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Olá robô, adeus emprego?

Olá robô, adeus emprego?

A inteligência artificial está a mudar o mercado laboral. Há máquinas no lugar de pessoas.

23.10.2017 | Por Cátia Mateus


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Chama-se REEM, nasceu na Catalunha e trabalha lado a lado com a polícia no Dubai. Não, não é um cão e não integra qualquer brigada cinotécnica. É um robô. Um robô-polícia, o primeiro do género a nível mundial e foi criado para ajudar num trabalho que até aqui achávamos impossível que pudesse ser feito por máquinas: patrulhar junto das forças de segurança e proteger os cidadãos. Casos como o do REEM espelham aquela que foi outrora apontada como uma tendência futurista, mas que é já hoje uma realidade: um mercado de trabalho onde robôs competem com humanos por emprego. 
 
As contas podem ser feitas de várias formas, mas todas confirmam uma tendência de redução de postos de trabalho humanos a favor dos tecnológicos. O Fórum Económico Mundial avança que os avanços da robótica podem colocar cinco milhões de profissionais no desemprego até 2020. A consultora Ernst & Young (EY) estima que em sete anos um em cada três empregos possam ser substituídos por tecnologia inteligente. A Universidade de Oxford defende que 47% dos empregos que hoje conhecemos estão condenados a desaparecer num horizonte de 25 anos e um estudo agora divulgado pela consultora CB Insights garante que a automação e a robótica colocarão mais de 10 milhões de empregos em risco nos próximos cinco a dez anos.
 
O REEM segue uma lógica de cooperação homem-máquina. A PAL-Robotics, criadora do robô-polícia, encara-o como “um parceiro das forças policiais”. A empresa apresenta o invento como “um robô que é capaz de receber informação e ajudar o cidadão, além de realizar outras tarefas administrativas”, sempre numa lógica de complementaridade. Mas nem sempre é assim. Em sectores como a banca, poderemos estar mesmo perante uma substituição efetiva de profissionais por máquinas. 
 
John Cryan, presidente do Deutsche Bank, anunciou em setembro a eliminação de cerca de nove mil postos de trabalho, parte dos quais para serem substituídos por soluções de automação aplicadas à banca, e desafiou os seus congéneres de outros bancos a abraçar o “espírito revolucionário” e a apostar na tecnologia. E até mesmo na advocacia ou na medicina parece não haver insubstituíveis. No primeiro caso, já está em atividade o ROSS, o primeiro robô-advogado (uma evolução do computador Watson, desenvolvido pela IBM), e em Londres e Nova Iorque existe o Donotpay, que já conseguiu ganhar, a favor dos condutores, mais de 160 mil recursos em contraordenações rodoviárias. No campo da medicina, a IBM defende que sistemas inteligentes como o Watson são já capazes de ler diariamente cerca de cinco mil novos estudos médicos e cruzar esses dados com os dos pacientes, permitindo melhores diagnósticos ou sugerindo tratamentos mais personalizados.
 
Já não estamos no campo da utopia ou da ficção científica e esta revolução está a acontecer a uma velocidade alucinante. João Castro, líder do Centro de Negócios Digitais da Nova SBE, relembra que o mercado de trabalho sempre esteve exposto aos avanços da tecnologia. “O que agora sucede é que as revoluções tecnológicas se fazem mais rápido”, constata. Para o especialista, há lados bons e maus neste avanço tecnológico, para empresas e profissionais. A automação pode efetivamente eliminar postos de trabalho, mas também constitui uma importante ajuda para os profissionais em funções que outrora eram desempenhadas com muito esforço físico. “O desafio para os profissionais atuais é conseguirem encontrar competências que continuem a ser fundamentais num contexto de crescente automação. Para a sociedade, é fundamental compreender como capacitar as pessoas para o novo contexto de trabalho”, explica.
 
