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Jovens atraídos pelo mar

24.10.2003


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Fernanda Pedro

A VIDA de um pescador é difícil, dizem os homens que diariamente saem para o mar. As condições de trabalho nem sempre são as ideais e com a crise que se instalou no sector, devido à redução das quotas pesqueiras e do depauperar dos recursos marinhos, a recompensa financeira é parca.


No entanto, começam a surgir sinais de modernização e profissionalização da actividade pesqueira, embora ainda tímidos.

Com efeito, uma parte da nova geração portuguesa acredita que a "maré negra" que paira sobre esta actividade milenar irá desaparecer dentro em breve.

É com essa esperança que cerca de 14 jovens se encontram neste momento no centro de formação da Forpescas em Sesimbra a tirar o curso de pescadores. Revelam espírito empreendedor e vontade de vencer.

A maioria deles tem no sangue o sabor do mar, ou não fossem eles filhos de pescadores. E se há uns anos os pais não queriam que eles seguissem a profissão, a escassez de emprego fez muitos deles regressarem às suas origens e tentar a sorte no meio que os viu nascer.

Sérgio Ribeiro é um exemplo disso. Aos 24 anos, vai trabalhar ao lado do pai, dono de um barco de pesca em Sesimbra.

Quando terminou o 9º ano iniciou uma profissão de estucador, mas com a crise económica instalada no país, o trabalho faltou e, sem pensar duas vezes, decidiu juntar-se ao pai e ao irmão na faina pesqueira.

"Apesar de ser uma profissão instável, sobretudo em termos financeiros, acho que devia apostar na continuidade do negócio da família. Sempre é preferível lutar por uma coisa que é nossa do que estar a trabalhar para outros", observa.

"Arriscar por algo que é meu"

Também Nelson Mata, com 22 anos de idade, vai apostar na profissão do pai. Apesar de ter um emprego fixo como manobrador de máquinas industriais, quando terminar o curso de formação que lhe dá a Cédula de Classe C de pescador, vai definitivamente para o mar.

"O meu pai tem um barco e eu quero continuar esta actividade", explica o jovem. E nem mesmo o risco de enfrentar uma profissão precária o demove da posição que tomou: "todo o mercado de trabalho está em crise e nenhum emprego é garantido - por isso mais vale arriscar por algo que também é meu".

Uma aposta na formação

Mesmo com perspectivas económicas pouco animadoras, Nelson acredita que no futuro a situação irá melhorar. Também a sua companheira, Liliana Cunha, de 20 anos de idade, está disposta a ajudar nesta mudança de vida. Por isso inscreveu-se no curso de pescadores.

Embora possua um emprego fixo como empregada de balcão, "quero ter a formação necessária para ir para o mar, se for preciso".

Já Daniel Valente, de 29 anos, é um dos poucos casos em que não tinha nenhuma ligação a esta actividade. A entrada no mundo piscatório surgiu através do cunhado, dono de um barco.

Pedreiro de profissão, a crise na construção civil lançou-o para o desemprego e a pesca foi a solução para os seus problemas. A adaptação foi fácil e hoje gosta do que faz.

Apesar de já ter surgido algumas ofertas para regressar à construção, recusou. "O meu cunhado apostou em mim e agora vou retribuir dando o meu melhor", afirma com convicção.

O elã do desafio

O mais jovem candidato a pescador tem apenas 17 anos e chama-se Luís Teodoro. Após o 9º ano de escolaridade não quis seguir os estudos, porque o seu desejo desde sempre foi ser pescador como o pai, também ele detentor de um barco em Sesimbra.

Ainda pensou tirar um curso de informática, mas o chamamento do mar foi mais forte. "Para mim não importa o dinheiro que possa vir a ganhar, o mais importante é o desafio que esta profissão representa", afirma o jovem.

Melhor distribuição, precisa-se!

Mas Luís não põe de parte a hipótese de estudar e talvez mais tarde de tirar um curso de gestão e contabilidade, "porque é fundamental ter esses conhecimentos para gerir o negócio da família".

Para esta nova geração de pescadores, a notícia de o Governo ter conseguido prolongar o tempo para manter os limites territoriais da nossa pesca não é relevante, porque o receio não reside no facto dos estrangeiros pescarem nas nossas águas, mas sim de não venderem o peixe que chega diariamente às lotas.

