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«Sistema público de emprego deve abrir-se aos privados»

30.05.2003


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Ruben Eiras

AS EMPRESAS privadas de recursos humanos deveriam poder aceder às bases de dados de desempregados dos sistemas públicos de emprego (SPE) para os formar e inserir no mercado de trabalho.


Quem o defende é Maria João Rodrigues, ex-ministra do emprego e membro da recém-criada Task Force da Comissão Europeia para o Emprego, em declarações ao EXPRESSO por ocasião do 32º Congresso da Federação Internacional de Organizações para a Formação e Desenvolvimento (IFTDO), que se realizou nesta semana no Centro de Congressos de Lisboa, organizado pela Associação Portuguesa de Gestores e Técnicos de Recursos Humanos (APG).

"Por exemplo, se uma empresa de recrutamento ou de outro segmento do sector de RH possuísse uma série de vagas por preencher, não só poderia aceder à base de dados dos centros de emprego, como também partilhar os seus recursos de formação", explica aquela responsável. "Com este tipo de abertura do SPE aos privados, as acções formativas tornar-se-iam mais eficazes na resposta às necessidades do mercado de trabalho", reforça.

Ainda na via do aprofundamento das parcerias entre o sistema público e as entidades privadas, Maria João Rodrigues advoga que se deveriam criar sinergias para aproveitar ao máximo as áreas de investimento com maior potencial de competitividade nas diversas regiões do país.

Neste plano, os privados detectariam as oportunidades de negócio, ao que as entidades públicas responderiam, adaptando a educação, a formação e as acções de investigação e desenvolvimento às necessidades de crescimento desses segmentos empresariais.

Esta estratégia, segundo aquela especialista, poderia ser aplicada em Portugal, desde já, em três sectores de actividade em que o país se poderá especializar, numa óptica de valor acrescentado: o têxtil, o calçado e o turismo. "O têxtil e o calçado têm que evoluir para a indústria da moda - com a criação de novos tecidos e fibras - e o turismo para a do lazer, com uma maior oferta cultural e valorização do nosso património", sugere.

Mas para que tal meta possa ser atingida, Maria João Rodrigues reitera que esta estratégia deverá assentar num sistema de gestão de conhecimento desenvolvido por empresas inovadoras. "Ou Portugal percebe isto de uma vez por todas ou se atrasa ainda mais", alerta.

A docente do ISCTE passa a explicar os passos básicos que um empresário inovador deverá seguir para aplicar uma gestão de conhecimento competitiva. O primeiro elemento a ter em mente é que os produtos a serem fabricados têm de ser "intensivos em conhecimento", ou seja, possuir uma maior dose de tecnologia ou utilização "intelectual" por parte do consumidor.

"Hoje já é possível comunicar com as máquinas de lavar através do telemóvel. Este é um exemplo de uma maior intensidade de conhecimento num produto que já conhecemos",
esclarece.

O segundo princípio é o "design" do produto, que não implica somente a aplicação correcta de competências artísticas, mas também de gestão e técnicas. "Se a um produto bem desenhado e concebido não se juntar um bom 'marketing' e técnicas de produção eficientes, o sucesso está hipotecado logo à partida", sublinha.

O terceiro factor é a gestão das pessoas. "São as pessoas que produzem e desenvolvem o conhecimento. Por isso, é inevitável o investimento na sua formação", observa. Para que esta responda às necessidades da empresa, o gestor tem de identificar qual o conhecimento relevante no produto e procurar as soluções formativas e de recursos humanos mais adequadas. "Este é o alicerce para suportar os processos de produção e aplicação do conhecimento", reforça.

Portanto, o gestor poderá "beber" das experiências das empresas concorrentes, recrutar quadros com as competências que deseja inserir na empresa ou investir na formação interna para desenvolver competências específicas necessárias à sua competitividade baseada no conhecimento. "Mas esta filosofia tem que ser aplicada a toda a empresa, para que os processos mudem em toda a organização", salienta.

Quanto à situação da qualificação dos portugueses, Maria João Rodrigues refere que continua a persistir uma insuficiência de competência em todos os níveis educacionais: básico, intermédio e superior. Todavia, frisa que o país devia apostar com mais determinação na educação de adultos.

"Não é possível atrair investimento qualificado com o mínimo de qualificações", alerta, ressalvando que é urgente colocar trabalhadores altamente qualificados em sectores-chave da nossa especialização económica. "Colocando qualificados junto de desqualificados cria-se um enquadramento de alto nível nas organizações, que irá obrigar ao seu desenvolvimento", afirma.

Só que, face a esta necessidade, Maria João Rodrigues critica o facto de Portugal ainda não valorizar, na prática e não só nos discursos, a educação e formação como factores da riqueza das nações. "O não reconhecimento interno da educação deve-se à mesquinhez e menoridade que ainda imperam nas nossas organizações. Em vez de competirem para fazerem melhor do que o concorrente, tentam destrui-lo ou desmontar o que fez de bom", lamenta.

Para inverter a situação, aquela responsável advoga que o discurso político deve apoiar a excelência, "sem medo de ferir as susceptibilidades dos que não são bons".





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