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Lig@te ao mundo dos negócios

Na freguesia da Ameixoeira está a nascer um projecto de empreendedorismo social que promete contagiar o resto do país. A ANJE criou neste bairro um núcleo empreendedor que visa ajudar potenciais empreendedores, com raízes de exclusão social, a criarem iniciativas locais de negócio
10.04.2008


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Cátia Mateus
O empreendedorismo social está a ganhar dimensão um pouco por todo o mundo e segundo os especialistas pode ajudar a resolver uma ampla variedade de problemas sociais e económicos. Estão também provadas as suas potencialidades no domínio da reintegração profissional e social de grupos excluídos e Portugal começa agora a abraçar esta nova causa. A Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), em conjunto com a Junta de Freguesia da Ameixoeira e um leque vasto de parceiros lançaram, naquele bairro lisboeta, o Núcleo Empreendedor Lig@te. O espaço tem em vista estimular e apoiar as iniciativas locais de negócio e emprego, contribuindo para o desenvolvimento económico local, através da inserção profissional e social dos seus moradores e, simultaneamente, ajudando a requalificar o espaço urbano da Ameixoeira. Para Armindo Monteiro, presidente da ANJE, “este é um primeiro passo num projecto de grande valor que se quer de âmbito nacional”.

Marina Mostovia tem 28 anos, dois filhos, e é moldava. No seu país trabalhava como cabeleireira, teve experiência na animação infantil e na realização de trabalhos artísticos. Quando chegou a Portugal teve dificuldade em dar continuidade ao seu percurso profissional. Trabalha em limpezas e estuda informática, mas nunca desistiu de voltar a exercer a sua profissão e a comunidade reconhece-lhe o talento. Apesar de já ter exposto, enquanto pintora, na Câmara Municipal de Lisboa, é na arte dos cabelos que a jovem pensa investir.

“Apesar de não ter tido oportunidade de desenvolver essa actividade cá a tempo inteiro, nunca deixei de exercer a profissão totalmente. Faço isso como «part-time», actualmente”, explica Marina. É que a jovem não cruzou os braços e distribuiu panfletos localmente oferecendo os seus serviços de cabeleireira. Assim, “sempre que as pessoas me ligam vou a casa delas arranjar o cabelo ou as mãos”. Marina confessa que não chega para viver, mas é uma ajuda e não esconde o seu desejo de fazer desta a sua única actividade.

O mundo empresarial está também na mira de Ana Oliveira, desta feita com um negócio menos comum. Ana quer dedicar-se a ajudar os outros a organizar melhor o seu espaço de arrumação doméstica e até já o fez, algumas vezes, com sucesso. “Vários amigos têm recorrido a mim para os ajudar a rentabilizar o seu espaço e nos projectos que já fiz saí-me bastante bem”, explica a empreendedora que acrescenta: “Há muita gente a necessitar deste tipo de serviços e o investimento inicial não é muito grande”.

Com um percurso de vida que personaliza a ideia do empreendedor como um constante lutador que não desiste face às adversidades, Ana, que foi toxicodependente no passado, sabe que a vida não lhe está facilitada se precisar de pedir crédito bancário para criar a sua própria empresa, mas nem por isso desiste. Tal como não desiste Sónia Soares, uma jovem de 32 anos que, face a uma situação de desemprego, decidiu dar o pontapé de partida para a criação da Primordial Cuidados, uma empresa que se dedica ao apoio, a nível da higiene, de pessoas idosas e acamadas. O projecto já está em funcionamento e apesar de estar sediado no bairro da Ameixoeira, a meta é prestar serviços em toda a cidade.

Em comum todas estas mulheres têm o facto de estarem integradas no projecto Lig@te e de terem como ambição uma vida empresarial sólida que lhes permita viver fazendo o que gostam, crescendo sempre com pequenos passos. Marina, Ana e Sónia recorreram ao apoio do núcleo empreendedor local para colocarem de pé os seus projectos empresariais, mas são apenas três exemplos de uma base de dados já vasta de gente interessada em criar o seu negócio num bairro que é visto por muitos como difícil.

