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Desafiar o relógio

São várias as profissões que exigem o trabalho por turnos. Uma realidade aparentemente inofensiva, mas a médio prazo pode deixar marcas visiveis em quem ganha a vida desafiando os ponteiros do relógio
23.03.2007


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Cátia Mateus e Marisa Antunes
Trabalham quando a grande maioria das pessoas dorme um sono profundo. Noite dentro, solitariamente, os profissionais dos turnos nocturnos têm de fazer um esforço suplementar para manter a atenção e a concentração. A médio e longo prazo, muitos deles acabam por sucumbir ao stresse, à irritabilidade, à depressão, às doenças cardíacas ou do foro digestivo provocadas por muitas refeições frias, irregulares e à ingestão de doses-extra de cafeína.


“O trabalho por turnos afecta a organização temporal do organismo ao desacertar o relógio biológico, altera os mecanismos reguladores de diversas funções, o que acarreta como primeiro sintoma a fadiga crónica e a quebra de rendimento — falhas de atenção, aumento do tempo de reacção dos reflexos e episódios de sonolência diurna”, explica o psicólogo Carlos Fernandes da Silva, docente do Departamento de Ciências da Educação da Universidade de Aveiro.

Numa situação extremada, o trabalho nocturno durante um longo período de tempo pode acabar por provocar um sem-número de patologias. Carlos Fernandes Silva pormenoriza: “Doenças gastro-intestinais (úlceras), doenças do foro cardiovascular (incluindo a angina pectoris e o enfarte agudo do miocárdio), doenças do foro psiquiátrico (depressão), perturbações do sono moderadas a graves e perturbações imunitárias”. Assim, nem todos conseguem aguentar.

José Domingos Carvalhais, docente da Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade Técnica de Lisboa, lembra que “entre 20 a 25% das pessoas abandonam este ritmo de trabalho pois não resistem ao cansaço”. “Exige-se que não durma durante a noite e se mantenha uma forte activação a horas pouco propícias, o que aumenta os custos do trabalho. Por outro lado, impõe-se que se durma num período em que o organismo não está preparado para o fazer, limitando ainda a participação do trabalhador na vida familiar e social”, salienta o catedrático.

João Gouveia sabe bem o impacto que este tipo de trabalho pode ter na vida quotidiana. Tem 29 anos, é informático e além deste ritmo laboral, estuda também à noite. Na empresa onde trabalha, os turnos rodam a cada 15 dias. João faz o turno da noite a cada cinco semanas. “Esse é o período mais difícil quer em termos de desgaste quer na dificuldade em conciliar com a faculdade”, explica João que não raras vezes sai directo de uma noite de trabalho para assistir de manhã às aulas que perdeu na noite anterior. João Gouveia dorme cerca de seis horas diárias. Sabe que muitas vezes isto não é suficiente.

Sem receios, diz não ter dúvidas de que este desgaste gerado pelos turnos rotativos já o deve ter feito cometer erros humanos no seu trabalho. “O mais complicado nisto é a adaptação a cada mudança de turno. O corpo ressente-se e há ali uns dois dias que é complicado”, esclarece. Nos sete anos que já tem de empresa neste sistema de trabalho, João identifica perfeitamente as alterações que o ritmo dos turnos tem provocado no seu organismo e na sua vida. Stresse, perturbações do sono, irritabilidade e variações de humor repentinas são expressões que lhe são familiares. Razão pela qual continua a tentar um emprego que lhe permita viver no mesmo horário que a maioria das pessoas.

Mas há quem goste da noite. Luís Madeira, tem 44 anos e trabalha na manutenção da TAP. Também faz turnos nocturnos a cada cinco semanas. Para Luís, os 16 anos que tem de serviço já lhe permitiram habituar-se a este ritmo e até assegura que “o pior turno é o da manhã. Não me importo de trabalhar à noite. É um horário igual aos outros”. Luís diz não sentir a maioria dos sintomas denunciados pelos médicos, embora confesse que “a mudança de turnos é sempre um período de descontrolo de horários e difícil habituação”.

O que se pode então fazer para contornar as repercussões negativas que advêm deste ritmo de trabalho? O psicólogo Carlos Fernandes da Silva lembra que deve existir um especial cuidado durante o processo de recrutamento e selecção para aquele posto de trabalho. “Os indivíduos devem possuir baixo neuroticismo (medido por uma escala apropriada — Eysenc Personality Inventory), extroversão (medida pela mesma escala), bom suporte familiar, não sofrerem de doenças psiquiátricas e, ao que nos sugerem até agora os dados da investigação científica, serem madrugadores. Este traço de personalidade mede-se com escalas apropriadas, como por exemplo, o Horne & Ostberg Matutinity Scale ou outras”.

O professor da FMH, Domingos Carvalhais, corrobora e sugere ainda a “gestão racional do horário com a introdução de pausas e a organização do tempo de repouso”. Os próprios trabalhadores podem ter uma postura activa no seguimento de regras básicas que podem contribuir para melhorar a sua resistência contra a fadiga. “É preciso apostar na formação e educação destes profissionais. Algo tão simples para quem trabalha durante a noite e dorme de dia é tentar eliminar os ruídos normais que podem acordá-lo. É pois fundamental ter um quarto bem isolado, mais escuro pois a luz interfere no sono reparador”, exemplifica. A alimentação também pode dar uma ajuda, como realça ainda o professor, devendo esta ser rica em proteínas que “favorecem a vigilância” e pobres em hidratos de carbono “que favorecem a sonolência”.

Quando o sono mata

A importância na organização cuidada do trabalho por turnos, especialmente quando este é nocturno, é primordial quando os trabalhadores que desempenham determinadas tarefas acarretam sobre si responsabilidades tão vitais como a vida humana. Médicos, enfermeiros, condutores de transportes públicos, polícias ou controladores de tráfego aéreo são apenas alguns exemplos deste tipo de profissões.

Um estudo publicado recentemente na revista ‘Teste Saúde' nº.63, da DECO dá conta, por exemplo, de uma estimativa entre 1300 e 2900 pessoas, a morrer por ano em Portugal, vítimas de erro ou negligência médica. “A pressão, a fadiga, a dificuldade de comunicação no serviço de saúde e as limitações dos recursos facilitam o erro. Daí a necessidade de antecipar e prevenir este tipo de cenários”, sublinha-se ainda na ‘Teste Saúde'.

Os condutores fazem parte de outro grupo de risco. Como refere José Domingos Carvalhais, professor na Faculdade de Motricidade Humana, “a condução de noite, mais do que a diurna, representa um esforço violento que determinará uma fadiga acentuada”. Vários estudos comprovam que uma das principais causas de acidente rodoviário tem a ver com o adormecimento ao volante.





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