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Trabalho ou família?

27.08.2004


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Cátia Mateus, Maribela Freitas e Ruben Eiras

MAIS de 60% da população activa portuguesa é feminina. Todavia, esta estatística do INE não revela que algumas dessas mulheres ainda vivam na encruzilhada da escolha entre a vida familiar e a profissional, gerada pela falta de igualdade no mercado de trabalho. O EXPRESSO recolheu três retratos que espelham os dilemas e os sucessos profissionais da nova mulher portuguesa.


Elsa Henriques, 31 anos, licenciada em Psicopedagogia Curativa, começou a trabalhar em 1998 com a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), através de um estágio curricular. Acabou por ficar nesta instituição onde esteve como voluntária e técnica no serviço de informação a vítimas de violência doméstica.

Em 2001 e com o nascimento da sua filha, "senti-me dividida entre se queria continuar a trabalhar ou ficar em casa com a bebé, uma vez que não tinha com quem a deixar", refere Elsa Henriques. Enveredou pela segunda opção, mas continuou ligada à APAV - até há pouco tempo -, onde ia uma a duas vezes por semana, de acordo com a disponibilidade que a bebé lhe deixava.

Confessa que, no início, foi difícil, pois era uma pessoa muito activa e tinha vontade de fazer muitas coisas e chegou mesmo a inscrever-se num mestrado, mas não conseguiu conciliá-lo com a sua "nova" vida. A seguir a ter ficado em casa explica que "uma parte de mim queria voltar ao trabalho e a outra não. Além disso, também não apareceram alternativas nem nada de muito apelativo". Hoje, com mais um filho afirma que a situação se alterou e pensa voltar ao trabalho. Surgiu-lhe até uma oportunidade que não sabe ainda se irá concretizar-se.

Mas como seria de esperar, e na luta por um emprego, nem tudo é fácil. Elsa Henriques considera que ficou muito tempo parada e sente-se quase como se estivesse a começar do zero. "É complicado retomar a vida activa, as pessoas querem disponibilidade imediata e muitas vezes os filhos adoecem. Além disso, em cada dia que passa é mais difícil arranjar um trabalho", refere.

Mesmo assim não desarma e afirma estar com muita vontade de trabalhar e, por isso, está a procurar emprego não só na sua como noutras áreas profissionais. Quanto às opções que tomou "não estou de forma alguma arrependida. Mas se tivesse tido outras oportunidades de carreira talvez tivesse continuado a trabalhar". Na sua condição de mulher e mãe reconhece que em Portugal deveria existir mais apoio à família.

Família e profissão de mãos dadas


A história de Isabel Guerreiro, de 31 anos, é um pouco diferente. Licenciada em engenharia informática trabalhou na Novabase de 1995 a 2003 e pelo meio casou e teve duas filhas gémeas. "Sempre trabalhei e tive o suporte familiar para poder continuar a minha carreira", explica.

A exercer o cargo de directora de unidade na Novabase, sentiu no final de 2002 que estava na altura de fazer uma reciclagem e candidatou-se ao MBA do Insead, em França, onde foi aceite e pediu uma licença sem vencimento para se dedicar a esta nova etapa do seu percurso profissional. "Eu e o meu marido conversámos sobre o assunto e chegámos ao consenso que nos três primeiros períodos do curso a minha mãe e as minhas filhas ficariam comigo em França e nos outros dois - que estou a fazer agora -, ficariam em Portugal com o pai", refere Isabel Guerreiro. Para esta profissional "o MBA é um enriquecimento pessoal, é um apostar e acreditar em mim".

Tem consciência que conciliar carreira e família não é fácil e no seu caso só tem sido possível pelo grande apoio familiar. "No mundo do trabalho as mulheres são marginalizadas depois de serem mães e é difícil ter filhos e fazer carreira e isso vê-se por exemplo nas poucas mulheres que existem em cargos de topo". Acredita que ainda hoje na generalidade, as mulheres têm de trabalhar mais para chegar a cargos de chefia.

