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Operários, precisam-se. Qualificados

Operários, precisam-se. Qualificados

Faltam costureiras no têxtil, estofadores no mobiliário e serralheiros na metalomecânica.

27.03.2017 | Por Abílio Ferreira


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A expansão da unidade de energia levou a ASM Industries, de Sever do Vouga, a recrutar no mercado 40 profissionais de várias especialidades, como soldadores, serralheiros ou técnicos de manutenção. Mas, para já, só 15 vagas estão preenchidas. A empresa desespera com a falta de interessados. No distrito de Aveiro, outras empresas da fileira do metal sofrem em silêncio com idêntica adversidade, em especial no lançamento de novos projetos. E nem a Silampos, do presidente da associação patronal do sector (AIMMAP), Aníbal Campos, escapa aos efeitos da deserção dos jovens da indústria da ferrugem. A Silampos tem há um ano três vagas de serralheiro por ocupar e Aníbal Campos sabe de empresários que “andam aflitíssimos” porque “precisam de sete ou oito e não os encontram”.

Mais a norte, no eixo Paredes-Paços de Ferreira, são os fabricantes de mobiliário que sofrem com a escassez de mão de obra especializada, em especial marceneiros. No grupo LasKasas o revés é mais extenso e o maior drama reside na Domkapa, a unidade de estofos na qual investiu €2,3 milhões. O grupo está no mercado à procura de pelo menos 20 estofadores e outros profissionais qualificados, mas não consegue contratar. O impasse repete-se “no caso de costureiras e polidores e na unidade de serralharia (Serralux) que se dedica a estruturas em metal”, regista o diretor da LasKasas, Ricardo Teixeira.

A AIMMAP admite um défice de 4 mil profissionais e a APIMA — Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins fala, no conjunto das especialidades, em mais de 300 vagas. A preocupação dos industriais faz parte da agenda da CIP — Confederação Empresarial de Portugal. O seu presidente, António Saraiva, conta que recentemente um seu amigo lhe confessou que desesperava por contratar um torneiro mecânico e ouve com regularidade desabafos de gestores de multinacionais que não conseguem recrutar profissionais “para funções especializadas”. A “batalha da requalificação e o desafio da modernização” são temas que ganham agora uma nova dimensão. Saraiva defende campanhas para atrair jovens para sectores e ajustar os perfis de formação aos pedidos do mercado.

O fator salário

E os salários? Em todos os casos, garantem os industriais, a explicação não reside no fator salário, mas na mentalidade, expectativas e vocação dos jovens. Apesar de bem remunerados, “estes ofícios não seduzem os jovens, que preferem profissões na área dos serviços”, regista Gualter Morgado, diretor executivo da Associação Portuguesa das Indústrias de Mobiliário e Afins (APIMA). Como resume o industrial têxtil Alberto Figueiredo (Impetus), “quem completou o 12º ano não quer ser operário de fábrica, prefere ser caixa de supermercado”. António Saraiva concorda que “a questão salarial não é um entrave”.

Na LasKasas “há sempre bons salários para a mão de obra qualificada, e essa é que nos interessa”, diz Ricardo Teixeira, que cita como referência os mil euros. Se um aprendiz de marceneiro ganha em linha com o salário mínimo (€557), “ao fim de cinco anos, se tiver

qualidade, está nos €850 e conheço muitos que ganham entre €1200 e €1500”, diz Gualter Morgado, diretor da APIMA. No caso dos estofadores de primeira, “o salário está nos €1500”, acrescenta. Aníbal Campos diz que um serralheiro “chega com facilidade aos €1000, acima do salário de certos licenciados”. A ASM paga “de acordo com o mercado, valorizando a experiência”. A escassez “nada tem a ver com os salários oferecidos”, diz o presidente Adelino Costa Matos.

Outra é, todavia, a visão dos sindicalistas. Albano Ribeiro, presidente do sindicato do sector das madeiras, separa os “verdadeiros empresários” dos oportunistas, mas realça que isso dos salários altos “é uma mentira pegada”. Na generalidade, as empresas “pagam o salário mínimo, mesmo a operários especializados e há quem nem seguro tenha”. Esta política “não estimula a qualificação nem a atração de jovens”, acusa. Rodrigo Lourenço, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras Centro-Norte, confirma a escassez de oferta em certas especialidades e verifica uma fuga dos mais qualificados para multinacionais, que pagam melhor. Mas alega que o salário “pouco apelativo” é uma das causas do fenómeno. A progressão na categoria é automática, “mas a subida do salário fica ao critério da empresas”. E conta o caso de um serralheiro de primeira, com uma carreira de 30 anos, que ficou, em 2017, nivelado pelo salário mínimo, por causa do aumento verificado.

Técnicos do Bangladesh

No têxtil e calçado, as empresas minimizaram o efeito fugindo das zonas tradicionais e instalando-se em concelhos de menor carga industrial. Esta mobilidade levou, por exemplo, o Modatex, centro de formação têxtil, a organizar ações em municípios como Cinfães ou Mondim de Basto. Atualmente, prepara um curso de formação em Oliveira do Hospital, para qualificar os 20 assalariados que uma unidade quer recrutar. “Nem sempre é fácil recrutar o número mínimo de candidatos, mesmo para cursos remunerados”, reconhece Sónia Pinto, diretora do Modatex.

Basta ligar “para qualquer empresa de confeções que logo confirmam que há vagas para costureiras”, refere Paulo Vaz, diretor geral da Associação Têxtil de Portugal (ATM). A escassez leva à “subida dos salários e ao recurso à subcontratação fora do país”. O caso de uma empresa do Marco de Canaveses que recrutou técnicos de malhas no Bangladesh é isolado, não representa uma tendência. Paulo Vaz diz que o movimento que mudou a face da cidade de Prato, a capital do têxtil italiano, com a importação de milhares de operários chineses, é um cenário impossível no Vale do Ave.

Aníbal Campos nota que a falta de mão de obra resulta da “cultura e mentalidade reinantes, que prefere licenciaturas sem empregabilidade” e uma “política errada, agravada neste Governo por razões ideológicas, com o desvio de verbas e desprezo absoluto” pelos centros profissionais ligados à indústria. O país “vai pagar caro esta opção”, adverte o empresário.

Desemprego na indústria é de 7%

Descontando a construção, o desemprego nos principais ramos da indústria é pouco expressivo (7%) e pesa apenas 14,8% do total. No fim de fevereiro, a fileira industrial registava 103.904 desempregados (-20% face a 2016), mas sem a construção a cifra é de 60.597.

Esmiuçando os dados, verifica-se que só no caso do têxtil (15.361) o valor é relevante, impulsionado pelo vestuário. No quadriénio 2013/16, segundo o inquérito ao emprego do Instituto Nacional de Estatística, o número de empregados na indústria transformadora evoluiu de 705 mil para 777 mil (+10%). No balanço de oferta de emprego, o IEFP regista em fevereiro 2614 pedidos, inferior aos 3626 do mesmo mês de 2016.



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