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Precisamos de matéria empreendedora. Espírito já temos!

A poucos dias da abertura da edição 2008 da Feira do Empreendedor que volta a ‘invadir’ o edifício da Alfândega do Porto, já a partir de dia 13, Armindo Monteiro, presidente da Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE), fala ao Expresso sobre o estado do empreendedorismo nacional e os desafios que se impõem. Neste que é o seu último mandato à frente da ANJE, o líder recorda as vitórias alcançadas, as grandes batalhas travadas e o que lamenta não conseguir alcançar antes das próximas eleições. Aos 22 anos de existência, a instituição conhece em 2009 o seu quarto presidente
06.11.2008


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Cátia Mateus
Durante décadas, o empreendedorismo foi associado ao acto de criar empresas. Hoje fala-se de empreender por conta de outrem. Estamos perante uma nova era?
De facto, o conceito de empreendedorismo em Portugal é hoje mais lato e a ANJE deu um significativo contributo para isso, ajudando a promover o empreendedorismo qualificado, a iniciativa individual, a disposição para correr riscos, a visão e a capacidade de liderança são hoje atributos bem-vindos em qualquer actividade profissional, independentemente do cargo hierárquico. Isto remete-nos para o chamado empreendedorismo por conta de outrem, crucial para a elevação dos nossos índices de produtividade, tanto no sector público, como no privado.

O que é então preciso fazer para disseminar esta abordagem mais global do empreendedorismo?
Isto passa, sobretudo, por uma mudança de mentalidades promovida a partir da escola. Como a ANJE há muito defende, o sistema de ensino português, do básico ao superior, deve ser formatado de forma a incutir nos estudantes um espírito empreendedor que é não só para quem arrisca criar uma empresa, como para quem compete no mercado de trabalho.

Foi a pensar nestes novos desafios que a ANJE introduziu na Feira de Empreendedor uma vertente de procura activa de Emprego?
Sim. A inserção no mercado de trabalho é cada vez mais difícil mesmo para jovens qualificados, devido às dificuldades económicas das empresas mas também a um enquadramento legal que inibe a criação de emprego. Por isso, sentimos ser nosso dever preparar os jovens para a crescente competitividade do mercado de trabalho, designadamente com as Sessões de Simulação de Entrevistas de Emprego que introduzimos na 11ª edição da Feira do Empreendedor.

E que outras grandes mudanças surgem nesta edição da Feira?
Além destas simulações, a Feira traduz na sua programação, e de forma transversal ao conjunto de iniciativas, a preocupação da ANJE de adequar os projectos empreendedores à Economia do Conhecimento. Por isso, haverá reflexão, debate e aconselhamento em áreas que consideramos vitais para o desenvolvimento empresarial: qualificação dos recursos humanos, novas formas de financiamento dos negócios, actividades de I&DI, factores de diferenciação de produtos/serviços e internacionalização.

Estas alterações dão seguimento às mudanças que entretanto introduziu na área de Empreendedorismo da ANJE, aquando a sua reestruturação?
Sim. A Área de Empreendedorismo da ANJE foi reestruturada e passou a estar organizada em cinco fases, de acordo com os públicos-alvo e os estádios de desenvolvimento dos negócios. Na fase ‘Play' são desenvolvidas actividades lúdico-pedagógicas complementares aos programas curriculares do básico e secundário, para fomentar o empreendedorismo entre os alunos. Na fase ‘Think' são disponibilizados aos estudantes do ensino superior conhecimentos especializados em empreendedorismo e até propostas de negócio, para promoção da iniciativa qualificada. Já na fase ‘Start' a intenção é detectar e apoiar ideias de negócio inovadoras para estimular a conversão do conhecimento em valor empresarial. Num estádio mais avançado, a fase ‘Expand', onde os jovens empresários usufruem de acompanhamento especializado no desenvolvimento das suas empresas. E por último, a fase ‘World' abarca iniciativas que visam concretizar o potencial de internacionalização dos negócios.

Que objectivos quer a ANJE alcançar com esta nova orgânica?
A ANJE espera, por um lado, sensibilizar e preparar os jovens para a criação de empresas e, por outro, apoiar quem inicia a actividade empresarial ou se encontra num estádio inicial de desenvolvimento do negócio. Numa perspectiva mais ampla e de longo prazo, a estratégia da ANJE irá, certamente, exponenciar o empreendedorismo qualificado em Portugal, aqui entendido como um impulso para a criação de empresas motivado pelo conhecimento e não, como ainda acontece muito, por necessidades de subsistência e/ou dificuldades de entrada no mercado de trabalho.

