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Licenciados & desempregados

16.05.2003


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Ruben Eiras

CERCA de 80% dos seis mil desempregados que engrossam mensalmente as estatísticas dos centros de emprego são licenciados.


O alerta foi dado por Roberto Carneiro, ex-ministro da Educação e "pai" do actual sistema de escolas profissionais, aquando da sua intervenção num colóquio sobre a relação entre o ensino profissional e o mercado de trabalho, no âmbito da iniciativa "Dias Abertos", dirigida à promoção da Escola Profissional Digital da Rumos.

"Talvez o drama não fosse tão grande se tivesse havido uma maior aposta no ensino técnicoprofissional, em vez do ensino superior", frisa aquele especialista. Isto porque o mercado de trabalho português sofre um grande desequilíbrio estrutural, caracterizado por um excesso de licenciados e mão-de-obra desqualificada, contraposto a uma carestia crónica de quadros intermédios e técnicos.

Mas a cultura do povo português também não ajuda a mudar o panorama. Roberto Carneiro salienta que ainda existe uma imagem social negativa ensombrando o ensino profissional, sendo este ainda encarado como "uma alternativa mais fácil ao secundário" e uma saída para os jovens marcados pelo insucesso escolar no sistema formal de ensino. "Nada mais errado", sublinha veementemente.

E provando o que prega, dá como exemplo um dos seus nove filhos que resolveu cursar gestão de sistemas de informação numa escola profissional. "Ele sentiu-se mais feliz assim e realmente fez a melhor opção. A formação que recebeu foi de grande qualidade e muito prática, melhor do que em algumas universidades", afirma.

Só que a mudança de mentalidade não se adivinha tarefa fácil, dada a inércia cultural que prevalece na sociedade portuguesa. Mas não para sempre. Roberto Carneiro está confiante que a atitude dos portugueses irá mudar radicalmente devido à "dor" infligida pela actual situação do mercado laboral.

"A tradição do 'sr. doutor' de certeza que irá mudar com os actuais 35.000 desempregados licenciados e os que irão engrossar estas fileiras no futuro", sublinha. "É um bocado duro afirmar isto, mas quanto mais desemprego houver de licenciados, menor será o seu estatuto social e mais beneficiados serão os alunos das escolas profissionais no seu prestígio", reforça aquele responsável.

Um prestígio cuja imagem de marca se começa a construir pela empregabilidade. De acordo com os dados do Ministério da Educação apresentados pelo orador, 78% dos diplomados nas escolas profissionais já estavam a exercer uma profissão logo após a conclusão do curso.

Na verdade, a tendência pela preferência do ensino profissional começa a emergir na sociedade portuguesa. Segundo outro conjunto de dados apresentados por Roberto Carneiro, provenientes de um estudo sobre o ensino profissional realizado pela Fundação Manuel Leão, a procura por este tipo de educação tem vindo a crescer nos últimos anos. Desde 2000 que a média de alunos admitidos no sistema se situa nos 49%, o que significa que metade dos candidatos fica excluído.

"Isto indica a existência de uma procura com grande dimensão. É incompreensível porque o Estado não acaba com os 'numerus clausus' para que mais jovens possam aceder a este tipo de ensino", propõe. "É melhor do que irem para o mercado sem nenhuma qualificação profissionalizante ou se tornem em licenciados frustrados", observa ainda aquele responsável.

Sobre o novo modelo de financiamento proposto pelo Governo, baseado no sistema de cheque-educação dado aos alunos, Roberto Carneiro está de acordo com o princípio, mas ressalva que são necessários "uma maior discussão e esclarecimento dos pormenores de funcionamento do novo sistema".





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