na maior parte dos casos formada também no mesmo viveiro universitário da alta administração. É este núcleo elitista que domina uma parte da classe política e empresarial. Em Portugal isto não se passa.

EXP. - O que tem a dizer das nossas elites empresariais e também das sindicais? Não estamos com os mesmos dirigentes associativos há demasiado tempo?

A. C. P.
- Sem dúvida nenhuma, apesar de agora se começar a notar alguma renovação. O Compromisso Portugal já é um sinal desta tendência. Mas o que está a acontecer é o surgimento de outras dinâmicas por vezes em colaboração, e outras vezes à revelia do associativismo tradicional. Até que ponto esta dinâmica irá reflectir-se nas estruturas associativas, isso é mais complicado, porque as estruturas associativas reagem e são muito fechadas. Portanto, o que acho que vai acontecer em Portugal é a multiplicação deste tipo de iniciativas.

EXP. - Então a via de afirmação da nova elite caminha através de movimentos associativos "quase-marginais"?

A. C. P.
- Em muitos casos, será assim. No futuro vamos ter uma maior pulverização das estruturas associativas.

EXP. - Isso é uma boa forma de afirmação social?

A. C. P. - Eu penso que sim. Pelo menos é uma forma de vitalidade da sociedade civil.

EXP. - Então temos as elites que merecemos e não as que precisamos?

A. C. P. - Em muitos casos, temos melhor do que merecemos, noutros pior. Por exemplo, muitas elites locais portuguesas são piores do as que merecemos. Mas temos melhor do que merecemos no que respeita às nossas elites culturais, científicas e tecnológicas. Nós temos que viver com as elites que temos e há que melhorá-lhas. Não podemos esquecer que as elites eleitas são, em certo sentido, o espelho da sociedade portuguesa. A resolução só pode passar pela continuidade de uma linha de sociedade aberta, ou seja, de mais mercado, de maior dissolução da economia no mercado europeu, de restrição do aparelho de Estado e concedendo incentivos no seu topo à meritocracia, inclusivamente com uma estrutura salarial mais elevada.

EXP. - Então advoga o aumento dos salários dos dirigentes públicos?

A. C. P.
- Sim. Um director-geral da função pública ganha, em termos líquidos, pouco acima dos 2000 euros. Nenhum jovem quadro ou quadro com 45 anos de idade com uma boa formação é atraído para um cargo destes. E directores-gerais não há muitos. São uma elite dentro da elite da função pública.

Quatro retratos da elite portuguesa

1. O associativismo empresarial sempre dependeu muito do espicaçar do Estado. Aliás, isso é uma característica comum à sociedade civil.

2. Ao nível da elite empresarial e da sindical, a menor ligação com a sociedade faz com que caiam naquilo que se chama a lei de ferro da oligarquia das organizações. Ou seja, um pequeno grupo mantém o poder nessas organizações, muitas vezes à revelia de uma participação mais activa da massa associativa.

3. Portugal foi pioneiro no século XIX na criação de concursos méritocráticos para a função pública. Mas os laços familiares e clientelares foram mais importantes do que a aplicação rigorosa da lei.

4. Há uma tendência para uma menor iniciativa ao nível empresarial e privado. A sociedade portuguesa tem uma característica muito engraçada que é esta: em termos de dinamismo empresarial, a base é mais dinâmica do que a elite.





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