"E isso já acontece actualmente e é por isso que estamos em dificuldades. Se os espanhóis comprarem o nosso peixe, que venham eles que não nos importamos", remata Sérgio Ribeiro.

Apostar no valor acrescentado

EM 1996, o sector das pescas empregava em Portugal qualquer coisa como 28.458 trabalhadores, segundo o estudo "Pescas e Aquicultura em Portugal" publicado pelo Inofor, em 1999.

Uma quebra de 26,5% face a 1990 e que se acentua ainda mais em 2003 com um sector que emprega apenas 22.025 trabalhadores (segundo dados do Instituto Nacional de Estatística), traduzindo uma crescente destruição de postos de trabalho no sector.

O mesmo estudo revela um segmento da economia que carece urgentemente de uma modernização, não só no plano tecnológico mas também ao nível da formação dos seus trabalhadores. Um sinal de mudança neste plano é o acréscimo de empregos qualificados.

De acordo com o Inofor, a análise da estrutura de mão-de-obra para o sector mostra que em 1985, os quadros superiores e médios representavam apenas 2,8% do total do emprego nas pescas. Todavia, em 1997, esta percentagem rondava já os 7,5%, indicando uma tendência de profissionalização da actividade.

Tiago Pita e Cunha, presidente da recém-criada Comissão Estratégica para os Oceanos, considera o sector pesqueiro como crucial para o aumento da competitividade do país. Um objectivo que pode ser conseguido através de uma aposta na criação de valor acrescentado nos produtos pesqueiros.

"Os americanos pescam muito menos do que há uns anos, mas conseguem obter muito mais valor, porque criaram uma certificação de qualidade ambiental do pescado. Com o bom peixe que temos na nossa costa, porque é que não criamos uma imagem de marca do peixe 'português'? Isto aumentaria as nossas vendas e com preços mais elevados nos mercados mais exigentes", avança aquele responsável.

Uma estratégia que se revela fundamental para a sobrevivência do sector, já que, segundo Tiago Pita e Cunha, 80% da pesca portuguesa é realizada na Zona Económica Exclusiva.

Cátia Mateus
e Ruben Eiras


Formação focada na reciclagem e actualização

PARA colmatar as necessidades formativas nesta área, existe o Centro de Formação Profissional para o Sector das Pescas (Forpescas).

Esta instituição foi criada em 1986, através de um protocolo entre os Instituto de Emprego e Formação Profissional e a Escola de Pesca e da Marinha de Comércio e tem como objectivo a qualificação dos recursos humanos do sector das pescas, tendo por base o ajustamento das necessidade e tendências de evolução tecnológica e de organização do trabalho.

Marinhagem e mestrança da pesca, máquinas marítimas, aquacultura, construção e reparação naval, transformação e comercialização do pescado e frio e climatização são as áreas em que o Forpescas ministra formação.

Cada uma destas integra um vasto leque de cursos com diferentes tipologias e destinatários, que vão desde cursos de aprendizagem e qualificação inicial, até cursos de especialização e reciclagem. Só entre 1986 e 2001 este centro formou 22.249 pessoas, das quais cerca de 10% eram jovens. Este procuram maioritariamente as áreas da aquacultura e gestão.

Elisa Monteiro, directora do Forpescas explica que "este centro tem uma estrutura descentralizada de forma a ir ao encontro das populações e comunidades piscatórias, através de unidades operacionais, localizadas perto dos portos mais significativos da Costa Continental Portuguesa".

Além disso, "tem dedicado alguma atenção ao problema do baixo nível de literacia dos públicos com que trabalha, realizando acções que garantem uma dupla qualificação escolar e profissional".

Os cursos aqui leccionados destinam-se a jovens, adultos empregados ou desempregados e a activos da fileira das pescas. "A meta do Forpescas é promover a fixação de jovens que frequentem acções de formação para categorias profissionais no próprio sector", refere Elisa Monteiro. Para a responsável urge "dignificar as diferentes profissões do sector, valorizando a qualificação dos activos e da sua renovação".

Maribela Freitas

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