Emprego em mudança
O mundo dos negócios como até aqui o conhecemos está em mutação e para João Castro a solução não passa por “fugir aos avanços da tecnologia”. Trata-se antes de “perceber como nos podemos, enquanto profissionais, enquadrar num novo contexto em que a tecnologia está a ganhar terreno”.  Para Victor Pessanha, da consultora de recrutamento Hays, isto pode comportar múltiplos desafios em vários domínios. “A um nível mais institucional, haverá novos paradigmas que o mercado não estará preparado para lidar”. Victor Pessanha defende uma colaboração eficiente entre empresas e instituições reguladoras, que permita “mapear riscos e garantir a definição de normas eficientes que os minimizem — sejam estes financeiros, operacionais, legais ou éticos — e que uniformizem o tecido empresarial”.
 
Para o especialista, “as funções operacionais consideradas indiferenciadas, ou mais repetitivas, serão as que forem mais facilmente automatizadas e possivelmente o primeiro “alvo” da economia digital”, mas garante que, simultaneamente, “haverá uma necessidade crescente de mão de obra altamente especializada e possivelmente uma escassez da mesma”. O estudo da CB Insights confirma-o ao identificar os sectores de atividade que podem ser mais permeáveis aos avanços da automação e cujos profissionais podem vir a enfrentar maiores riscos de desemprego, num horizonte de cinco a dez anos. Na restauração, por exemplo, 4,3 milhões de profissionais podem estar em risco segundo as contas da consultora. Porteiros, empregadas domésticas, profissionais de logística e armazenagem também integram o leque dos que mais podem vir a sofrer os efeitos da robotização do emprego (ver caixa).
 
Vários investigadores e autores já se dedicaram a estudar quais os profissionais que podem vir a ser substituídos por máquinas. A generalidade parece concordar que só serão substituíveis na plenitude os profissionais que exerçam funções tidas como repetitivas e redundantes, mas o programador Dimitar Raykov e o designer Mubashar Lqbal foram mais longe no propósito de ajudar os profissionais e pegaram num dos maiores estudos realizados nesta área, com a assinatura da Universidade de Oxford, e criaram a plataforma “Will robots take my job?” (Irão os robôs roubar o meu emprego?), um autêntico motor de pesquisa que lista milhares de profissões e respetivos graus de risco na exposição à automação. Basta que um profissional digite a sua profissão ou função que ocupa para ficar a saber se tem razões para preocupação e qual a probabilidade de vir a ser substituído por um robô.
 
Martin Haegele, líder do “Service Robotics Group” da Federação Internacional de Robótica, reconhece que os robôs de serviços estão já a ter um impacto significativo em áreas como agricultura, cirurgia, logística, entre outras, e estão a aumentar a sua relevância em termos económicos. As estatísticas da FIR mostram que o comércio global de robôs tem vindo a aumentar e que há dois anos já valia mais de €45 milhões. Mas isto não significa necessariamente uma substituição do homem pela máquina. Essa é, de resto, também a opinião de Chris Lamberton, especialista em inteligência artificial e líder do departamento de robótica da EY. Nas várias intervenções que tem realizado sobre esta matéria o especialista enfatiza que não há qualquer dúvida que a automação está a gerar e vai continuar a gerar impactos no mercado de trabalho, mas isso não significa que os robôs venham a substituir os profissionais.
 
Lamberton defende mesmo que a robótica, por si só, não substitui postos de trabalho e que comparativamente com soluções como o outsourcing ou offshoring, um robô até pode salvar empregos. Argumenta o especialista que a melhor das soluções de inteligência artificial não consegue gerar empatia, por exemplo com um cliente. Os robôs, garante, são “bons a fazer trabalhos braçais e isso liberta os profissionais para tarefas de valor”. Chris Lamberton fala por isso num mercado de trabalho mais sustentado em sinergias entre homens e máquinas do que na substituição propriamente dita. 
 