No reverso da moeda está Rute Obadia, 27 anos. É solteira, sem filhos e trabalha como gestora de produto e de parcerias da Palme Viagens, uma agência turística pertencente à rede Key Clube Prestige. Esta executiva também concorda que a mulher tem de trabalhar o dobro para ascender a postos de liderança. "Uma mulher tem de dar mais, assim como abdicar mais de si, para chegar a um lugar de destaque a que, há uns anos atrás, só um homem aspirava", salienta.

E quando a mulher conquista o cargo de chefia, a sua afirmação profissional passa muitas vezes pela adopção de um estilo de gestão mais "masculino". "Para uma mulher ascender a determinada posição de destaque terá que, por norma, adoptar uma postura mais rígida e um modelo de comportamento de gestão mais duro, rigoroso e implacável. Mas esta forma de estar cria necessariamente alguns atritos nas relações laborais", reconhece a executiva.

Até ao momento, Rute Obadia escolheu a carreira em detrimento da vida familiar. "A mulher já não abdica da sua vida profissional e da sua realização em prol da família e do 'ficar em casa'", sublinha. Para aquela gestora, o sacrifício do tempo de qualidade em família e do relacionamento com os filhos é compensado pela igualdade da realização profissional.

Mas há um custo: o delicado equilíbrio entre o investimento na carreira e nos afectos faz muitos casais soçobrar. "Cada vez mais os casamentos entram em crise devido ao pouco tempo que lhes é dedicado", observa Rute Obadia.

Não obstante, está convicta de que a tolerância da parte do homem perante a consolidação da independência da mulher "tem vindo a crescer", tanto a nível profissional, como a nível familiar. "É uma questão de tempo até ambos os sexos se adaptarem aos novos contornos dos papéis dentro do casal", afirma.

Em jeito de conclusão reitera que esta tendência é "inevitável", já que "surgem cada vez mais mulheres licenciadas e com uma sede cada vez maior de sucesso e de realização profissional".


O PESO DA HERANÇA CULTURAL

AO LONGO dos anos a relação das mulheres com a gestão da sua carreira sofreu inquestionáveis mudanças. Todavia, para Márcia Trigo, coordenadora da Escola de Gestão e Negócios da Universidade Autónoma de Lisboa (EGN/UAL) e com uma vasta experiência no desempenho de cargos de gestão, tanto no sector público como no privado, "há características
que permanecem imutáveis"
.

Diz a responsável que a mulher está em desvantagem face ao homem na gestão da carreira. À parte da dificuldade em conciliar o trabalho e as obrigações familiares, o sexo feminino carrega ainda "uma pesada herança cultural que durante várias décadas lhe limitou as opções profissionais, afastando-as de funções tidas como 'masculinas'".

Ainda hoje, refere, "o número de mulheres a singrar nas engenharias e economias, embora seja muito positivo, é desproporcional face aos homens". Márcia Trigo acredita que em Portugal as mulheres em lugares de topo são ainda poucas, mas estas têm sabido afirmar-se e mostrar o seu valor.

Da sua experiência na direcção de equipas, a responsável retirou a noção de que "as mulheres são mais persistentes, organizadas e determinadas no desempenho das suas funções, não hesitando em rejeitar uma oferta de trabalho se considerarem não ter disponibilidade para realizá-la com sucesso". Já o sexo masculino tem maior propensão para "agarrar as oportunidades, tendo inquestionavelmente uma maior aptidão para a gestão da carreira".

Para Márcia Trigo, as mulheres continuam a centrar a carreira na qualidade do seu desempenho profissional negligenciando outros factores importantes - que os homens não deixam passar em branco - como a componente social da carreira (a criação de uma rede de contactos; a presença em eventos sociais e desportivos e outras iniciativas onde se fazem negócios). "Uma componente que a mulher muitas vezes não consegue satisfazer por ter de dedicar parte do seu tempo à família", explica adiantando que neste campo "os homens gerem melhor a sua carreira e a sua imagem".

Sem pudores, Márcia Trigo adianta que "para uma mulher chegar a um lugar de topo, à parte do seu valor, ainda tem de ser muito melhor do que um homem, tem de trabalhar muito mais, ser mais competente, mais credível e mais confiável".





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