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Arquitectura selectiva

Conseguir um lugar ao sol no mundo da arquitectura mnão é fácil. A cunhacracia impera e os ordenados não são aliciantes. Para não fugir à regra, as mulheres são as mais prejudicadas
05.01.2007


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Marisa Antunes A maioria entra na profissão graças aos seus conhecimentos pessoais, ganha menos de 2000 euros (brutos) e as mulheres estão ainda pouco representadas, pois o acesso à actividade é “muito selectivo e socialmente muito fechado”. Estes são alguns dos traços gerais que sobressaem de um estudo recente sobre a profissão de arquitecto feito com base nas respostas de 3200 profissionais desta área, elaborado por uma equipa coordenada pelo sociólogo Manuel Villaverde Cabral, do Instituto de Ciências Sociais.


Todos os anos entram no mercado 1000 novos arquitectos, licenciados nas 13 faculdades estatais e privadas que existem de norte a sul do país. As notas de acesso às universidades públicas, nomeadamente as faculdades de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa e da Universidade do Porto (em 2005, a nota mínima de entrada nas duas escolas foi, respectivamente de 17,7 e 18,1) só são comparáveis às notas de entrada em Medicina.

Apesar da procura do curso, o mercado de trabalho não está fácil, como lembra a bastonária da Ordem dos Arquitectos, Helena Roseta. “Este inquérito revelou que esta é uma classe muito jovem — mais de metade do número total de arquitectos têm menos de 35 anos —, marcada por uma grande insatisfação. Têm grande dificuldade em ingressar no mercado de trabalho. Por isso, é urgente dar mais oportunidades a estes profissionais. O plano tecnológico, por exemplo, só foi pensado para os engenheiros e os gestores, deixando os arquitectos de fora”, lembra.

Mas não só. Também o polémico decreto 73/73 que permite a outros profissionais como projectistas ou desenhadores civis assinarem projectos de arquitectura limita ainda mais as ofertas de trabalho dos arquitectos. “Temos, no entanto, o compromisso público do ministro do Ambiente de que, pelo menos esta questão, ficará resolvida ao longo deste ano”, sublinha Helena Roseta.

A obtenção do primeiro emprego através de anúncio, de um centro de emprego ou de concurso público tem assim, uma baixa expressão, estimando-se mesmo que “metade, porventura mais, dos arquitectos actualmente em exercício entrou na profissão através dos seus conhecimentos pessoais: pela mão de um professor, familiar amigo ou colega”. Verifica-se, aliás, que perto de “um quarto dos actuais arquitectos possui relações familiares próximas dentro do corpo profissional da arquitectura, o que aponta para a existência não só de dinastias como também de clãs profissionais”.

A arquitectura surge ainda como um curso de recrutamento social elevado, onde 50% dos pais destes licenciados possui um diploma no ensino superior. Este nível só é ultrapassado pelo dos médicos, já que perto de 60% dos pais dos licenciados em medicina têm também eles um grau superior de educação. Além do fechamento social da profissão, este é ainda um “universo prevalentemente masculino”.

Só nos últimos cinco anos, as mulheres estão a conseguir atingir a paridade nas faculdades, mas ainda não vão além dos 35,5% no número total de licenciados em arquitectura, que ronda os 15 mil profissionais. “O ritmo de feminização da arquitectura tem sido, pois, mais lento do que o de outras profissões liberais como a advocacia (no universo dos advogados inscritos na Ordem 45,6% são mulheres) e a medicina (47,3% dos inscritos na Ordem dos Médicos são mulheres)”, realça o estudo. Mas não só.

Além da sua ainda fraca representatividade, as mulheres ganham ordenados inferiores aos dos seus colegas do sexo masculino: 50% das inquiridas declararam receber menos de 1000 euros mensais brutos, enquanto apenas 37% dos homens estão nesta categoria. “Os homens também participam mais em concursos do que as mulheres (14 pontos percentuais de diferença) e são praticamente o dobro delas (23% contra 12%) a ganhar prémios”, acrescenta-se no documento. Isto apesar das arquitectas se distinguirem por frequentarem mais as pós-graduações académicas (33,3% contra 27,1%) e os cursos de especialização e formação profissional disponíveis (54% contra 48% dos seus pares masculinos).

A questão remuneratória, apesar de prejudicar mais o sexo feminino, revela-se francamente negativa no geral, pois 80% dos arquitectos aufere, em média, até 2000 euros mensais. Valores brutos. Apenas 10% declararam rendimentos superiores a 3000 euros mensais brutos pela sua ocupação. Não é por isso de espantar que 75% dos inquiridos se tenham declarado insatisfeitos com os seus rendimentos.





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