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"Uma boa parte do atual desemprego já existia e estava mascarado"

Fernando Santana, dirige a Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova de Lisboa. O diretor lidera há anos a operação que a instituição tem vindo a consolidar e que coloca o empreendedorismo como âncora do destino profissional dos diplomados. O académico reconhece o flagelo do desemprego jovem que afeta o país e que diz não ser só de agora, mas enfatiza a importância de uma postura empreendedora entre os jovens, seja trabalhando por conta própria ou de outrem. Na instituição que lidera, já fez nascer mais de 100 empresas que juntas permitiram a criação de 300 postos de trabalho. Números que demonstram que o “made in universidade” está a ganhar dimensão nacional.

09.08.2013 | Por Cátia Mateus


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Perante a atual conjuntura nacional, sobretudo no que diz respeito ao desemprego jovem, que desafios se colocam às universidades nacionais?
Uma boa parte do atual desemprego jovem já existia e estava mascarado. Ou seja, estes jovens profissionais já antes não tinham trabalho na sua área específica mas, em situação de praticamente pleno emprego, conseguiam soluções alternativas. Com a crise, as oportunidades reduzem-se e portanto o emprego que houver absorve apenas os que vêm de áreas de procura consolidada, como é o caso das engenharias. O maior desafio das universidades está em procurarem maximizar a sua contribuição para inverter a atual situação económica do país. Portugal tem de se valorizar pelas suas especificidades naturais e pelo seu capital humano. Deve evoluir para o que se poderia caraterizar como um “país inteligente”, que se torne atrativo pelas suas capacidades e pela sua eficácia.

E como o farão?
As universidades, enquanto centros do saber e principais pólos de investigação, devem sentir-se parte do sistema económico, não tanto para fazerem formação muito especializada, normalmente de utilidade efémera, mas para potenciarem o aumento dos níveis de produtividade e de inovação, com novos produtos para novos mercados. Creio que, sem prejuízo da imprescindível reestruturação da rede do ensino superior público, algumas universidades terão de readequar a sua oferta formativa. Qualquer curso em funcionamento deverá demonstrar a sua utilidade para o país, ou o desperdício de recursos será inevitável.

Isso implica eliminar cursos com menores saídas profissionais?
Isto não invalida que, para algumas áreas, seja o Estado a chamar a si a responsabilidade de as manter, independentemente de qualquer outro fator. Por exemplo, não faria sentido que deixássemos de ter antropólogos só porque há menos procura. Se assim não for, o país descarateriza-se e cria-se uma imperdoável dependência externa lesiva do nosso património de conhecimento essencial. Penso que as universidades públicas têm de assumir um compromisso de redução progressiva da sua dependência do Orçamento de Estado, o que naturalmente potenciará uma nova postura perante a sua envolvente interna e externa, o que só será possível se dispuserem de condições que assegurem uma autonomia efetiva em muitas matérias. As universidades têm de formar bons profissionais que recolham, da sociedade que patrocinou a sua formação, o reconhecimento da sua utilidade para a sustentabilidade económica e cultural do país.

A FCT regista uma taxa de empregabilidade muito próxima dos 100%. Como explica este sucesso na integração seus diplomados?
Considero que é o reflexo de uma escola que tem uma cultura que, sem prejuízo da qualidade e do rigor da formação que ministra, privilegia um relacionamento de grande cordialidade e forte interação entre professores e estudantes. Os estudantes são a razão essencial da existência da escola. Por isso, preocupamo-nos com as competências que de facto adquirem e desenvolvemos uma intensa atividade de investigação para que o ensino seja atual e oportuno. Não é indiferente para a aprendizagem e, sobretudo, para quem ensina, poder fazê-lo com base em experiência vivida de investigação ou apenas com base em fontes bibliográficas. A perceção do conhecimento enriquece-se pelo contacto com os seus limites.

Quais têm sido as grandes apostas da FCT para promover esta empregabilidade?
A escola tem uma preocupação constante com a empregabilidade e privilegia uma dinâmica de adaptação de condições à inserção no mercado de trabalho. Criamos e passámos a adotar uma nova abordagem na execução pedagógica dos cursos que ministramos, que é pioneira a nível de todo o Sistema Nacional de Ensino Superior. Essa abordagem, designada por «Perfil Curricular FCT», materializa-se por um conjunto de características transversais a todos os cursos (de licenciatura e de mestrado) que, à semelhança das grandes escolas internacionais, deverá constituir uma marca diferenciadora desta faculdade, decorrente da qualidade e da atualidade das novas competências a transmitir.

Como funciona este “Perfil Currícular”?
No essencial, o «Perfil Curricular FCT», embora mantendo a existente transmissão de competências de base e de especialidade, vem reforçar a formação que atualmente é ministrada com competências complementares, preparando melhor os estudantes, através de novas unidades curriculares obrigatórias, designadamente: «Competências Transversais para Ciências e Tecnologia» (primeiro ano) – apresentação pessoal, preparação de ‘curriculum vitae’, comunicação, utilização avançada de ferramentas informáticas, gestão do tempo, noções de ética e deontologia; «Ciência, Tecnologia e Sociedade» (segundo ano) – compreensão do mundo tecnocientífico contemporâneo, em constante mutação, incentivando os estudantes a pensar e a agir de forma ativa e crítica perante os impactes, positivos e/ou negativos, da ciência e da tecnologia na sociedade de hoje; «Programa de Introdução à Investigação Científica» (terceiro ano) – contacto com investigação, colaboração em projetos de investigação e desenvolvimento (I&D); «Programa de Introdução à Prática Profissional» (contacto com empresas) – estágios, trabalho em empresas; «Empreendedorismo» (quarto ano) – despertar e promover a potencial vocação dos estudantes para a criação de valor a partir de uma ideia, bem como a sua capacitação básica para o desenvolvimento de novos negócios.

