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Sindicatos indiferentes

03.09.2004


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Fernanda Pedro e Ruben Eiras

A MAIORIA dos gestores das grandes empresas portuguesas considera a acção dos sindicatos de "indiferente". Esta é uma das conclusões de um estudo recente sobre as práticas de gestão de recursos humanos e relações laborais elaborado pelo Centro de Investigação e Estudos em Sociologia do ISCTE. O inquérito foi dirigido a gestores e cobriu mais de 250 empresas de grande dimensão em todas as áreas de actividade, com excepção da educação, da saúde, da acção social e da função pública.


De acordo com os resultados daquele estudo, na totalidade das empresas inquiridas, cerca de 31,8% dos gestores caracterizam o papel dos sindicatos na empresa como indiferente e cerca de 30,6% classificam de "aceitável". Mas mesmo nas empresas onde o grau de sindicalização é mais elevado, cerca de 24% consideram indiferente a actividade dos sindicatos.

Onde pára a negociação colectiva?


Para João Proença, secretário-geral da UGT, este resultado é um indicador do isolamento a que foi remetida a negociação colectiva. "Este não é um obstáculo aos empresários, mas também não traz valor acrescentado à gestão da empresa e aos interesses dos trabalhadores", comenta.

Isto porque, segundo aquele responsável, o processo de negociação está limitado à fixação de aumentos salariais. "Mas há que realçar que, no estudo, os sindicatos não são vistos como agentes prejudiciais à actividade empresarial - só 9% dos inquiridos os referem como tal. Isto significa que muitas das acções sindicais são positivas para a gestão da empresa", explica João Proença.

Afonso Diz, presidente da União de Sindicatos Independentes (USI), não concorda com a principal conclusão do estudo, que traça a acção dos sindicatos como "indiferente". Para aquele dirigente sindical, o estudo prova que são as empresas dos sectores mais competitivos que apresentam maior índice de sindicalização. Ao contrário, o sector primário, "o menos competitivo da economia nacional", é o que apresenta a menor taxa de sindicalização: "onde estão os sindicatos agrícolas?", indaga.

Segundo Afonso Diz, o argumento da alta competitividade das empresas com maior taxa de sindicalização é também corroborado naquela investigação. É que, quando 50,6% dos gestores avaliam as medidas pertinentes para a melhoria da competitividade das empresas, colocam em segundo lugar, como imprescindível e prioritário, a "maior implicação dos trabalhadores nos resultados da empresa". E isso já acontece na Banca, na PT, na EDP, ou seja, "os sectores mais competitivos de Portugal e os que apresentam maior sindicalização", afirma o dirigente.

Quanto ao recente crescimento da taxa de sindicalização em 1,3% (ver edição 2 de Julho de 2004), Afonso Diz, considera que este aumento tem ocorrido de uma forma sustentada e até tem sido incrementado. "Nos sectores e empresas onde existem sindicatos há progresso económico e social. Esta ideia é um dos pilares fundamentais da Carta Social Europeia, a magna carta de uma Europa competitiva e geradora de bem-estar social para os povos que a constituem", salienta aquele responsável.

Socialismo e capital não são incompatíveis

De acordo com o sindicalista, já é quase um lugar comum dizer que "o maior capital de uma empresa são os trabalhadores". É por isso que considera que a formação ou educação sindical, passa pela consciencialização dos trabalhadores e a sua participação na vida das empresas. Nesta óptica, o presidente da USI defende a desmistificação de duas ideias feitas, "aliás muito marxistas", sublinha. A primeira, é que "o sindicalismo e o capital são incompatíveis ou até inimigos" e a segunda é "confundir as noções de trabalho e emprego".

Para dirimir a indiferença face à negociação colectiva, João Proença defende que se deverá caminhar para um reforço da utilização da negociação colectiva como um instrumento de conciliação de interesses dos trabalhadores e da adaptabilidade exigida pelas empresas.

Como exemplos dá os casos do Grupo Millenium BCP e da AutoEuropa. "Neste último caso, foi possível resolver o problema de custos da empresa sem desemprego. O futuro da negociação é, sem dúvida, a multiplicação deste tipo de acordos de empresa", remata.


PERFIL DE SINDICALIZAÇÃO

- Sector não-sindical (empresas com uma taxa de sindicalização de 5% ou menos): cerca de um terço das empresas contidas na amostra

- Mais de 19% das empresas relatam que não têm qualquer sindicalização

- Sindicalização fraca (entre 6% e 20% de sindicalizados): 19% das empresas

- Sindicalização moderada (entre 21% e 45% de sindicalizados): 19,8% das empresas

- Sindicalização substantiva (taxa de sindicalizados acima dos 46%): pouco mais de 22% das maiores empresas


Fonte:
Práticas de gestão de recursos humanos e relações laborais, CIES, ISCTE, 2004





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