Taxar a máquina é solução?
Bill Gates, o fundador da Microsoft, deu o pontapé de partida para o debate no início deste ano ao defender que os robôs deveriam pagar imposto. Por outras palavras e concretizando melhor a ideia do pai da Microsoft, as empresas que substituam humanos por máquinas devem ser chamadas a pagar uma taxa que permita compensar fiscalmente os trabalhadores que substituíram. Teorias semelhantes têm sido defendidas em contexto académico, em várias universidades mundiais. Mas a ideia não é meramente académica. O Parlamento Europeu (PE) debateu-a já este ano e chumbou-a.
 
O sistema defendido por Gates, permitiria, por um lado, garantir um abrandamento (mesmo que temporário) dos efeitos da automação no mercado de trabalho e, por outro, impulsionar através de financiamento a criação de emprego em áreas onde a vertente humana não é substituível pela tecnologia. As profissões de cariz mais social como o cuidado a idosos e crianças integram este leque. Porém, o mais longe que o PE foi nesta matéria foi votar e aprovar, em fevereiro, uma recomendação  para que a Comissão Europeia produzisse legislação para regular o aumento de robôs, nomeadamente definir um enquadramento ético para o seu desenvolvimento e clarificar a imputação de responsabilidades sobre as ações das máquinas, particularmente relevante no caso, por exemplo, dos carros sem condutor.
 
Imposto chumbado
A criação de um imposto sobre as empresas de inteligência artificial — que serviria para requalificar trabalhadores que tenham perdido o seu emprego para robôs e potenciar a criação de novos empregos em áreas onde a máquina não pode atuar — ficou de fora desta recomendação, sob o argumento, muito batalhado pela indústria da robótica, de que “travaria os avanços da inovação”, pode ler-se no comunicado do PE.
 
A Federação Internacional de Robótica (FIR) defende que a criação deste imposto teria o efeito inverso ao que se pretende no emprego. Avançando como exemplo a indústria automóvel, em países como a Alemanha, a FIR argumenta que a criação de um imposto desta natureza teria efeitos nefastos na competitividade e na criação de emprego. Isto porque para a federação, há uma correlação direta entre o número de robôs e a criação de emprego em países desenvolvidos e o aumento da presença das máquinas no mercado de trabalho não tem, necessariamente, de significar uma diminuição de empregos.
 
Para que esta teoria se confirme, Bill Gates defende que é necessário avaliar as comunidades de profissionais onde a automação terá maiores impactos e preparar estes profissionais para uma nova abordagem e novas práticas profissionais. Para o fundador da Microsoft, o pior que pode suceder é levar as pessoas a temer a tecnologia.
 
Onde chegam as máquinas    
Restauração
Não, não é ilusão. A robótica vai chegar à restauração. Segundo o estudo da CB Insights, 4,3 milhões de profissionais do sector (cozinheiros e empregados de mesa) poderão estar em risco dentro de cinco a dez anos, devido à adoção de soluções de inteligência artificial.

Porteiros e empregadas domésticas
Podem também vir a sentir o impacto da robótica. O sector é apontado como um dos que registam elevada exposição à automação. Nos EUA, a procura de robôs capazes de facilitar as tarefas domésticas tem vindo a aumentar.

Logística e armazenagem
Integram também a lista de profissões em risco pelos avanços da robótica. A CB Insights aponta 2,4 milhões de profissionais em risco nesta área. Na armazenagem, os robôs já asseguram a quase totalidade do trabalho pesado.

Retalho e vendas
Apresentam menor risco de substituição do homem pela máquina, na generalidade das funções, mas ainda assim figuram na lista da consultora. As vendas online representam para a CB Insights uma ameaça mais para estes profissionais do que os robôs.

Enfermagem e advocacia
São das profissões menos permeáveis à automação, mas ainda assim não isentas de risco. Numa e noutra área já se conhecem projetos em que a Inteligência Artificial é chamada a dar uma ajuda. Em todo o caso, o risco de substituição efetiva de profissionais é inferior a 1%.


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