Acredita que terá alcançado estas metas enquanto presidente da ANJE? Que balanço faz destes anos de mandato?
Ninguém é bom juiz em causa própria. No entanto orgulho-me de ter liderado uma fantástica equipa na prossecução de três objectivos principais: primeiro, a ANJE recuperou a sua notoriedade pública, a sua capacidade de influência política e o seu protagonismo socioeconómico enquanto representante dos jovens empresários portugueses; segundo, a ANJE reequilibrou as contas internas sem abdicar de expandir as suas áreas de intervenção, as suas infra-estruturas e o seu capital associativo; terceiro, a ANJE logrou enquadrar a sua missão matricial nos padrões de desenvolvimento da Sociedade do Conhecimento, estando hoje em condições de promover um empreendedorismo qualificado e de base tecnológica.

O que mudou no empreendedorismo nacional nos últimos anos?
Assistimos hoje à emergência de um empreendedorismo mais qualificado, no qual as ideias de negócio traduzem uma conversão do conhecimento em valor empresarial. No nosso país já não faltam, felizmente, exemplos de empreendedores qualificados e com cultura de risco que se aventuraram na criação de «start-ups», materializando assim o seu conhecimento técnico e científico em projectos empresariais de valor acrescentado, inovadores, tecnologicamente evoluídos e com potencial de internacionalização. Felizmente, hoje em Portugal existe já um forte espírito empreendedor, mas precisamos mais que o espírito. Precisamos de matéria, espírito já temos! Não basta empreender, é preciso empreender em projectos qualificados.

Que mudanças reivindica como vitórias da ANJE?
Nos últimos anos, a ANJE tem concentrado esforços na promoção do empreendedorismo qualificado de três formas: realizando formação específica em empreendedorismo, designadamente em parceria com instituições do ensino superior; disponibilizando infra-estruturas adequadas às áreas de negócio da Economia do Conhecimento (como a incubadora para as TICE Portugal Global); e desenvolvendo uma rede de «networking» entre empresários e investidores, para facilitar o financiamento de negócios que, em alguns casos, necessitam de um capital inicial elevado. Queremos continuar a contribuir para este «upgrade» do Empreendedorismo em Portugal e transformar uma geração que “quer fazer”, numa geração que “quer e sabe como fazer”. Ter atitude empreendedora e propensão para o risco não chegam. Já não chegavam há 500 anos. O que teria sido dos nossos valorosos navegantes, apesar da sua ousadia a rodos, se não soubessem por onde navegar?

Este é o seu último mandato enquanto líder dos Jovens Empresários?
É. Dois mandatos são suficientes para implementar opções estratégicas em qualquer organização e desenvolver um programa de trabalho. Quem não o conseguir fazer nesse período, não merece uma terceira tentativa. Por força do estabelecido nos estatutos da associação, cuja revisão eu promovi, a presidência da ANJE só pode ser exercida por dois mandatos consecutivos. A limitação de mandatos justifica-se, neste como em outros cargos de relevância pública, pela necessidade de impedir a eternização de dirigentes em funções de chefia, com tudo o que isso configura de pernicioso para as instituições e para a comunidade. A ANJE tem 22 anos e conhecerá no próximo ano o seu quarto presidente.

O gostaria ainda de concretizar antes de finalizar o mandato?
Gostaria de concluir a criação de um fundo financeiro especialmente vocacionado para as iniciativas de jovens empresários. O estímulo a um empreendedorismo cada vez mais qualificado deverá ser uma prioridade em Portugal. Por outro lado, gostaria que, antes do fim do meu mandato, o processo de criação de uma incubadora vocacionada para a Indústria da Moda fosse já irreversível. Existe a vontade por parte da ANJE e da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal de instalar uma infra-estrutura que sirva para qualificar o sector, designadamente através de um reforço do seu capital humano. São necessários mais e melhores empresários para a Fileira Moda.

O que é que não gostaria de deixar por cumprir?
Creio que, no essencial, as grandes linhas estratégias foram cumpridas. A ANJE reestruturou, racionalizou e melhorou os seus serviços, dando hoje um apoio mais profícuo aos associados. Reforçámos a liquidez financeira, por via de um aumento das receitas e de uma diminuição dos custos fixos, e colaborámos com decisores públicos no desenvolvimento de incentivos à criação e expansão de empresas, além de termos ampliado a rede de infra-estruturas destinadas à incubação empresarial e qualificação de empreendedores.

O que é que lamenta não poder mudar até ao fim do seu mandato?
O Pagamento Especial por Conta (PEC) é uma velha batalha da ANJE. Trata-se de um mecanismo fiscal que dá azo a flagrantes injustiças, uma vez que são tributados os rendimentos presumidos das empresas e não os rendimentos efectivos. Neste sentido, o PEC tem criado graves problemas de tesouraria às PME, contribuindo para a sua asfixia financeira. Continuamos a reivindicar o fim do PEC ou, pelo menos, a sua não aplicação nos primeiros três anos de vida de uma empresa. Mas tudo indica que, até ao final do meu mandato, esta reivindicação não será acolhida pelo poder político.

