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Formação técnica, precisa-se!

01.08.2003


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João Ramos e Ruben Eiras

UM TERÇO dos jovens portugueses deveria ter formação técnica especializada como forma de colmatar a falta de quadros médios",







Como avaliar a formação



defendeu Luís Valadares Tavares, Presidente do INA - Instituto Nacional de Administração (INA) durante uma mesa-redonda sobre a formação profissional em Portugal organizada pelo EXPRESSO, em colaboração com a Nova Fórum, a escola de formação de executivos da Universidade Nova de Lisboa.

A ideia, que mereceu consenso entre os outros participantes da mesa redonda, vai ao encontro das boas práticas existentes nos países desenvolvidos.

Na Alemanha, por exemplo, 70% dos jovens frequentam estes cursos. "É sobretudo com bons quadros intermédios que se consegue aumentar a competitividade", afirma Simão Portugal director da Associação Nacional de Formação em Electrónica Industrial (Anfei), outro dos participantes da iniciativa do EXPRESSO.

Aquele responsável estima que o mercado tem uma lacuna de 20.000 profissionais com competências tecnológicas. "O sistema de escolas tecnológicas forma cerca de 1600 por ano. A este ritmo, nem em 10 anos conseguimos atingir o objectivo", sublinha.

Para Valadares Tavares, a formação profissional em Portugal está "distorcida" e "desalinhada" em relação aos outros países da UE. Um problema que tem na sua origem, segundo o mesmo responsável, na formação inicial e encaminhamento dos jovens.

"Grande parte dos cerca de 50% de jovens que escolhem as ciências sociais e humanas porque estão traumatizados com a matemática, e acabam por não estar vocacionados para o curso que escolhem". Como tal, este responsável considera ser importante que os estudantes pré-universitários tenham acesso a mais informação sobre as necessidades do mercado de trabalho e que fosse conhecida a lista dos cursos que produz licenciados para o desemprego.

A Anfei é uma excepção neste quase deserto português na área de formação técnica especializada. Com uma produção de 350 formandos por ano no regime de formação contínua (elaborado à medida das necessidades das empresas), aquela escola tecnológica produz ainda cerca de 300 formandos no regime de formação em alternância - modalidade formativa na qual o aluno passa quatro dias na empresa e um dia de formação em sala.

Para assegurar que a formação responde às necessidades do mercado laboral, Simão Portugal garante que regularmente é efectuada uma avaliação qualitativa do impacto da formação no desempenho do posto de trabalho.

Os resultados desta metodologia falam por si: 80% das empresas clientes (cerca de 50) estão satisfeitas com a qualidade dos formandos da Anfei. Entre estas, só a Autoeuropa contratou 400 alunos daquela escola. A taxa de empregabilidade da Anfei situa-se nos 100%.

"A razão do nosso sucesso deve-se aos cursos serem sempre centrados na resolução dos problemas das empresas. É que o formador tem que dominar o planeamento da formação. Não pode estar divorciado das empresas e ser um mero 'entertainer'", ironiza Simão Portugal.

Formar em sincronia com o trabalho

Outra grave deficiência, segundo Valadares Tavares, está no facto da formação contínua ser sido menosprezada e pouco relacionada com o posto de trabalho tanto das empresas como na administração pública. "E, além disso, falta uma cultura de competitividade na avaliação e produção de conhecimento no nosso sistema educativo", acrescenta o presidente do INA.

Curiosamente, como aponta Elsa Carvalho, consultora da Mercer Consulting, segundo um estudo recente desta consultora apontava para o facto de em Portugal o investimento e o número de horas de formação empresarial ser quase igual ao de outros países, só que os resultados estão muito aquém.

"Estamos péssimos em planeamento e na medição do retorno de investimento em formação", adianta a mesma especialista.

"As empresas não fazem o levantamento das suas necessidades formativas. Logo, é lógico que muita da formação não tenha nada a ver com as exigências do negócio e do posto de trabalho", explica.

Quanto ao cálculo do retorno do investimento (ROI) em formação, aquela especialista sublinha que este indicador - convertido em métricas financeiras - é crucial para que os gestores consigam identificar o impacto das acções formativas na performance do negócio. "Caso contrário, está-se a deitar dinheiro pela janela fora", frisa. (ver caixa Como avaliar a formação).

Uma perspectiva partilhada por José Pedro Barosa, presidente da Nova Fórum. Para este responsável, as empresas têm que assumir a formação como um investimento, para que esta seja "rentável".

Isto é realizado através da identificação por parte da empresa das suas necessidades e dos custos e benefícios das acções formativas. "Só assim é que o gestor pode assumir uma margem de risco face ao montante investido em formação e assim definir objectivos concretos em relação à formação", sublinha.

Mas também há experiências positivas em Portugal neste aspecto. Segundo Rui Paiva administrador da Wedo Consulting, empresa da "subholding" Sonaecom, já criou uma "corporate university" por acreditar que "a formação profissional é um processo contínuo que não acaba com a saída da universidade e está relacionada com o posto de trabalho".

Rui Paiva mostra a sua perplexidade pelo facto dos gestores portugueses terem bons desempenhos à frente das subsidiárias de multinacionais, embora essas boas práticas não sejam na maioria das vezes transpostas para as empresas nacionais. "O que faz diferença nas empresas não são as pessoas, mas sobretudo os métodos e processos", observa.

Uma das causas para este estado de coisas em Portugal, segundo este responsável da Sonaecom, também está relacionado com a falta de incentivos para as empresas portuguesas investirem em formação.

"Os subsídios e os apoios deveriam ser dados às empresas que apostaram na formação", diz o mesmo responsável. E acrescenta: "O Estado deveria criar métricas de forma a que aposta em formação pudesse ser considerada nos concursos públicos, a exemplo do que já acontece com as certificações de qualidade ISO".

Para Jaime Quesado, gestor do Programa Operacional da Sociedade da Informação (POSI), a formação profissional falha em Portugal, não só por não "haver um entendimento estratégico entre empresas, comunidades locais e estabelecimentos", como também pelo facto das empresas estarem agora mais preocupadas com o curto prazo.

Mas para que surja um entendimento estratégico sobre a formação em Portugal, Rui Moura, docente em sociologia do trabalho na Universidade Autónoma de Lisboa, sugere que se deverão escolher os "clusters" industriais com mais importância para o país e desenvolver experiências-piloto de formação nas empresas adequadas.

"Já está tudo escrito e diagnosticado sobre esta temática, já sabemos disto há mais de 15 anos. Agora o que urge fazer é construir uma política de recursos humanos coerente e competitiva para o país, pela primeira vez na nossa história", remata aquele investigador.




Como avaliar a formação

PARA avaliar a formação, a metodologia mais utilizada é a do americano Donald Kirkpatrick, de quatro níveis:

1º Avaliação das reacções dos formandos face à formação;

2º Avaliação da aprendizagem dos formandos durante a formação;

3º Avaliação das mudanças de comportamentos no posto de trabalho;

4º Avaliação dos resultados ao nível do negócio. Por exemplo, se a formação aumentou a retenção de pessoal ou a "performance" financeira da empresa.

Caso de sucesso: o National City Corporation, um dos 10 maiores bancos do mercado dos EUA, aplicou este modelo de avaliação, reduzindo os custos com o absentismo e a rotatividade em cerca de um milhão de euros e alcançando um retorno do investimento, através da melhoria de vendas, de 3,7 milhões de euros no primeiro ano.





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