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Aeronáutica: campus luso da Carbures já forma gurus

Aeronáutica: campus luso da Carbures já forma gurus

Há dois anos, o Grupo Carbures, um dos principais fornecedores da Airbus e da Boeing, escolheu Portugal para criar a sua universidade-empresa, ao adquirir 87% da Universidade Atlântica. O investimento realizado alterou por completo o projeto educativo da instituição, com o objetivo de lá instalar um cluster de engenharia, relevante a nível global.

01.08.2016


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Os primeiros resultados já se notam, sobretudo na experiência prática dos alunos e no seu potencial de empregabilidade.

Em 2014, o grupo multinacional Carbures – que fornece a Airbus e a Boeing – adquiriu 87% da da EIA – Ensino, Investigação e Administração, a sociedade detentora da Universidade Atlântica. Ao tornar-se a maior acionista da instituição, a Carbures assegurou a concretização de uma ambição antiga: criar uma universidade-empresa. Escolheu Portugal e com isso ajudou o país a firmar a sua posição enquanto cluster global na área das engenharias e a alavancar a criação de emprego em sectores como a aeronáutica e os materiais. Natália Espírito Santo, secretária-geral da Atlântica University Higher Institution, destaca o impacto que a parceria gerou no projeto educativo da universidade e garante que já se notam resultados.

Entre janeiro e março deste ano, a indústria aeronáutica e aeroespacial exportou €78 milhões. O peso do sector nas exportações nacionais não excede os 0,65%, mas está aumentar. Os dados mais recentes do Ministério da Economia demonstram que esta indústria cresceu 50% em relação aos primeiros três meses do ano passado. A contribuir para este crescimento está o investimento que empresas como a Carbures – mas também como Embraer, com fábricas em Évora, a OGMA ou a Takever – que têm realizado em solo nacional e que tem ajudado a dinamizar o sector. No caso específico da Carbures, nos últimos três anos, “a empresa multiplicou por dez os fundos próprios graças à sua atividade industrial, multiplicou por três o volume de negócio em apenas dois anos e, em 2015, alcançou um aumento da faturação de mais de 250%, cifra que estava prevista apenas para este ano”, explica Natália Espírito Santo.

Com forte tradição de ligação à academia, a Carbures nasce de uma spin-off, uma colaboração académica entre a Universidade de Cádiz e a CASA Construcciones Aeronáuticas SA (a empresa que em 1999 se tornou numa filial de EADS-AIRBUS). Em 2011, a empresa funde-se com a Altântica Composites e cria a Carbures Europe, uma empresa que desde cedo se destacou no mercado pelo seu know-how na área da maquinaria, fruto de processos intensivos e um grande investimento em Investigação & Desenvolvimento. “A Carbures conseguiu aplicar os processos de produção linear, massiva, aos materiais compósitos, que antes necessitavam de um processo de fabrico mais lento e artesanal. Desenvolveu uma máquina própria, denominada de RMCP (Rapid Multi-injection Compress Proccess), uma complexa prensa multi-injeção para o processamento e fabrico de materiais compósitos que os torna competitivos com os processos de fabrico tradicional em metal, tanto em custos como em tempo de fabrico das peças”, explica a secretária-geral da Atlântica. Esta aposta permanente em I&D por parte da tecnológica industrial – que acabou por se tornar uma das referências mundiais em processos de produção de componentes fabricados em materiais compósitos, com presença na Europa, Ásia e América e uma lista de clientes onde se incluem a Airbus, Airbus Military, Boeing, Bombardier, entre outras – sempre ditou a sua estratégia de inovação da empresa, sustentada numa clara aproximação às universidades e está na base da criação em Portugal da primeira universidade-empresa da multinacional.

Segundo Natália Espírito Santo, “a Carbures tem uma missão clara de ser líder mundial no fabrico de estruturas em materiais compósitos”. A proximidade ao ensino superior e aposta permanente na formação de novos especialistas e das suas próprias equipas é uma âncora dessa estratégia e Portugal é um ponto de partida. Quando há dois anos a empresa adquiriu a maioria do capital da Universidade Atlântica, reestruturando o seu projeto educativo de forma a reforçar a sua vocação na área das engenharias, era já isso que tinha em mente. O projeto da Carbures na Atlântica passa por manter os cursos de Gestão, Saúde e outros que a instituição detém, além de reforçar muito a área das engenharias.

Orientação para o mercado
No último ano letivo foram lançados o curso de Engenharia Aronáutica e de Materiais (licenciatura e mestrado, cada um com uma média de 30 vagas) e, com aprovação prevista para breve, entrarão também em funcionamento os novos mestrados em Engenharia e Gestão de Sistemas de Fabrico e Gestão e Tecnologia de Manutenção Aeronáutica. Para a Carbures, esta parceria é particularmente relevante ao nível da transferência de conhecimento, atualização formativa dos seus profissionais, formação personalizada de futuros profissionais e, para potenciar a investigação a nível internacional e possíveis financiamentos, parcerias e sinergias que daí decorrem.

