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Na era do biscate

Para fazer face às dificuldades financeiras são cada vez mais os portugueses que acumulam dois ou mais trabalhos, mesmo numa altura em que o desemprego atinge níveis recorde. São pequenos biscates que acabam por se tornar fundamentais para quem precisa de um extra no orçamento mensal
19.03.2009


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Cátia Mateus
Personaliza a imagem dos que se viram forçados a encontrar um segundo emprego para fazer face às despesas quotidianas e minimizar o impacto de uma situação de instabilidade laboral contínua. Aos 35 anos, Maria Coutinho é uma das muitas portuguesas que trabalha a recibos verdes. Não ganha todos os meses a mesma coisa, mas a cada 30 dias as responsabilidades financeiras são iguais. "Nos últimos meses o meu rendimento mensal diminuiu e vi-me forçada a tentar colmatar a instabilidade dos recibos verdes com outra ocupação, até porque tive receio que prescindissem mesmo dos meus serviços de uma hora para a outra. A crise está a tocar a todos", explica a jovem tradutora.

Consciente de que conseguir um novo emprego não é nos dias que correm tarefa fácil, Maria lá se lançou na tarefa de encontrar uma função compatível com as sua traduções, "porque é o que de facto gosto de fazer e ainda não estou disposta a abdicar dos sonhos", argumenta. Hoje, concilia a actividade que já tinha em regime de freelancer com um emprego num call center. Dorme seis horas diárias, mas garante que equilibra as contas. Por mês, consegue tirar, em média, 1200 euros.

Ana Costa tem um quotidiano semelhante. licenciou-se em ciências da comunicação mas a entrada no mundo dos media não foi fácil. Deixou para trás a comunicação e entrou num banco mas face a um divórcio inesperado viu-se obrigada a encontrar um emprego extra para poder dar resposta aos seus encargos financeiros. "Fiquei com uma casa para pagar e um carro. O que ganhava não chegava e tentei encontrar uma segunda ocupação compatível com o emprego que já tinha durante a semana", explica. A tarefa não se revelou fácil e Ana acabou por ter de abdicar dos fins-de-semana a favor de uns euros a mais no orçamento mensal. Durante a semana está no banco. Ao fim-de-semana trabalha numa conhecida loja de decoração num shopping. Feitas as contas, entram em casa, 1500 euros mensais. Mas há em Portugal gente que com dois empregos não excede os mil euros, ou até menos. Uma realidade que está a modificar a realidade laboral no país.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o número de pessoas com mais de dois empregos aumentou cerca de 5% durante o ano passado. Um número que poderá ainda subir em 2009. De acordo com os resultados do inquérito do INE, o duplo emprego terá afectado em 2008 cerca de 339 mil empregados, o equivalente a 7% da população empregada e o mais alto valor desde 1998.

Os mesmos dados revelam que 1,6 milhões de portugueses têm rendimentos abaixo dos 600 euros mensais, a grande maioria (60%) com actividade no sector dos serviços. Mas é também também neste sector que se refugiam maioritariamente aqueles que procuram uma segunda ocupação.

No contexto Europeu, a Alemanha, a Polónia e o Reino Unido são os países onde mais se pratica o duplo emprego. Aqui há cerca de um milhão de pessoas a dividirem o seu quotidiano por dois trabalhos. E até mesmo o inquérito europeu às condições de trabalho vem reforçar esta tendência, dando a conhecer que na Europa dos 27, cerca de 6,2% da população activa tem dois empregos.

Uma realidade que se pode agravar face à actual conjuntura económica e que levará os europeus a renderem-se aos designados biscates para conseguirem fazer face às despesas quotidianas. Apesar de mesmo com dois empregos a redução do consumo ser algo inevitável, há de facto pequenas tarefas conciliáveis com outra ocupação permanente que o podem ajudar a ganhar alguns euros extra. Tarefas que não têm necessariamente de passar por um part-time formal, e pode perfeitamente ter por base dar uma resposta remunerada a necessidades provenientes da sua rede social ou de proximidade.

Entre as ocupações mais comuns estão a realização de limpezas, trabalhos de jardinagem ou prestação de serviços técnicos, mas além destas tarefas há muitas outras. Babysitting, apoio escolar, preparação e entrega de refeições caseiras ao domicílio, acompanhamento de idosos, entre muitas outras tarefas. A dica de ouro é mesmo perceber o que você sabe fazer além da sua profissão e tornar o seu hobby rentável.





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