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Um trabalho mais seguro

11.04.2003


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Maribela Freitas

SE A CADEIRA em que trabalha todo o dia lhe provoca dores nas costas ou a posição do ecrã do computador lhe causa torcicolos, o seu local de trabalho não foi planeado com base nos princípios da ergonomia e isso vai reflectir-se na sua produtividade.




Formar e creditar técnicos nacionais

É com o objectivo de minimizar ou terminar com o desconforto que a ergonomia actua, na medida em que se trata de uma ciência que tem por fim adequar os postos de trabalho e os objectos utilizados no dia-a-dia à fisionomia humana. Percebendo as interacções do homem com o seu contexto de trabalho, pode-se melhorar, e muito, o desempenho de todo o sistema.

"A ergonomia é a ciência que tem como objectivo a compreensão das interacções entre o homem e os outros elementos de um sistema de trabalho. A profissão de ergonomista aplica teorias, princípios, dados e métodos para a concepção de produtos e sistemas de trabalho, visando de forma integrada a saúde, a segurança e o bem-estar do indivíduo, bem como a eficácia dos sistemas" - é esta a definição da disciplina científica que consta no folheto da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa (FMH/UTL) que apresenta a licenciatura na área (ver caixa).

Francisco Rebelo, coordenador do departamento de ergonomia da FMH/UTL, explica que, "nesta ciência, estudamos a forma como o indivíduo interage com um equipamento em dado contexto de trabalho. Tenho interacções que faço com um produto e vou compreender essas interacções e optimizá-las para melhor".

E como é que isto é feito?

De acordo com os especialistas, há que perceber a realidade que se vive num local de trabalho, ver como os trabalhadores interagem e fazer um diagnóstico dessas interacções para verificar o que está errado, sempre balizado por questões de segurança, bem-estar, conforto e higiene. Por exemplo: é impossível eliminar completamente os acidentes de trabalho, mas a sua redução é um dos benefícios da ergonomia.

Para que um local de trabalho seja o mais adequado possível ao trabalhador, são necessários alguns cuidados. "Há que compreender quem vai trabalhar, como desempenha a tarefa e porquê, que equipamentos utiliza e que interacções tem com esse equipamento. A partir daí, existem comportamentos, desde o postural, comunicacional, de risco, etc. É necessário compreender as pessoas e as suas motivações, e isso só pode ser feito no terreno e para cada caso específico", esclarece Francisco Rebelo.

No entanto, existem conselhos que é possível dar, mas que, na opinião do professor, podem não ser suficientes. Num posto de trabalho informatizado, os pés devem estar assentes no chão, o teclado mais ou menos à altura dos cotovelos e o ecrã ao nível dos olhos.

Estes são conselhos básicos que por si só não chegam, pois há que ter em conta a organização de trabalho. Por exemplo, estas indicações seriam adequadas para longos períodos de tempo; para curtos, não seriam eventualmente necessários tantos cuidados a este nível.

Com o intuito de promover o desenvolvimento científico e a prática profissional da ergonomia, foi criada em 1992 em Portugal a APERGO - Associação Portuguesa de Ergonomia. Carlos Fujão, membro da direcção da APERGO, explica que a associação é única no país e visa trabalhar para que a profissão consiga cada vez mais assumir-se como válida e em cada mandato é organizado um congresso de ergonomia, para a troca de experiências.

Além de membro da APERGO, Carlos Fujão trabalha como ergonomista numa indústria do ramo automóvel. "Aqui o nosso trabalho é conseguir que a produtividade da empresa seja alcançada nos padrões que esta defende, de qualidade e eficácia, respeitando com a maior amplitude possível a componente que estava mais descuidada: a de que existe ali um homem que desempenha as tarefas", salienta Carlos Fujão.