O empreendedorismo de que fala é uma das grandes bandeiras da FCT. Na sua opinião, as universidades devem preocupar-se em promover o emprego mas também dar aos alunos as ferramentas necessárias para criar o autoemprego?
É muito importante que as universidades potenciem o espírito empreendedor dos estudantes. Desde logo, pelo que isso pode significar em termos de valorização da economia. Depois, porque é preciso cortar com uma cultura, hoje ancestral, de que um curso superior é um seguro para a vida. Esta postura de acomodação, de negação de desafios, prejudica o desenvolvimento do país. Importa que um curso superior seja valorizado pelo que habilita para ganhar a vida e não tanto como uma espécie de condição de “pré-reforma” totalmente dependente da iniciativa dos outros. É claro que nem todos podem ser empreendedores. Mas, mesmo para aqueles, seguramente a maioria, que vão trabalhar em empresas, é determinante a forma como abordam as tarefas. Se tiverem espírito empreendedor, e os correspondentes conhecimentos, encará-las-ão sempre numa atitude proativa de melhoria, de evolução positiva. Ou seja, valorizarão a sua posição, valorizando a empresa.

Quantas empresas já foram criadas no seio da FCT?
Mais de 100 empresas. A Ydreams é um exemplo emblemático.

Quantos postos de trabalho permitiram essas empresas criar?
Cerca de 300 postos de trabalho diretos.

Muitos destes projetos já atingiram uma escala internacional...
Até ao final de 2012, o número de empresas internacionalizadas era de 35. Refira-se que as suas exportações ascenderam a mais de 2,5 milhões de euros.

À margem desta opção de criação de autoemprego, como pode na atual conjuntura um jovem profissional triunfar no mercado de trabalho e chamar a atenção dos recrutadores?
Obviamente que a qualidade da sua formação de base e de especialidade é muito importante, já que é por esta que o recrutador pode estimar a mais-valia do seu desempenho futuro. Mas não é uma condição exclusiva. A sua capacidade para trabalhar em equipa, para se relacionar com os outros, para se expressar e para reportar o seu trabalho, a sua proatividade e, também, a sua cultura são igualmente fundamentais. Uma empresa quando procura quadros, não procura robots e, não se esqueça, que uma parte da formação necessária para as atividades da empresa será sempre feita na própria empresa.

Sabendo que não existem fórmulas mágicas, que medidas definira como prioritárias para inverter a escalada do desemprego nacional e travar a exportação de talento para o estrangeiro?
Se fosse político criaria um programa que se chamaria “Anda daí Portugal!”. É preciso inverter este derrotismo catastrofista de que o país está para fechar. Os jovens portugueses têm muito talento, tanto, que estão a ser vorazmente atraídos para outros países. Creio que é preciso um sobressalto económico. Fazer a economia crescer, ainda que, para já, seja com investimento público. É preciso criar confiança. Para que algo se faça, o primeiro passo é acreditar. É preciso fazer acreditar que tudo isto vai mudar, começando por mostrar à Europa que tem de nos ajudar porque sem nós ela própria deixaria de fazer sentido!


Os novos empreendedores lusos nascem na universidade

Entre as 100 empresas que a Faculdade de Ciências e Tecnologia já viu nascer está a YDreams. Além desta jóia da coroa que rapidamente ganhou escala internacional, a instituição tem apadrinhado inúmeros negócios projetos empresariais de áreas como a engenharia de software, criação e estética, tecnologias e sistemas de informação, desenvolvimento de aplicações empresariais, biotecnologias e muitos outros. Todos têm em comum o facto de gerarem emprego e de ser “made in universidade”. Conheça algumas das empresas da FCT.

Plux - Wireless Biosignals, S.A.
Os engenheiros Hugo gamboa, Filipe Silva, Hugo Silva e Rui Falcão, criaram em 2007 no Madan Parque da FCT, a Plux - Wireless Biosignals que atua ao nível da criação de equipamentos Médicos e da Investigação e Desenvolvimento em Engenharia Biomédica. Em seis anos, a empresa que nasceu com cinco mil euros de investimento inicial, tornou-se numa organização reconhecida nos mercados em que atua e em franca expansão para mercados externos. A PLUX soma clientes em mais de 15 países. Alemanha, Estados Unidos, Malásia, Japão, entre outros com graus e padrões de exigência elevados encontram resposta para as suas necessidades na empresa portuguesa cuja base de clientes a crescer a um ritmo de cerca de 40% ao ano. A Plux criou 15 postos de trabalho.

Sqimi- Soluções de Gestão de Informação, Lda.
Sete estudante de engenharia informática juntaram-se em 2007 para colocar de pé a Squimi que desenvolve atividades de Consultoria em Informática. A empresa viabilizou a criação de oito empregos, sendo que apenas quatro sócios desempenham funções permanentes na empresa. Na criação do projeto foram investidos 30 mil euros, já recuperados. A Sqimi pretende agora iniciar um processo de internacionalização que começará em Cabo-Verde.

STAB Vida - Investigação e Serviços em Ciências Biológicas
Surgiu em 2001 como uma spin-off da STAB tratamento de Águas e Biotecnologia Lda que se dedicava a serviços na manutenção de ETAs e ETARs, para exploração de uma patente inovadora em detecção de leveduras contaminantes da indústria alimentar. O projeto de três estudantes e 375 mil euros de investimento inicial, permitiram criar uma empresa que tem crescido 20% ao ano em vendas de produtos e serviços de genética e que já expandiu o seu portfolio de patentes e protótipos inovadores de diagnóstico rápido em cancro do pulmão, doença de Lyme e doença de Alzheimer. Integra 20 colaboradores.



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