Uma imagem que este projecto também pode ajudar a mudar. Com efeito, o Núcleo Empreendedor Liga@te está implantado no Centro de Desenvolvimento Comunitário da Ameixoeira, “uma zona com população altamente carenciada no que toca à qualificação profissional e ao acesso às oportunidades de emprego”, explica Armindo Monteiro que salienta ainda “a acentuada falta de investimento no tecido económico e o desajustamento evidente entre a procura, os recursos formativos e as necessidades do tecido empresarial”.

Foi inclusive para fazer alterar esta conjuntura desfavorável que a freguesia recebeu a intervenção do projecto K'Cidade, da Fundação Aga Khan, com o propósito de implementar respostas sustentáveis em zonas urbanas desfavorecidas. Armindo Monteiro esclarece que apesar do papel dinamizador da ANJE neste projecto, o mérito da iniciativa que agora se desenvolve partiu de duas investigadoras — Cristina Simões e Susana Ferreira — que conhecendo a realidade da freguesia e as suas necessidades ajudaram a estruturar um programa de intervenção que tem afinal bases muito simples.

“Há um conjunto de iniciativas empresariais que poderiam surgir se houvesse ajudas. Isto porque, a maior parte das pessoas deste bairro ou são imigrantes ainda em fase de legalização, ou vêm de situações de exclusão social, ou simplesmente não tem um simples contrato de arrendamento, logo não podem constituir empresas”, explica o presidente da ANJE. Por outro lado, a nível urbanístico, “o rés-do-chão dos edifícios destes bairros é normalmente composto por lojas nas quais ninguém investe ou estão vandalizadas, porque não há sentimento de partilha”.

Pegando nestas duas realidades, a ANJE estruturou um projecto de intervenção que apoia os potenciais empreendedores locais — “gente que, muitas vezes, já exerce actividade na economia informal” — na criação e gestão formal dos seus negócios, possibilitando-lhes a ocupação de um destes espaços disponíveis no bairro. “Através de uma negociação com a autarquia criámos nesses locais ao abandono, incubadoras empresariais que receberão negócios locais e com isto, ajudamos a renovar o tecido urbano e a dinamizar o bairro, tornando-o auto-suficiente e ajudando a mudar a sua imagem junto da comunidade”, explica o líder dos jovens empresários.

Neste momento, há no local espaço para incubar cerca de 15 empresas/ negócios. Tradução, tratamento de documentação, cabeleireiros, tratamento e acompanhamento de idosos, restauração são apenas alguns dos negócios que poderão surgir neste bairro que, esclarece: “Apesar dos problemas sócio-económicos que enfrenta, a Ameiroeira é uma das freguesias mais jovens do concelho de Lisboa, facto que só vem reforçar a urgência desta iniciativa para a inserção profissional e até mesmo social, especialmente das gerações mais jovens”.

Na concretização deste projecto, a ANJE conta com parceiros como o K'Cidade (iniciativa da Fundação Aga Khan), a Associação Raízes, a Câmara Municipal de Lisboa, a Gebalis, o Centro de Emprego de Benfica, o SOS Racismo, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a empresa EASY Bus. Para Armindo Monteiro a meta é, aproveitando a abrangência nacional da ANJE, alargar este projecto a outros bairros nas mesmas condições. E o líder lamenta que nos vários contactos que já fez com outras autarquias tenha recebido respostas como: “Não queremos porque não temos problemas nos nossos bairros”.

Paralelamente ao apoio dado pela equipa do Liga@te ao nível da orientação técnica, o estímulo ao empreendedorismo é sustentado pela adopção de mecanismos de apoio a iniciativas económicas locais, como o Portal Liga@te (http://ligate.kcidade.com/index.php), uma página de emprego, formação e negócios que proporciona à população da Ameixoeira a informação necessária para a criação dos seus projectos empresariais.





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