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Formação fora de jogo

23.01.2004


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Fernanda Pedro / Maribela Freitas / Ruben Eiras

A SEIS meses do pontapé-de-saída para o Euro-2004, considerado o "campeonato turístico" do ano para promover a imagem do país a nível internacional, as entidades públicas e privadas não apostaram no aumento das competências turísticas da população activa portuguesa.


Isto apesar do número de turistas esperados ser elevado e dos serviços comerciais, da hotelaria, da restauração e dos transportes serem a "montra" do país.

Com efeito, as acções de formação com vista à preparação para o Euro-2004 - como a promovida pela Câmara Municipal do Porto dirigida a cerca 70 taxistas - vêm tarde e a abrangência é muito limitada. Portugal mais uma vez esqueceu a qualificação do seu tecido humano.

Atílio Forte, presidente da Confederação do Turismo Português (CTP), refere que a formação profissional é "a questão mais adiada do sector". Mas já existem alguns sinais de mudança, pelo menos no discurso dos dirigentes associativos. No entanto, as iniciativas de formação que existem pautam-se pela escassez e irregularidade.

Por exemplo, Sousa Martins, presidente executivo da Associação dos Industriais de Hotelaria, Restaurantes e Similares do Centro (AIHRSC), reconhece que muitos portugueses estão descontentes quanto à forma como são servidos em Portugal pelos profissionais da hotelaria e restauração.

No entanto, aquele responsável refere que essa imagem tenderá a desaparecer porque já "existe uma preocupação do sector em aumentar a qualidade do desempenho dos profissionais da restauração". Neste plano, Sousa Martins sublinha que a dignificação das profissões do turismo e da restauração passa por uma forte aposta na formação.

No que respeita ao comércio, a União das Associações de Comércio e Serviços tem um plano anual permanente de formação para empregados e empresários do comércio. "Os conhecimentos básicos em inglês e o atendimento e venda na loja são duas das áreas formativas que privilegiamos", explica Soares Neto, da direcção desta organização.

Por norma estes cursos são ministrados somente duas vezes por ano, mas com a proximidade do Euro-2004 e com a afluência prevista de turistas, esta unidade associativa vai intensificar a oferta destes blocos formativos. Mas não há números definidos.

Quanto aos taxistas, de acordo com Carlos Ramos, presidente da Federação Portuguesa do Táxi (FPT), "a formação dada para a obtenção ou revalidação da carteira profissional de taxista engloba módulos de língua inglesa e de relações interpessoais - esta última ocupa grande parte do espaço formativo -, o que tem vindo a melhorar o serviço prestado pelos taxistas, bem como a sua imagem".

Mesmo assim, parece que ainda há muito a fazer nesta área. "A forma como se aborda o cliente é fundamental para cativar mais utentes e a renovação da classe é imprescindível para a mudança de mentalidades neste sector", salienta.

A Associação de Técnicos de Turismo (ATT) tem apostado nas acções de formação na área do atendimento. "A qualidade no acolhimento é fundamental e isso implica que os profissionais tenham uma aprendizagem na linguística técnica, na expressão corporal ou na posição de voz", explica Paulo Carrança, presidente daquela organização. A próxima frente de formação desta associação é a das novas tecnologias.

Não obstante estas iniciativas, o facto é que impera a descoordenação e a falta de uma estratégia formativa para um sector que emprega 10% da população activa portuguesa. Uma das razões deste estado de anarquia letárgica é que, segundo Atílio Forte, "nunca foi feito um trabalho aprofundado sobre as necessidades de qualificações para tornar esta actividade competitiva, nem para os jovens, nem para actualizar as competências dos activos".

Para colmatar esta lacuna, aquele dirigente revela que dentro de três meses serão divulgados os primeiros resultados de um estudo prospectivo e estratégico sobre as necessidades do turismo em Portugal, que envolve vários organismos estatais ligados à formação, ao turismo, a própria CTP e as duas centrais sindicais, a UGT e a CGTP.

E para que o estudo não fique na gaveta, Filipe Ferrão, docente especializado em gestão do turismo no Instituto de Novas Profissões, defende que é crucial que as entidades públicas e privadas ligadas ao sector turístico avancem com acções de marketing social sobre a importância económica desta actividade para o desenvolvimento do país.

"É que, se as pessoas não estiverem cientes de que o turismo profissionalizado é essencial para o seu sucesso económico, as acções formativas perdem toda a sua eficácia", remata aquele especialista.

Ensino mais prático

PARA a formação dos empresários turísticos, Filipe Ferrão considera que as escolas superiores, de hotelaria e os politécnicos devem concentrar esforços na oferta de formação avançada - uma modalidade que fornece um nível de conhecimentos de gestão elevado, sem que seja necessário possuir um grau de educação superior para a sua frequência.

"Só que estes cursos têm que ter conteúdos muito mais pragmáticos e fornecer ferramentas de gestão que os formandos possam utilizar no seu quotidiano. Têm que ser concebidos para que empresários com pouca literacia consigam apreender facilmente este tipo de conhecimentos", sugere.

Atílio Forte também defende uma revisão dos currículos académicos e do ensino secundário, no sentido da inclusão de competências transversais e de vias profissionalizantes que facilitem a entrada dos jovens no mercado de trabalho turístico, reforçando, por exemplo, o ensino das línguas com um módulo sobre a actividade turística.





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