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A crise económica está a minar as oportunidades de carreira para muitos jovens profissionais que estão, por isso, a reformular os seus sonhos e a procurá-los além-fronteiras
28.01.2009


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Marisa Antunes
Portugal continua a ser um país de emigrantes. Somos mais de 5,5 milhões espalhados pelos quatro cantos do mundo, um fenómeno que está longe de se resumir às décadas de 60 e 70. E na Europa, por exemplo, os portugueses são aqueles que mais saem para conseguir trabalho em outros Estados-membros (cerca de 9% da população activa).

Um fluxo que continua permanente e relevante pois entram em Portugal, por dia e em média, cerca de 6,5 milhões de euros de remessas de emigrantes. O fluxo tem, porém uma nova variante: o número de jovens profissionais qualificados que não encontram saídas em Portugal à altura do seu canudo tem vindo a crescer proporcionalmente ao agravamento da crise.

A investigadora Helena Rato pegou em números da Organização da Cooperação para o Desenvolvimento Económico (OCDE) para concluir que por cada 15 novos imigrantes que chegam a Portugal, há 100 portugueses que deixam o país para encontrar uma vida melhor. “Estes são os dados oficiais da OCDE sobre os fluxos migratórios, mas não reflectem a realidade de ambos os lados. Portugal continua a ter muitos imigrantes ilegais mas também são muitos os portugueses que saem para o espaço comunitário sem que se registem à chegada”, realça a investigadora do Instituto Nacional de Administração.

Helena Rato sublinha ainda o novo perfil dos imigrantes: “Ainda que a maioria continue a pertencer ao grupo de trabalhadores de baixa instrução e pouco qualificados, que vai principalmente para a construção civil, restauração ou agricultura, existe também um número crescente de profissionais qualificados, alguns altamente qualificados que acabam por partir”.

Foi o que aconteceu a Raquel Lages, 27 anos, licenciada em Relações Internacionais pela Universidade de Coimbra, com um Erasmus realizado na prestigiada ULB em Bruxelas e um currículo irrepreensível. Passou pela UNRIC-United Nations Regional Information Centre (esteve envolvida, por exemplo, na organização da viagem do então secretário-geral da ONU, Kofi Annan a Portugal), voltou a Portugal para se candidatar a uma bolsa (concorreu ao Inov Jovem, Inov Contacto e Leonardo da Vinci e entrou em todas, mas escolheu o Inov Contacto), foi para Macau para a representação da AICEP onde fazia a intermediação entre os empresários portugueses e a China).

“Depois resolvi voltar. Queria muito fixar-me em Portugal mas estive quase um ano à procura. Neste momento, a maioria das propostas que surgem para pessoas jovens mas altamente qualificadas vão pouco além do ordenado mínimo”, sublinha a jovem.

Por isso, meteu mãos à obra e começou a fazer pesquisa de anúncios em Madrid e Paris, enviando ainda candidaturas espontâneas para empresas e instituições nas quais gostaria de trabalhar. “Acabei por ser recrutada para a ARAPL, uma associação de ajuda aos profissionais liberais a vários nível (orientação fiscal, assessoria jurídica, formação) e que está espalhada por toda a França. Para já, preenche o meu objectivo principal: enriquecer o meu currículo e aprender coisas novas”, justifica ainda.

Para Raquel Lages, uma das regras de ouro quando se parte numa aventura profissional além-fronteiras é precisamente essa predisposição para absorver conhecimento. “E quando se vai para países que não são ocidentais, aconselho a toda a gente a esvaziar da cabeça todo o tipo de preconceitos que têm. É importante não julgar e ir aberto a novas experiências. Assim, aprende-se mais”, resume.

Uma opinião corroborada a 100% por José Albuquerque Pinto, um engenheiro civil de 28 anos, com licenciatura do Instituto Superior Técnico (IST) e que também passou por Macau e que está agora no Dubai.

