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Calor inimigo do trabalho

As alterações climatéricas estão a mudar os ritmos laborais em Portugal
09.09.2005


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Marisa Antunes e Maribela Freitas

JÁ NÃO se trabalha de sol a sol, mas os ritmos laborais e a produtividade podem ser condicionados pelo astro-rei. Em Espanha há muito que este é um dado adquirido — como o demonstram as famosas «siestas» — em Portugal ainda não se dá o devido valor aos efeitos que as alterações climatéricas podem ter no rendimento dos trabalhadores.


Contudo, há excepções. A Câmara Municipal de Borba e de Serpa já aplicam, durante o Verão, um horário diferente aos funcionários que trabalham no exterior. Em Borba, no Verão, trabalha-se das 7h às 13h30 e no Inverno das 8h às 16h. «Este horário é aplicado nos meses mais quentes do ano, devido ao calor extremo que se faz sentir no Alentejo», refere Ângelo Sá, presidente desta autarquia.

Em Serpa, o horário, na época mais quente, vai das 6h30 às 13h30. Tem o seu início quando o calor começa a apertar e termina no fim de Agosto. De acordo com o gabinete de comunicação da autarquia a razão deste funcionamento prende-se com a natureza dos trabalhos exteriores e o calor que assola o Alentejo no Verão.

Mas, apesar de existirem bons exemplos, ainda há muito por fazer. «Neste momento verifica-se uma alteração climatérica como não ocorria há mais de dez mil anos. Isto deveria obrigar as pessoas a pensar e a tomarem consciência de que é necessário fazer algo. Pelo contrário, continuamos a meter a cabeça na areia», critica Paulo Varela Gomes, docente na Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade de Coimbra.

A indiferença perante esta questão irá continuar a reflectir-se não só na produtividade dos trabalhadores, mas também na factura a pagar nos consumos energéticos dos edifícios, sublinha o defensor de uma adaptação de horários de trabalho compatível com os dias mais quentes.

«De ano para ano temos mais dias com temperaturas superiores a 30 graus e cada vez se fazem mais investimentos colossais em sistemas de ar condicionado, até porque se continua a construir mal em Portugal»
, sublinha este especialista em arquitectura. «A construção assenta em prédios de divisões baixas e muitas aberturas a poente. A preocupação da sustentabilidade térmica em matéria de construção é ridícula: centra-se nas perdas térmicas durante o Inverno, quando o verdadeiro problema reside nos excessos térmicos durante o Verão», remata.

Para o presidente da Associação Portuguesa dos Gestores de Recursos Humanos, «esse investimento nas condições físicas de trabalho favoráveis aos diferentes climas pode ser feito na indústria, mas nos serviços pode ser já bem diferente». Jorge Marques exemplifica: «O que se diz hoje é que, na sociedade do conhecimento, a matéria-prima é a inteligência, por isso o objectivo é que essa matéria-prima se exprima nas melhores condições. Aí pode ser muito importante o tipo de condições físicas externas, mas também o acesso e o tempo de transportes aos locais de trabalho».

Uma opinião corroborada pelo director do Observatório Astronómico de Lisboa, João Lin Yun: «Poderá fazer sentido um ajuste, mas deve ser estudado sector a sector». Não há condições Para o sociólogo do trabalho, Rui Duarte. «em Portugal, ainda não foram criadas as condições sociais para que a variabilidade de horários seja prática corrente. Começar a trabalhar, por exemplo, às 7h, implica a prestação de serviços a crianças, idosos e outras populações a partir das 6h», pormenoriza o presidente da Associação Portuguesa de Sociologia Industrial das Organizações e do Trabalho.

Apesar de admitir que algumas entidades já se preocupam com estas questões, Amável Alves, membro da Comissão Executiva da CGTP-In considera que «os horários de trabalho estão muito estandardizados e muitas vezes não se tem em conta a forma como se trabalha». Na sua opinião, e para minorar os efeitos da sujeição ao frio ou calor extremo, pode alterar-se a jornada de trabalho e proteger o trabalhador no local onde executa as suas funções.





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