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Produtividade precisa-se!

25.02.2005


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Maribela Freitas e Ruben Eiras

A TAXA de crescimento da produtividade dos trabalhadores portugueses tem vindo a decrescer nos últimos 40 anos. Com efeito, conforme demonstram os números do relatório da Comissão Europeia sobre a economia da UE de 2004, até 1999, no conjunto da Europa dos 12 (Reino Unido, França, Bélgica, Luxemburgo, Espanha, Grécia, Itália, Holanda, Alemanha, Irlanda, Dinamarca e Finlândia), Portugal apresentou sempre valores superiores à média europeia (ver tabela em baixo).


Todavia, a partir de 2000, o país começou a divergir na produtividade: a taxa de crescimento chegou a ser negativa em 2003. No ano passado, registou-se um ligeiro aumento mas, as previsões não antevêem, nos próximos tempos, um desempenho acima da performance da Europa dos 12.

«A evolução dos últimos anos tem sido preocupante», sublinha Leonor Modesto, economista e docente na Universidade Católica, que considera, aliás, que «este desempenho da produtividade pode ser considerado desastroso», frisa.

Não obstante este cenário, é possível, segundo alguns especialistas em economia e recursos humanos, aumentar a produtividade com algumas pequenas mudanças de comportamento e de hábitos de trabalho. A principal pedra- -de-toque para o crescimento da produtividade é a mudança de atitude face à organização do trabalho e do tempo. «Não é necessário trabalhar durante mais tempo, mas sim melhor. O trabalho em Portugal é pouco produtivo porque se trabalha mal. E uma razão determinante para isso é a má organização do processo laboral. Um trabalhador será sempre pouco produtivo se for mal orientado», frisa António José Morgado, economista e docente da Universidade Nova de Lisboa.

Amândio da Fonseca, director-geral da Egor, corrobora esta perspectiva, sublinhando que as empresas são, em parte, responsáveis pela escassez de produtividade dos seus quadros. Para inverter esta situação, aquele responsável defende que «a empresa tem que tomar medidas de racionalização dos processos, definindo bem o conteúdo funcional de cada um dos postos de trabalho existentes».

Neste plano, Maria Patriarca, directora da TMI Portugal, salienta que a empresa também tem a obrigação de definir claramente os seus objectivos e comunicá-los à sua força laboral. «Só assim as pessoas têm condições para classificar as tarefas de acordo com a sua importância, para poderem estabelecer prioridades. Se esta a informação não está disponível ao nível individual, torna-se mais complicado saber se estamos a trabalhar para atingir resultados alinhados com os objectivos empresariais», observa. Se este for o caso, o resultado é o desperdício de tempo em actividades não produtivas.


Mais responsabilidade no trabalho

Mas esta «revolução cultural» da produtividade não depende só da mudança de estilo de gestão dos empresários — os empregados também têm a sua quota parte de mudança.

A nível do trabalhador português, de acordo com Maria Patriarca, o principal obstáculo ao crescimento da produtividade é a fraca noção de responsabilidade individual no desempenho das funções. «Ficamos facilmente satisfeitos connosco quando identificamos ‘os culpados’ da situação’», afirma aquela especialista. Ou seja, a partir do momento em que o trabalhador percepciona que são os «outros» que o interrompem, que não planeiam e lhe pedem «as coisas para ontem», a atitude normal é «ficar tranquilo».

«O argumento é de que a empresa ou organização não nos dá as condições ideais», explica Maria Patriarca. «Se a culpa não é nossa, o nosso papel é de vítima, não de pessoa co-responsável pela procura de soluções. E a vítima, por definição, o que tem de fazer é queixar-se, não é contribuir para procura de soluções», esclarece. Um comportamento que urge mudar.

Outra acção a levar a cabo para rentabilizar o tempo de trabalho é a redução dos tempos mortos. Maus hábitos, tais como cafés a mais ou almoços demorados, devem ser erradicados. Uma das soluções pode passar pela «existência de um café ou cantina no local de trabalho, o que promove o convívio entre colegas e afasta este tipo de comportamentos», sugere Mário Costa, director-geral da Select. Jorge Gomes, docente da área da psicologia das organizações no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, acrescenta ainda que o profissional deverá evitar a visualização excessiva da Internet e aprimorar-se na gestão do tempo, «cumprindo os prazos estipulados para a finalização dos trabalhos».