Que retrato faz do associativismo em Portugal? O que mudaria?
Creio que, em Portugal, o associativismo continua a ser um exercício válido de cidadania, solidariedade e empreendedorismo. No entanto, as associações devem assumir um modelo de actuação focado não apenas nos seus «shareholders» mas, sobretudo, nos seus «stakeholders». É hoje fundamental que as associações não se fechem sobre si mesmas, defendendo só os interesses dos seus associados ou da máquina organizativa da corporação. Devem actuar tendo em linha de conta todos os que na comunidade são, directa ou indirectamente, influenciados pela sua intervenção pública.

Perante isto, como classifica a decisão do Governo de riscar do QREN apoios ao associativismo?
É uma decisão estranha. Face ao que tem sido a evolução das estruturas associativas rumo a uma maior profissionalização das actividades, rigor contabilístico e abertura à sociedade, o Estado vem agora recusar uma via de financiamento que é perfeitamente justificada e legítima. Mais: este corte foi realizado sob o argumento de que as associações utilizavam as verbas públicas para si próprias e não em prol da coisa pública. Um argumento falacioso não só porque desvaloriza a actividade quotidiana das associações, e sobretudo o seu reflexo sobre terceiros, mas também porque discrimina essas mesmas associações em termos de financiamento público, já que não faltam organismos do estado que consomem internamente a totalidade dos recursos que são postos à sua disposição. Não conheço nenhuma situação em que os serviços do Estado, prestem às empresas melhores serviços que as associações empresariais nem a um preço mais económico.

A inovação está na ordem do dia. Como avalia as empresas portuguesas na batalha pela inovação e competitividade?
A taxa de crescimento das despesas com I&DI das empresas portuguesas é de cerca de 20% ao ano e, pela primeira vez em 2007, o investimento em investigação realizado pelos privados ultrapassou o realizado pelas universidades e outros organismos públicos. Além disso, o nosso país é já exportador líquido de tecnologia. O que significa que Portugal está a abandonar um modelo económico assente em mão-de-obra intensiva e produtos/serviços de baixo perfil tecnológico, para assumir um modelo económico baseado no trinómio ciência, tecnologia e inovação.

Estamos no bom caminho…
Esta alteração do modelo económico está a reflectir-se nos níveis de competitividade do tecido empresarial, sendo de esperar, a curto/médio prazo, empresas mais capazes de operar na Economia do Conhecimento. Já a internacionalização é um processo mais complexo e, por isso, mais demorado. Para estenderem as suas actividades ao exterior, as empresas portuguesas necessitam de ganhar escala, reforçar a massa crítica na área da I&DI e encontrarem capital para investir no estrangeiro. Pelas razões que todos conhecemos (dificuldades de acesso ao crédito, problemas de liquidez, défice de capital humano, pouca apetência pela inovação, falta de estratégias de gestão, etc.), estas condições continuam a não ser fáceis de reunir pela maioria das empresas portuguesas.

Tradição Empreendedora

É já uma tradição. Todos os anos, mentes empreendedoras e jovens aspirantes a empresários rumam à cidade Invicta para ver de perto as tendências e regras da criação de empresas. A 11ª edição da Feira do Empreendedor arranca já a 13 de Novembro, no edifício da Alfândega do Porto sob o lema «Vontade de vencer». E para ajudar a cumprir este desígnio de sucesso, a ANJE realizou algumas mudanças no certame anual.

A feira continua a organizar-se numa lógica de cidade, com ruas temáticas onde é possível encontrar tudo o que interessa a uma empresa. Mas a grande novidade do ano é mesmo a inclusão do factor ‘procura de emprego' nesta Feira do Empreendedor. Consciente de que muitos empreendedores antecedem a experiência empresarial com um emprego por conta de outrem, a ANJE decidiu ensinar os jovens a conquistar empregos de sonho criando no certame sessões de simulação de entrevistas de emprego, dirigidas sobretudo para quem procura uma primeira oportunidade no mundo laboral. Informação essa que pode ser também complementada em algumas das 21 conferências temáticas que habitualmente integram a feira.

O evento é ainda marcado por outra novidade: a apresentação de um protótipo da Loja do Empreendedor. Um projecto recentemente desenvolvido pela ANJE, que consiste num espaço de apoio integrado ao empreendedorismo, suportado por um conjunto de instrumentos de consultoria. Trata-se de um balcão especializado no apoio à criação e desenvolvimento de empresas, emprego, formação e ainda à promoção do empreendedorismo por parte de instituições, como universidades ou ONG, que queiram desenvolver projectos de estímulo à iniciativa empresarial.

A meta deste projecto é democratizar o acesso ao apoio especializado em empreendedorismo e, em parceria com os poderes locais, abrir Lojas do Empreendedor um pouco por todo o país. A ANJE estima que a edição 2008 da Feira do Empreendedor supere os 20 mil visitantes.





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