A atenção dos ergonomistas num contexto industrial é dirigida ao conjunto de tarefas do operador, do ponto de vista de valências biomecânicas e fisiológicas, no sentido da sua execução motora. "Existe uma diversidade de factores de risco que necessitam de ser conhecidos e aos ergonomistas cabe quantificar cada um, que podem ser desde aspectos posturais até à intensidade de força utilizada para a execução de uma tarefa. O objectivo é olhar para o processo de trabalho e ver como pode ser reorganizado para se tornar mais funcional, confortável e eficiente", explica Carlos Fujão.

Mas a ergonomia não é apenas aplicada na indústria ou num escritório. Actualmente a internet é usada para diversos fins e há que pensar na interacção do homem com os conteúdos aqui apresentados. É neste domínio que Ricardo Carvalho trabalha - em ergonomia em sistemas de informação -, para uma multinacional a operar em Portugal.

Neste campo estudam a interacção do homem com a máquina, ao nível de "hardware" e "software", e actuam na sua modificação.

Trabalho acessível

Segundo Ricardo Carvalho, num local de trabalho, os benefícios de uma melhor adequação dos sistemas de informação a quem os utiliza vão desde uma maior produtividade até uma utilização mais rápida e eficiente, que provoca menos stresse ao trabalhador, passando por tornar as tarefas mais exequíveis na medida em que a informação contida nos sítios da internet é de mais fácil acesso.

Mas se um cidadão "normal" tem por vezes dificuldade em aceder a um sítio na internet, o que dizer de alguém com uma deficiência. Entramos no domínio da acessibilidade num sistema de informação. "Há que ter cuidado na concepção de um 'website', pois este tem de ser acessível a todos, mais ainda quando o governo coloca muitas funcionalidades ao serviço do cidadão na internet", salienta Ricardo Carvalho.

Através de uma parceria entre as empresas Idoc, Tempea e o Portal de S. Domingos, foi criado o Projecto e-qual. "Queremos demonstrar que é possível criar postos de trabalho/consulta informáticos que possam ser utilizados pela generalidade das pessoas, independentemente das necessidades especiais que possam ter", explica António Neves, gestor de projecto da Idoc.

O objectivo é criar postos de trabalho universais, utilizáveis por qualquer pessoa. Para isso há que desenhar e conceber um posto de trabalho que preveja ergonomia preventiva e pós-traumática, disponibilizar "hardware" que contemple exigências ergonómicas preventivas de lesões de trabalho, integrar soluções de "software" para casos específicos de acesso à informação, desenvolver um "website" com acessibilidade para todas as pessoas, não descuidando os acessos adequados aos edifícios, para quem deles necessita.




Formar e creditar técnicos nacionais

CRIADA em 1988, a licenciatura em ergonomia da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa (FMH/UTL), é única no país.Ao todo são quatro anos de estudo acrescidos de um ano de estágio e de trabalho de projecto.

Disciplinas como trabalho e ergonomia, análise da capacidade de trabalho, ergonomia do produto, direito do trabalho e cultura ergonómica, fazem parte do extenso currículo da licenciatura que forma os profissionais desta área.

Além da licenciatura, a FMH/UTL ministra outras formações de nível superior como doutoramento, mestrado e pós-gradua-ções. "Em Outubro vai abrir aqui na nossa universidade uma pós-graduação, em ergonomia no 'design' de sistemas de informação", refere Francisco Rebelo, coordenador do departamento de ergonomia desta instituição de ensino.

Pode ainda seguir-se nesta faculdade um programa de doutoramento ou enveredar pelo mestrado em ergonomia na segurança no trabalho. Através do laboratório de ergonomia, a escola tem investido na investigação, nomeadamente na criação de modelos de trabalho a aplicar na prática desta ciência.

Além da formação, a FMH/UTL aposta na creditação a nível europeu dos alunos que forma. "Através do Centro de Registo do Ergonomista Europeu, um profissional com formação e experiência tem a possibilidade de ser creditado, o que lhe possibilita poder trabalhar nesta área em qualquer país europeu", explica Francisco Rebelo.

O título temde ser renovado de cinco em cinco anose tanto para a sua obtenção como renovação, o candidato tem de submeter a apreciação, um dossiê como trabalho por si desenvolvido.





 





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