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PME chumbam diversidade

PME chumbam diversidade

Em Portugal, as pequenas e médias empresas privilegiam a contratação de profissionais portugueses, deixando de lado cidadãos de outras nacionalidades, mas também portadores de deficiência.
25.02.2011 | Por Cátia Mateus


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O poder da diversidade ainda não entrou na mentalidade dos dirigentes da grande maioria das Pequenas e Médias Empresas (PME's) nacionais. No rescaldo das celebrações do Dia Mundial da Justiça Social, o Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM) divulga os resultados de um estudo que revela que 97% dos colaboradores das PME são portugueses. A colocação de mulheres em cargos de chefia e a integração de portadores de deficiência, são também fatores que ainda mancham a imagem de um Portugal adepto da diversidade e socialmente justo.

O desafio do IPAM era encontrar no tecido empresarial nacional exemplos de boas práticas em matéria de diversidade de género, nacionalidade, etnia, religião, cultura ou deficiência. Mas no universo das PME, os resultados ficaram muito aquém das expectativas. Entre as PME nacionais, 97% dos colaboradores recrutados são portugueses. Para Sandra Gomes, coordenadora do curso de Gestão de Marketing do IPAM, “apesar dos cenários cada vez mais globais que envolvem o mundo dos negócios, as nossas empresas ainda mantêm uma certa aversão em trabalhar com pessoas diferentes”. Para a responsável trata-se de um mero fator cultural. Mas graças a ele, as PME nacionais estão a deixar passar ao lado um vasto leque de oportunidades.

Sandra Gomes não tem dúvidas de que “existem várias vantagens para as organizações em apostar numa gestão estratégica da diversidade laboral”. A responsável aponta no imediato “o aumento da criatividade e inovação, a melhoria da comunicação interna e externa, o desenvolvimento de competências de trabalho em equipa e em rede, ou mesmo a exploração de outros nichos de mercado ou expansão de oportunidades globais” e esclarece que tudo isto poderá estar a ser negligenciado pelas PME lusas.

E se o dado mais flagrante diz respeito à contratação de cidadãos estrangeiros, outros há que também chamam à atenção. Relativamente ao género, por exemplo, o estudo indica que a média de colaboradores das empresas situa os homens nos 59% e as mulheres nos 49. Uma diferença pouco expressiva, mas que ganha outros contornos quando a análise incide sobre os cargos ocupados por cada género. “Os homens ocupam 78% dos lugares de dirigentes, contra 21,6% ocupados pelas mulheres”, explica a coordenadora que ressalva ainda que “no outro extremo da tabela surgem os postos de praticantes e aprendizes, onde as mulheres ocupam 82% dos lugares e os homens 18%”. Ainda assim, a responsável acredita que a entrada das mulheres no mercado laboral é um fenómeno relativamente recente e que esta disparidade será alvo de uma inversão no futuro.

Mas disparidade de géneros não se constata só nos postos de trabalho ocupados por homens e mulheres. Segundo dados Instituto Nacional de Estatística (INE) relativos a 2010, o impacto salarial destas diferenças beneficia os homens em 128 euros mensais. O salário médio deles ronda os 849 euros e o delas não excede os 721 euros. Um fosso que aumenta ao nível dos quadros superiores, onde os homens ganham em média mais 228 euros mensais do que as suas colegas.

Para Sandra Gomes o caso mais grave de discriminação acontece ao nível dos portadores de deficiência. É inequívoco que os estigmas sociais associados à deficiência, raça e etnia contribuem para uma menor integração dos candidatos. No que respeita aos portadores de deficiência, o estudo revela que sete em cada dez PME's consideram que os candidatos invisuais serão dificilmente integráveis nas empresas. No caso dos surdos, a dificuldade de integração situa-se nos 45%. “Para justificar estes dados, cerca de metade das empresas inquiridas afirma que nunca teve candidatos com deficiência e 19% admite mesmo que a empresa não está preparada ao nível da acessibilidade física para acolher portadores de deficiência”, explica a coordenadora adiantando que “tal realidade denota falta de informação sobre os apoios existentes e tipos de deficiência”. Saliente-se apesar disso que, em matéria de portadores de deficiência, Portugal regista uma taxa de empregabilidade (55%) que supera a média Europeia (47%) mas as PME não expressam esta realidade. Sandra Gomes não nega a existência de indícios de discriminação, sobretudo com trabalhadores cegos e surdos.

Numa outra vertente, a da etnia, Portugal também choca com a tendência Europeia. A etnia cigana é a mais penalizada, já que 47% das pequenas e médias empresas nacionais considera que estes colaboradores são dificilmente integráveis ou até mesmo não integráveis. A postura de restringir a contratação de trabalhadores de outras nacionalidades ou etnias é inversa à praticada, noutros países como Reino Unido onde apenas 20% dos colaboradores das PME são ingleses.

Para Sandra Gomes, este cenário é mais grave pelo facto do país enfrentar uma conjuntura económica adversa. “É exatamente nos cenários de crise como o atual que as empresas devem apostar na responsabilidade social enquanto fator de diferenciação e competitividade”, defende. Um esforço que a responsável reconhece que tem sido feito pelas empresas ao incluírem a responsabilidade social nas suas estratégias, mas que ainda está muito aquém das reais necessidades do tecido económico nacional. “Em Portugal ainda há muito a fazer neste campo”, argumenta.

Portugal desigual*

. Em 2009 Portugal tinha 308 municipios e apenas 23 mulheres na sua presidência
. A proporção de ministros e secretários de Estado era de 81,5% de homens e 18,5 mulheres
. Os membros do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas eram 94% homens e só 6% mulheres, ainda que a maioria dos docentes de ensino superior pertença ao sexo feminino
. Existem 163.302 trabalhadores estrangeiros em Portugal. Os quadros superiores representam 3,8%, os profissionais qualificados 35%, os semi-qualificados 22% e os não qualificados 26%
. Os estrangeiros integrados no mercado de trabalho nacional são sobretudo brasileiros (49515), ucranianos (22158) e provenientes de países africanos (48449)
. O país tem 4221 deficientes a trabalhar em empresas com mais de 100 trabalhadores. 58% são homens e 42% são mulheres.

* Dados do Eurostat



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