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Do banco para 'A Charcutaria'

14.08.2003


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Fernanda Pedro

Depois de dez anos como empregado bancário, Manuel Martins virou as costas ao dinheiro e apostou na restauração


AO DESCER a rua do Alecrim em direcção ao Cais do Sodré, em Lisboa, no número 47-A deparamo-nos com o restaurante "A Charcutaria".

No interior, a cor amarela sobressai numa decoração cuidada e de bom gosto. O ambiente é acolhedor e convida-nos a permanecer. Pedida a ementa, verificamos que os pratos são exclusivamente de cozinha portuguesa.

A refeição surpreende e o requinte da apresentação não desilude. No final, há que felicitar o excelente cozinheiro que proporciona um verdadeiro "manjar dos deuses".

Manuel Martins é o homem da cozinha e o proprietário do restaurante. Até aqui, nada nos surpreende, até ao momento em que tomamos conhecimento que Manuel Martins trocou uma profissão de economista para se tornar cozinheiro.

Na verdade, depois de uma carreira de 10 anos na Caixa Geral de Depósitos (CGD) decidiu a determinado momento mudar de profissão.

Num dia de Novembro de 1989, chegou ao emprego e disse aos colegas e aos seus superiores: "A partir de amanhã já não venho trabalhar aqui". E se alguém pensou que ele estivesse a brincar, enganou-se.

Na realidade, Manuel Martins nunca mais voltou ao trabalho. A CGD instaurou-lhe um processo por abandono do local de trabalho mas isso não o demoveu. A sua vida tinha tomado outro rumo, pois resolvera pegar na charcutaria do seu pai e tornar-se cozinheiro.

Não é todos os dias que encontramos pessoas que optam por mudar o curso da sua carreira profissional tão abruptamente, com a agravante de não se saber o que o futuro reserva, mas Manuel Martins, de 56 anos, nunca se arrependeu, e só agora se sente realizado em termos profissionais.

Alia a economia com a cozinha, "porque gerir um negócio e ter sucesso requer conhecimentos de gestão. Até quando estou a confeccionar um prato eu consigo logo quantificá-lo em termos económicos, por isso, a economia está sempre presente na minha profissão", explica.

E se hoje a profissão e o negócio estão de "vento em popa" mesmo em tempo de crise, este economista cozinheiro garante que já passou momentos muito difíceis em termos financeiros.

Começou o negócio sem qualquer capital mas conseguiu dar a volta e tornar o seu restaurante num sucesso. A chave para o segredo está no gosto e na paixão pela gastronomia portuguesa. "Só utilizo os melhores produtos, nem que para isso tenha de percorrer quilómetros para os conseguir. Depois gosto de os confeccionar e dar-lhe uma apresentação digna do seu estatuto", revela.

O gosto pela gastronomia foi, na sua opinião, um legado familiar. O pai era proprietário de uma mercearia em Campo de Ourique, que mais tarde foi baptizada pela população local de "A Charcutaria".

"Ali vendiam-se os melhores produtos regionais. Aprendi desde pequeno a saborear o bom presunto, o queijo, o fiambre e mais tarde até o vinho. O meu pai transmitiu-me esse gosto pela apreciação da boa comida", lembra Manuel.

O pai morre em 1970 mas a charcutaria continua. Chegam, entretanto, os anos 80 e a entrada em cena das grandes superfícies comerciais. Os supermercados e os hipermercados arrasam as pequenas mercearias. A charcutaria de Campo de Ourique não é excepção e entra em declínio.

Manuel Martins encontra-se nessa altura perante um dilema: "Vender a mercearia ou pegar nela. Era doloroso para mim pensar em desfazer-me daquilo que o meu pai construíra. Um dia acordei e decidi: vou ficar com o negócio".

Nem a licenciatura em Economia e o 4º ano de Sociologia tirados na Universidade de Évora nem uma carreira na CGD o impediram de seguir o que o seu coração mandava.

Pegou na loja e começou por ir escoando os produtos que tinha até que se aventurou na confecção de pratos. Improvisou umas mesas para servir refeições e em pouco tempo alcançou aquilo que todos os restaurantes ambicionam, ter a casa sempre cheia.

"A gastronomia não tem segredos para mim e, como também percebo de agricultura, sei distinguir os bons dos maus produtos e é isso que faz a grande diferença na confecção dos pratos", explica Manuel Martins.

Há quatro anos, e com sucesso garantido, abriu outro restaurante na rua do Alecrim.

Para este cozinheiro, o facto de estar na cozinha dá-lhe um prazer que nunca obteve ao exercer a sua profissão de economista. "Quando estou a cozinhar encontro o meu lado bom e estou sempre a testar-me. É uma maneira criativa de estar na vida", garante o cozinheiro.

Considera este momento da sua vida como um dos mais gratificantes do seu percurso profissional, "porque estou numa fase de estabilização do meu negócio", mas pontos altos, Manuel Martins consegue-os todos os dias quando "vejo os meus clientes elogiarem a minha comida".

Quanto a períodos negativos, este cozinheiro não encontra nenhuns, apenas momentos difíceis a nível financeiro, "sou catedrático em letras para pagar, mas nunca fiquei a dever nada a ninguém e tenho crédito em todo o lado".

Quanto ao panorama da profissão de cozinheiro, Manuel Martins reconhece que é uma profissão, de uma maneira geral, muito bem paga. Contudo, lamenta que nas escolas hoteleiras não se ensine convenientemente a nossa cozinha.

"As escolas não conseguem formar bons profissionais, há um grande desconhecimentos dos nossos produtos e são pouco valorizados. Temos de formar bons cozinheiros porque a gastronomia portuguesa vende", remata.





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