Logo após terminar o curso, José Pinto trabalhou três anos em Portugal e, apesar de admitir que essa experiência lhe conferiu “bases sólidas” que o ajudaram mais tarde, confessa que isso não lhe bastava: “Sinto que neste momento, em Portugal, é difícil para um jovem profissional abraçar grandes desafios, grandes metas, devido ao marasmo em que se encontra o país e isso torna-se frustrante para quem está a começar com tanta energia”.

Ponderados os prós e os contras, José Pinto partiu para Macau, não sem antes sondar o mercado, tendo tirado 15 dias de férias para sentir o ambiente antes da sua ida definitiva. Depois de trabalhar numa empresa ligada a infra-estruturas e edifícios em Macau, também o engenheiro quis regressar a Portugal mas ficou por pouco tempo. Não vislumbrando oportunidades profissionais que o preenchessem, recorreu à networking e foi, de facto, através da sua rede de contactos, que conseguiu o lugar de project manager na empresa francesa Sogreah, no Dubai.

A seu cargo tem a equipa técnica de engenharia da empresa, que neste momento, entre a sua carteira de obras, tem a marina do Emirates Palace, em Abu Dhabi, que permitirá acostar os iates de maior dimensão do Dubai.

“As experiências que tenho tido têm-me permitido constatar que o que se faz em Portugal é bem feito, a formação académica é muito boa e não há nada para nos envergonharmos. Interiorizou-se a ideia de que somos um país pobre, mas tal como individualmente temos de acreditar em nós para conseguirmos atingir algo, penso que isto deveria valer em termos de país, de sentimento geral”, aponta José Albuquerque Pinto.

Ter a mente aberta, preparar cuidadosamente a viagem, recorrer à rede de contactos não só para encontrar emprego mas também para recolher informações do local para onde se vai, são regras básicas de sobrevivência para quem quer vencer além-fronteiras, aconselha ainda o jovem engenheiro.

Preparar a viagem

Se está a pensar em dar o ‘salto’ para outro país, prepare cuidadosamente a sua viagem para não ter surpresas desagradáveis. Na edição mais recente da revista «Dinheiro & Direitos” (Jan.Fev.2009), a Deco (Associação Portuguesa para a Defesa dos Consumidores) lembra que antes de se aceitar uma proposta de trabalho no estrangeiro é fundamental:

. Certifique-se de que a proposta é honesta e não há queixas da empresa. Se vai para um país do Espaço Económico Europeu (todos os da União Europeia, Liechtenstein, Islândia e Noruega) ou para a Suíça, informe-se junto da Eures (rede criada pela Comissão Europeia para os serviços públicos de emprego, onde pode receber apoio e ver ofertas de trabalho).
. Tendo como destino outros países, contacte as respectivas câmaras de comércio, embaixadas e consulados em Portugal.
. Analise o custo de vida, das viagens regulares a Portugal (se estas não forem pagas pela empresa que o contratou), descontos para a segurança social e fisco.
. Antes de partir, prepare os documentos de identificação (bilhete de identidade ou passaporte) e cópia do contrato ou outro com as condições oferecidas. O portal Eures diz-lhe se o país exige autorização de residência ou outro tipo de registo. Se for para fora da Europa, a embaixada ou consulado desse país em Portugal informam quais as formalidades a cumprir.
. Algumas semanas antes de partir, peça no serviço de segurança social onde está inscrito, os documentos que garantem a assistência médica no estrangeiro. Para um país do Espaço Económico Europeu ou Suíça, vai precisar do cartão europeu de seguro da doença, válido por três anos.
. Os trabalhadores destacados precisam também do formulário E101, que prova estarem inscritos na segurança social. Ambos os documentos são gratuitos.
. Fora deste espaço, para países como o Brasil ou EUA, pesquise se há acordo ou convenção bilateral com Portugal, para beneficiar dos serviços de saúde.
. Desconfie de anúncios com grandes promessas. As agências privadas de colocação autorizadas pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) apresentam, em princípio, mais garantias: a actividade é definida e tem duração limitada.





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