“Uma das características que o ensino universitário tecnológico deverá ter é a sua relação com o tecido industrial, sendo que o modo de efetivação desta interação pode ter diferentes modos de realização”, explica Natália Espírito Santo. A secretária-geral da Universidade Atlântica realça que “os projetos de investigação competitivos, com financiamento público ou privado são certamente um dos modos de interação, mas um dos modos mais interessantes e inovadores passa pela interação entre os estudantes e as empresas através da realização de estágios, dissertações de mestrado e teses de doutoramento com a participação efetiva de empresas industriais de elevado teor tecnológico” (ver caixa). Um modelo que é aplicado na universidade, em parceria com a Carbures.

Além da realização de estágios nas fábricas do Carbures Group em Espanha, e outros que estão previstos, “as temáticas abordadas na licenciatura e mestrado em Engenharia de Materiais, bem como na licenciatura em Ciências da Engenharia Aeronáutica são parte da investigação, produção e comercialização da Carbures Group, criando a sinergia perfeita para o desenvolvimento de uma engenharia para o ensino e para a tecnologia, onde componentes de formação serão lecionadas em laboratórios modernos próprios, em colaboração direta com aplicações industriais desenvolvidas na empresa”, reforça.

Os alunos de Engenharia da universidade que estudem e terminem com aproveitamento os seus ciclos de estudo “terão uma formação orientada para a resolução de desafios tecnológicos em empresas tecnologicamente evoluídas”, argumenta Natália Espírito Santo garantindo que a parceria contempla não só a realização de estágios nas empresas Carbures e Airbus “mas também a posterior integração no universo empresarial do grupo de empresas da Carbures e suas parceiras”. A FIDAMC Airbus, por exemplo, já disponibilizou a sua fábrica de Madrid para o acolhimento de estagiários da universidade, apoio à realização de estudos e trabalhos de investigação no âmbito de licenciaturas, mestrados ou doutoramentos nas áreas da engenharia. A responsável da universidade relembra que áreas como a engenharia de materiais, a aeronáutica e a formação tecnológica em materiais compósitos com uma crescente utilização industrial registam forte procura por parte do mercado e por isso boas taxas de empregabilidade.


“O ensino universitário tecnológico tem de estar ligado ao tecido empresarial”
A entrada da Carbures na Universidade Atlântica gerou alterações no modelo de ensino da instituição. Para Natália Espírito Santo, a instituição tem hoje “um projeto educativo único em Portugal” que beneficia a empregabilidade dos seus alunos.

Em que moldes se dá a entrada da Carbures no capital da Universidade Atlântica?
A entrada da Carbures na EIA, SA, a entidade instituidora da Universidade Atlântica, deve-se a um visionário, o atual reitor da universidade, então presidente da Carbures.

Que vantagens resultaram, desde logo, desta “relação”?
As vantagens competitivas são sem igual no panorama nacional e internacional. A ligação entre a universidade e a multinacional tecnológica é uma mais-valia para os estudantes, professores, para a investigação em Portugal, para a empregabilidade dos licenciados e, sobretudo, para o desenvolvimento de Portugal nesta área. Para a Carbures significa a transferência de conhecimento, atualização formativa dos seus profissionais, formação dos seus futuros profissionais “à medida”, o potenciar da investigação a nível internacional e respetivos possíveis financiamentos, sinergias, parcerias.

Que projeto educativo segue atualmente a Atlântica?
Uma das características que o ensino tecnológico tem de ter é estar ligado ao tecido industrial. Recentemente, têm sido propostos programas de estudo de pós-graduação que incluem na parte curricular internships como componentes obrigatórias dos programas. Este é o sistema comum nos EUA, fomentado por um sistema universitário com um financiamento maioritariamente privado. Tem tido tentativas de adaptação ao sistema europeu em que o financiamento é maioritariamente público. Nas universidades públicas portuguesas que lecionam engenharia esta interação tem sido de difícil e nas universidades privadas a formação em engenharia não tem sido privilegiada.

Mas de que forma o método de ensino conjunto com a Carbures assegura essa ligação à indústria?
Através do universo de empresas da multinacional Carbures Group, que com a respetiva componente tecnológica recente e inovadora permitirá uma profunda interação a indústria.

Qual o envolvimento da Carbures?
A Carbures tem um envolvimento ao nível das oportunidades de emprego, locais de estágio, projetos de investigação e ensino (professores e investigadores). Uma das vantagens competitivas será a possibilidade dada aos nossos alunos de realizar estágios nas fábricas da Carbures Group em Espanha, e será também realizado um contrato de seis meses aos quatro melhores finalistas. No futuro, iremos estender os estágios e trabalhos de mestrado e de doutoramento à fábrica da China e à fábrica dos Estados Unidos (Seattle).



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