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Bioinvestidores precisam-se!

15.10.2004


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Cátia Mateus e Fernanda Pedro

A MONTAGEM de um negócio em Portugal não é tarefa fácil. As dificuldades de financiamento e o excesso de burocracia estão entre os principais obstáculos com que se deparam os empreendedores. Se a criação de uma empresa nas áreas tradicionais de negócio já é complicada, mais difícil se torna se a opção do empresário recair sobre o domínio das tecnologias e da investigação. No caso da biotecnologia o investimento é sobretudo humano. As empresas valem pelos seus «cérebros» e pela capacidade de aposta em Investigação & Desenvolvimento. Ser «bioempreendedor» em Portugal ainda é uma aventura apenas acessível aos mais destemidos.


Jovens e arrojados

Em 2003, Filipe Aguiar e alguns colegas da licenciatura de Química Aplicada, da Faculdade de Ciência e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, decidiram criar uma empresa. «Ao realizarmos um trabalho para uma cadeira no último ano, conseguimos criar um produto inovador e decidimos apresentá-lo ao concurso de ideias de biotecnologia promovido pela Associação Portuguesa de Bioindustriais, a APBio», explica o empreendedor. Mesmo não tendo ganho, a equipa decidiu apostar no negócio e surgiu «Glucoprime — Plástico Biológico», apta a transformar açúcares em plásticos biodegradáveis. De acordo com Filipe Aguiar, o objectivo da empresa é produzir a matéria de origem biológica em quantidades industriais para revestir produtos de consumo.

Apesar do processo inovador, o empreendedor assegura que não é fácil vencer nesta área. «São projectos sujeitos a um grande risco e Portugal não gosta de arriscar», explica Filipe Aguiar garantindo que além das empresas de capital de risco não gostarem de «arriscar», também os apoios públicos não ajudam. «A burocracia é imensa para se obter apoios e a máquina do Estado é ainda mais complicada do que os privados», salienta. O empreendedor garante que a grande batalha é a mudança das mentalidades.

Também para João Rocha, que criou a «BioInnovation», uma empresa vocacionada para a investigação e desenvolvimento tecnológico em biotecnologia, é necessário apostar neste sector em Portugal. «É nítida a intenção da Comunidade Europeia, numa perspectiva de política estratégica macroeconómica, em tornar a biotecnologia a economia mais competitiva do mundo», explica. Segundo João Rocha, a investigação no nosso país nesta área praticamente só se faz nas universidades. Nestas predomina uma biotecnologia de ponta, dinâmica e com níveis de sucesso reconhecidos. Mas, ao nível do aproveitamento industrial, «a biotecnologia encontra-se num estado embrionário».

João Rocha não tem dúvida de que os principais entraves que se colocam a uma aposta neste sector são os custos fixos, «o principal factor de estrangulamento e morte de projectos empresariais».

A norte do país, outro projecto nacional venceu as barreiras e vingou na área da biotecnologia. A «Biotempo» é uma empresa de investigação e consultoria nas áreas alimentar, farmacêutica e ambiental, criada em 2002 por quatro jovens estudantes da Universidade do Minho. Isabel Rocha, uma das sócias-gerentes da empresa garante que não é fácil apostar na área da biotecnologia em Portugal.

A jovem empresária revela que «existe ainda um desconhecimento muito grande e os benefícios do sector não são divulgados de forma responsável». Isabel Rocha aponta como entraves à expansão do sector o reduzido número de empresas a investir em I&D e a falta de capital de financeiro — «normalmente avultado» — necessário à expansão destas empresas. A responsável da Biotempo adianta ainda que «tendo em conta a reduzida dimensão do mercado nacional e o investimento necessário para desenvolver projectos industriais nesta área, é quase forçoso que as empresas sejam criadas logo com uma perspectiva de internacionalização».

A Associação Portuguesa de Bioindustriais (APBio) é uma das instituições que mais têm contribuído para o aparecimento de novos negócios nesta área através do Concurso Bioempreendedor Ibérico que desenvolve em parceria com o ICEP. Apesar do sucesso da iniciativa, Luís Amado, presidente da APBio, lamenta que criar uma empresa nesta área não seja fácil.

Segundo o responsável, «há que levar as empresas de capital de risco a perder o receio de investir nestes projectos». Luís Amado refere que «como não há conhecimento específico nesta área, o medo de investir é grande». O director da APBio aconselha por isso aos empreendedores a terem uma visão internacional, já que o mercado no estrangeiro poderá abrir-lhes as portas muito mais facilmente do que em Portugal. Mas apesar do panorama ainda cinzento a nível nacional, Luís Amado acredita que acabará por se implantar uma estrutura industrial na área da biotecnologia.

 

RUMO À BIOTECNOLOGIA

A FUNCIONAR apenas há um ano, a Associação Empresarial para a Inovação-COTEC Portugal pretende apostar forte na área do bioempreendedorismo. O primeiro passo nesse sentido, garante Pedro Vilarinho, director de projecto da associação, é a realização de um estudo que permita uma visão clara sobre o mercado. Um desígnio que conduziu à criação do programa COHiTEC.

O programa visa a promoção, difusão e aplicação de métodos e processos com o intuito de criação e valorização de conhecimento, bem como o reforço à inovação e criação de «startups» de base tecnológica. Segundo o responsável, o COHiTEC reuniu já oito pré-planos de negócio e um deles prepara-se para entrar no mercado. «Esta experiência mostra que existem projectos com potencial que devem ser acarinhados e apoiados», explica.

Um apoio assegurado pelo ICEP através do seu «Concurso de Ideias Bioempreendedor» que já soma quatro edições e é um dos impulsionadores do fomento a criação de empresas nesta área. Para Ana Paula Félix, responsável pelo programa no ICEP, «existem no país vários concursos de ideias com o objectivo de criação de empresas, mas este é o único vocacionado para a biotecnologia, dai a sua importância». A responsável explica que estas iniciativas são fundamentais num país onde a biotecnologia é ainda muito incipiente e o mercado é muito difícil. Anualmente chegam ao final do concurso cerca de 12 equipas. «Mesmo que estas empresas venham a ser compradas, o seu contributo para a inovação é fundamental», refere.

Uma ideia partilhada por Armindo Monteiro, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE). Para o líder, «o segredo para a expansão do bioempreendedorismo no país passa pela criação de condições para a retenção de cérebros». O presidente da ANJE adianta que estas empresas vivem do seu potencial humano e «é preciso acabar com a ideia de que os ‘cérebros' permanecem em território nacional apenas por questões patrióticas». Uma aposta clara e sustentada na I&D, um sistema de bolsas estruturado e incentivos à formação de laboratórios são algumas das iniciativas a materializar para auxiliar a criação de «bioempresas» em Portugal.

 






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