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"Trabalho em busca da perfeição"

24.04.2003


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Cátia Mateus

Joaquim Domingos Capela é um homem de "vida cheia". Engenheiro de formação, rendeu-se aos encantos da construção de violinos.


INQUIETAÇÃO, mudança, desafio, novidade, paixão e amor... "sim, amor porque é possível amar um instrumento". Eis as seis componentes com que dão "alma" a um genuíno "luthier" (construtor de violinos).

Não existem em Portugal muitas pessoas a dedicar a sua vida à construção de violinos, mas Joaquim Domingos Capela é o exemplo perfeito de como é impossível fugir ao apelo desta arte, mais ainda quando se trata de uma tradição familiar.

Com apenas nove anos construiu o seu primeiro violino, mas a vida deu-lhe outros caminhos. Estudou, licenciou-se em Engenharia Mecânica, foi professor universitário, "ganhou o mundo" e concretizou o sonho de conhecer África, chegando a leccionar na Universidade de Lourenço Marques. Mas nunca deixou de lado a arte de construir violinos.

Aos 68 anos, Joaquim Domingos Capela define-se como "um vadio da vida". Caracterizam-no uma procura incessante de novos desafios, uma busca pelo conhecimento, uma inquietação visível pela novidade. Mas, acima de tudo, uma imensa paixão pela "arquitectura das cordas".

A alma e a voz de um violino nascem nas mãos de quem o constrói e Joaquim Domingos Capela conhece o peso dessa responsabilidade. Com o pai, Domingos Ferreira Capela, aprendeu a caminhar rumo à perfeição. Sabe que num instrumento, "como em tudo o que construímos na vida", nada fica ao acaso e por isso assume-se como um perfeccionista e um eterno curioso.

Nascido na freguesia da Anta, concelho de Espinho, no seio de uma família humilde que se notabilizou, nacional e internacionalmente, na construção de violinos, tornando-se uma das mais notáveis "luthiers", Joaquim Domingos Capela é o exemplo perfeito de um "self-made man" a quem a persistência premiou com uma vida feita de vitórias.

Aluno exemplar, progrediu nos estudos com mérito. "Quando conclui a escola primária não havia muita gente a estudar, mas como tinha boas notas a professora convenceu o meu pai a deixar-me ir estudar para a Escola Industrial, para o curso de carpinteiro de moldes", relembra.

A "paixão" pelas máquinas

Foi, mas perdeu-se na aventura das máquinas e à revelia da autoridade paterna pediu transferência para o curso de serralharia mecânica. Concluiu o curso com sucesso, ganhou uma bolsa de estudo e já a trabalhar licencia-se em engenharia mecânica.

"Durante este tempo nunca deixei de ajudar o meu pai na oficina. Como era bom aluno, dispensava dos exames e por isso tinha longos períodos de férias que aproveitava para auxiliar na construção de violinos", explica.

É só com 22 anos que Joaquim Domingos Capela se afasta da construção de violinos. Ao concluir o curso superior é convidado para permanecer como professor assistente na Universidade do Porto.

Dali embarca na aventura africana. Assume funções de assistente na Faculdade de Lourenço Marques e simultaneamente exerce funções técnicas e de gestão em algumas empresas. Regressa a Portugal, onde inicia a sua actividade na Caixa Geral de Depósitos.

Em 1978 regressa à "arte da madeira e das cordas" e nunca mais parou. "De início era uma actividade de tempos livres, mas depois da reforma dediquei-me à construção a tempo inteiro", confessa.

Ao todo, Joaquim Domingos Capela já construiu 22 violinos, 16 bandolins, 26 guitarras clássicas, 1 alaúde, 3 cavaquinhos, 26 guitarras portuguesas, três bandolas, 3 bandoloncelos, 3 bandoletas, 1 viola de arco e uma viola de amor.

Garante que desconhece ao certo quanto tempo demora a construir um violino. "Não tenho a preocupação da produção e por isso trabalho com a alma, sempre em busca da perfeição e além disso, é frequente interromper a construção de um instrumento e depois retomá-la meses mais tarde", confessa. Todavia, a ligação do artista aos instrumentos musicais não se fica pela sua construção.

Para Joaquim Domingos Capela, "é importante dar a conhecer ao público a história dos instrumentos, é fundamental mostrar o que está para além do som e da forma". Por isso, já perdeu a conta ao número de palestras que realiza juntos dos jovens sobre esta temática.

Além desta componente formativa, o "luthier" faz questão de mostrar a qualidade dos violinos portugueses além fronteiras e por isso já participou em vários concursos da especialidade.

Em tom de brincadeira refere que "os concursos são um pretexto porque o que eu gosto mesmo é de viajar. Envio os violinos e depois vou atrás". Uma estratégia que já o levou a conhecer inúmeros museus. É que para o "luthier", "o maior contributo que um indivíduo pode deixar à humanidade é valorizar-se".


Diz Joaquim Domingos Capela que "a construção de violinos é uma paixão perfeita, faz-se com alma", mas não esconde que tem outras. Além da recuperação de mobiliário, no seu portfolio artístico já soma a criação de mais de 200 guarda-jóias totalmente construídos por si. São peças em vários tipos de madeira, com formas distintas, onde o lado geométrico das formas se alia, num misto de perfeição e irreverência, ao lado mais utilitário dos objectos.

Mas não se pense que por se encontrar em idade de reforma, o artista não tem metas a atingir. "Neste momento estou a fazer uma colecção de instrumentos da família Capela que quero doar ao Museu da Música", explica. Um legado que coincidirá com o centenário do nascimento Domingos Ferreira Capela, seu pai, aquele que foi afinal o grande mentor da sua paixão pela arte dos violinos.



 





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