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Portugueses mais dinâmicos

17.04.2003


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Fernanda Pedro

O RECURSO ao trabalhador em regime temporário é prática em todos os países. São muitas as empresas de trabalho temporário (TT) que se expandiram do país de origem e abriram sucursais nos quatro cantos do mundo. A Portugal chegaram várias empresas multinacionais nesta área e depois de alguns anos instaladas no nosso país conseguem analisar o perfil do trabalhador temporário português.

 

 




Radiografia do temporário português




Bons profissionais, dinâmicos, espírito aberto, facilidade na expressão linguística e empreendedores são algumas das características positivas apontadas pelos responsáveis das multinacionais sedeadas no nosso país. Em contrapartida, como facetas mais negativas, apontam o incumprimento de horários e a falta de assiduidade.

A Randstad, empresa multinacional de origem holandesa na área do TT, está actualmente presente em toda a Europa, nos Estados Unidos e no Canadá com mais de 2200 sucursais em todo o mundo. Guy Mallet é o responsável da Randstad que veio abrir a sucursal em Portugal em 2000 depois de 20 anos de experiência de TT em França.

Para este responsável os temporários portugueses são, de uma maneira geral, bons trabalhadores. "Os portugueses são excelentes profissionais, dinâmicos e apresentam facilidade de adaptação em novos desafios que lhes são propostos", refere o director geral da Randstad.

Mas para este especialista, os portugueses têm ainda outras características positivas em relação aos trabalhadores franceses. "Mesmo quando não têm a formação necessária para o desempenho das funções que lhes são propostas, esforçam-se para aprender e dar o seu melhor. Os franceses vêm das universidades com a ideia que já sabem tudo e apresentam maiores dificuldades em se adaptarem a novas situações", revela.

De acordo com Guy Mallet, os jovens franceses ficam em casa dos pais até mais tarde e têm maior dificuldade em se moldar às exigências do mercado de trabalho. Outra das vantagens sentidas por este responsável no contacto com os trabalhadores lusitanos diz respeito à sua facilidade em dominar diversas línguas. "Em Portugal, os jovens exprimem-se muito bem em inglês ou mesmo em francês, o que não acontece em França", refere o director geral da Randstad.

Temporários por necessidade

Por outro lado, em França, os jovens vêem o trabalho temporário como uma rampa para a integração no mercado laboral e uma forma de adquirirem experiência profissional. Segundo este responsável, "muitos jovens procuram voluntariamente o TT em início de carreira, enquanto em Portugal essa decisão é quase sempre por necessidade".

Guy Mallet, salienta ainda que os portugueses apresentam grandes dificuldades no cumprimento de horários e isso reflecte-se, naturalmente, na produtividade.

A falta de assiduidade e pontualidade também foi apontada por Blas Oliver, director-geral da Adecco, outra empresa multinacional de TT com sucursal em Portugal.

Com oito anos de experiência de TT na Espanha e um no nosso país, este responsável refere que "os portugueses têm grande dificuldade em cumprir com as horas de entrada e com a comparência regular no trabalho". Para aquele especialista, este comportamento será mesmo um dos factores decisivos para o aumento da produtividade nacional. "Na Espanha trabalham o mesmo número de horas que em Portugal mas produzem mais", contrapõe Blas Oliver.

Também para este responsável os portugueses apresentam maior facilidade de expressão em termos linguísticos do que os espanhóis, mas em relação à capacidade de adaptação e ao profissionalismo demonstrado no exercício das funções, portugueses e espanhóis manifestam faculdades semelhantes.

"Não existem grandes diferenças entre o trabalhador temporário português e espanhol. Mesmo porque as taxas de desemprego em ambos os países são muito altas e isso obriga a uma reestruturação do mercado laboral. O TT surge assim como uma alternativa e os trabalhadores empenham-se mais para assegurar uma oportunidade de emprego", refere o director da Adecco.

Mercado nacional mais igualitário

Uma oportunidade que para as mulheres espanholas é mais difícil de conseguir. Segundo este responsável, o público feminino em Espanha encontra mais obstáculos na integração no mercado de trabalho, nomeadamente no TT, o que não acontece em Portugal.

"A realidade é que a taxa de desemprego feminino em Espanha é muito alta. Não sei se valerá a pena falar de discriminação, mas a verdade é que entre um candidato masculino e um feminino a escolha quase sempre recai sobre o homem. Em Portugal isso já não acontece com tanta frequência", observa.

A maior diferença que Blas Oliver encontra entre os dois países é, ao nível da credibilidade, que as empresas utilizadoras depõem nas de TT, "Em Portugal, os empresários demonstram falta de confiança no nosso trabalho e isso é ainda uma das dificuldades com que se debatem as empresas portuguesas. Mas em Espanha isso está ultrapassado".

Também para Mark Bowden, director ibérico da Hays Interim, empresa multinacional de TT, com sucursal em Portugal desde há três anos e com 15 anos de experiência de TT em Inglaterra, os trabalhadores temporários portugueses são bons profissionais. O problema maior prende-se com os empresários. "O português demonstra grandes capacidades de trabalho mas por vezes a forma como é dirigido não é a melhor", sublinha.

A esperança da entrada no quadro

Ainda de acordo com este responsável, os portugueses têm dificuldade em mudar de emprego, preferem permanecer no quadro de uma empresa do que procurar outra alternativa mais vantajosa e é por esse motivo que o TT em Portugal só aos poucos vai ganhando expressão.

"Ao passo que em Portugal um trabalhador prefere ficar numa empresa durante meses sem receber ordenado, em Inglaterra ou na Holanda um profissional nas mesmas condições não se sujeita a essa situação. Se não recebe o seu salário num mês, procura outro emprego", explica.

Naturalmente que Mark Bowden também tem consciência de que a instabilidade e o baixo nível de criação de emprego em Portugal obriga os trabalhadores a sujeitarem-se a este tipo de situações. De qualquer forma, este responsável adianta que os portugueses, mesmo no TT, acalentam sempre a expectativa de entrar nos quadros das empresas.

Mas, na opinião deste especialista, tal não invalida a capacidade empreendedora dos portugueses. "Muitos trabalhadores cientes de que nunca chegarão a cargos de chefia preferem arriscar e lançam-se num negócio próprio o que é extremamente positivo", esclarece.

Mas para o director ibérico da Hays Interim, o problema de Portugal encontra-se na situação política em que se vive. "A lei do trabalho é pouco flexível e a política portuguesa está muito dependente de Bruxelas. Isso torna o país pouco produtivo", conclui Mark Bowden





Radiografia do temporário português

O TRABALHADOR temporário português apresenta determinadas características específicas que o distinguem em relação ao temporário estrangeiro.

Os responsáveis pelas empresas multinacionais de trabalho temporário sediadas em Portugal revelam que a maioria dos trabalhadores chegam quase sempre a este regime laboral por necessidade e revelam por vezes algum receio em mudar de emprego.

Todavia, os portugueses demonstram em comparação com outros trabalhadores estrangeiros mais qualidades positivas do que negativas.

Perfil do trabalhado temporário português

Aspectos positivos:

Bons profissionais
Dinâmicos
Facilidade na expressão linguística
Empreendedores
Facilidade de adaptação a novos desafios
Predisposição para aprender

Aspectos negativos:

Incumprimento de horários
Falta de assiduidade
Pouco produtivos
Dificuldade em mudar de emprego



 





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