Uma outra competência a desenvolver para aumentar a produtividade é a capacidade de ser um profissional «multitarefa», ou seja, ser capaz de executar duas a três tarefas em simultâneo, como por exemplo, ler um «e-mail» e responder, ao mesmo tempo que atende um telefonema.

Autodisciplina é fundamental

Segundo Maria Patriarca, para que o trabalhador «multitarefa» seja bem sucedido e a qualidade do trabalho não seja afectada, além de muita autodisciplina, é aconselhável que o grau de interdependência entre as diferentes tarefas seja elevado, «concorrendo todas para um mesmo objectivo, para evitar uma grande dispersão».

Contudo, a liderança também tem de ser coerente: as chefias têm de dar o exemplo e não descurar o investimento no capital humano. «O empresário tem de dar formação adequada ao posto de trabalho, incentivar os trabalhadores a todos os níveis, premiar a assiduidade e o mérito e definir objectivos. Se as pessoas os cumprirem, devem ser recompensadas», conclui Mário Costa.


As 6 regras de ouro

1. Incentivos: Como todos os agentes económicos, os trabalhadores reagem a incentivos. Para tal, é necessário que o esforço e o empenhamento sejam recompensados. É prioritário que a remuneração auferida e a progressão na carreira sejam claramente dependentes do desempenho, com prémios para boas «performances» e penalizações para maus resultados. A lei laboral portuguesa vigente, apesar das recentes tentativas de alterações, não permite em certos casos este tipo de actuação: por exemplo, na função pública, as carreiras são pouco ou nada influenciadas pela «performance».

2. Formação: Para sermos mais produtivos precisamos de ser mais qualificados. É necessário mais investimento público e privado em formação. Contudo, esta tem de ser adequada aos objectivos. Não basta gastar mais em acções formativas — 10 é preciso determinar qual o tipo de formação em que devemos investir.

3. Gestão: O enquadramento geral não favorece muito a produtividade. As nossas empresas, sobretudo as pequenas, as quais representam uma fatia importante do tecido empresarial português, são frequentemente mal geridas: não existem objectivos claros quer em matéria de mercado a servir, investimentos a realizar, tecnologias a incentivar ou tipo de técnicos a contratar e formar. É preciso uma melhor gestão das operações e dos objectivos se queremos ser mais produtivos.

4. Concorrência: O peso do Estado na economia e a existência, em vários sectores, de situações ambíguas em termos de ambiente concorrencial, não favorecem nem a produtividade nem a inovação. Portugal, para ser mais produtivo, precisa de menos Estado produtivo e de mais ambiente concorrencial.

5. Inovação: Ser mais produtivo não é apenas produzir mais. É também produzir melhor e com mais qualidade. Produzir produtos mais sofisticados, tecnologicamente mais avançados que valem mais dinheiro. Para isso, é preciso inovar, investir em novas tecnologias e na formação de trabalhadores que as saibam explorar.

6. Disciplina: Finalmente, é preciso mais disciplina e exemplo: no trabalho, nas empresas e na contabilidade pública.

Fonte: Leonor Modesto, economista, 2005

Taxa de crescimento da produtividade do trabalho (%) face à Europa dos 12 (*)

s 1961-1973 1974-1985 1986-1990 1991-1995 1996-2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 Portugal 6.6 2.6 4.6 2.3 1.8 0.3 0.1 -0.8 0.9 1.1 1.2 EU12 4.8 2.1 1.9 1.9 1.2 0.3 0.4 0.5 1.7 1.1 1.2
Fonte: European Economy 2004, Anexo Estatístico
(*) Reino Unido, França, Bélgica, Luxemburgo, Espanha, Grécia, Itália, Holanda, Alemanha, Irlanda, Dinamarca, Finlândia




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