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Jovens ganham menos do que há dez anos

Jovens ganham menos do que há dez anos

Os millennials foram os mais afetados pela crise. Na última década, o seu salário real diminuiu 4,6% em Portugal.

12.03.2018 | Por Cátia Mateus


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São apontados como a geração mais qualificada de sempre, vital para o sucesso e competitividade das empresas nacionais, mas a crise não poupou os millennials. Desde 2008, o rendimento mensal médio real - atualizado para preços de 2017  - dos jovens entre os 25 e os 34 anos, registou em Portugal uma variação negativa de 4,6 pontos percentuais. Segundo as as contas do Instituto Nacional de Estatística (INE), o rendimento salarial médio mensal líquido encolheu, em termos reais, dos €794 registados em 2008 para os atuais €757. E não se pense que a qualificação superior é garantia de incrementos salariais ou bons rendimentos futuros. Em Portugal, os licenciados ganham hoje menos 17,7% de salário médio mensal líquido, do que há uma década.

Em 2008, antes da crise, um licenciado auferia, em termos reais, um salário médio líquido de €1.504 nas empresas nacionais. Hoje, não vai além dos €1.237. Desde 2009, altura em que um licenciado leva, em termos reais, para casa uma média de €1.518 mensais líquidos que os salários dos profissionais mais qualificados estão queda. Na verdade, nem em 1998 um profissional qualificado ganhava tão pouco como agora. Nessa altura, ser detentor de uma qualificação superior garantia, pelo menos, €1.531 mensais líquidos. Feitas as contas, o rendimento salarial médio mensal líquido dos trabalhadores com qualificação superior diminuiu, em termos reais, 19,2%.

Na verdade, a análise dos dados salariais do INE relativos às últimas duas décadas revela que a crise “forçou” quebras nos rendimentos de quase todos os grupos profissionais, ainda que em menor grau face às registadas entre os que detém qualificação superior. Entre os detentores de qualificação ao nível do ensino secundário ou pós-secundário, a quebra dos salários reais rondou os 11% desde 1998 e 10,7% se restringirmos a análise à última década. Os profissionais menos qualificados sentiram menos o impacto das reduções salariais. Se tomarmos como ponto de partida os seus rendimentos médios  mensais líquidos reais de 1998, os trabalhadores com qualificações até ao ensino básico até registaram incrementos salariais na ordem dos 8%. Mas a comparação dos dados face a 2008 aponta para uma quebra do salário médio real de 0,2%. A redução teve início a partir de 2010 e só deu sinais de inversão no último ano, altura em que estes profissionais registaram um ganho salarial médio líquido real de €11 mensais, totalizando os €665. Ainda assim, em 2002 um trabalhador com qualificações ao nível do 3º ciclo ganhava mais €12 euros mensais do que hoje. 

Millennials em dificuldade
Apesar deste cenário de redução generalizada, os jovens são o grupo que mais se ressente com a perda de rendimentos. De resto, nas faixas etárias entre os 15 e os 24 anos e os 35 e 44 anos, a estatística até revela algumas melhorias salariais durante a última década: 0,9% e 3,8%, respetivamente. E esta degradação das condições salariais dos mais jovens está a fazer soar múltiplos alarmes. O Núcleo de Observação Social da Cáritas Portuguesa divulgou esta semana as conclusões do estudo europeu “Os Jovens na Europa Precisam de um Futuro”, onde cruzou estatísticas oficiais para chamara a atenção para as dificuldades com que se deparam atualmente os profissionais mais jovens, por via do aumento da precariedade e a da diminuição progressiva dos rendimentos.

Segundo o relatório, a maioria dos jovens em Portugal não consegue arrendar ou comprar casa. O desemprego - que apesar de estar a diminuir, se mantém elevado para os jovens, 22,2% (ver caixa) -, os empregos precários, os contratos irregulares e os baixos salários, argumenta o estudo, “fazem com que seja muito difícil para um jovem conseguir suportar os custos de habitação”. O estudo comprova que “as oportunidades de emprego e os níveis salariais diminuíram acentuadamente desde a crise financeira de 2008” e Eugénio Fonseca, presidente da Cáritas Portuguesa, reforça que “Portugal regista ainda um elevado nível de desemprego jovem e as habilitações de nível superior não estão a ser valorizadas pelo mercado de trabalho”.

O argumento do presidente da Cáritas Portuguesa remete para a perda real de 17,7% de rendimento salarial médio mensal líquido entre os licenciados, face a 2008, apurada pelo Expresso com base nos dados do INE. E para o representante da Cáritas o recurso a instrumentos de financiamento europeu pensados para reduzir o desemprego - como os programas de formação e estágios profissionais - estão a nivelar os salários por baixo e a agravar o emprego temporário entre os jovens portugueses, mesmo os mais qualificados.

Um problema global
O estudo conduzido pela Cáritas revela que esta é a primeira geração de jovens a enfrentar o risco de empobrecimento relativamente à geração dos seus pais. E até fala no aparecimento de uma nova geração que apelida de “Sinkies” (a afundar). São maioritariamente jovens casais trabalhadores que dificilmente conseguem suportar as suas despesas com os seus rendimentos profissionais e que, por isso, não podem constituir família. E a Cáritas não é a primeira a reconhecer este desafio social. No último mês , o grupo de reflexão britânico Resolution Foundation, focado em apoiar as condições de vida dos profissionais com menores recursos, divulgou as conclusões do seu estudo anual “The Living Standards Outlook 2018”, onde alerta também para o desafio que é sobreviver com os rendimentos de um millennial na economia atual.

Segundo o relatório, que compara vários países, “a crise financeira provocou um rombo nos rendimentos dos millennials” e os incrementos salariais de que beneficiaram as gerações anteriores, em muitos países, não chegaram para a geração que representa atualmente uma das parcelas mais expressivas do mercado de trabalho. “Os profissionais na faixa etária dos 30 anos têm rendimentos, em média, 4% inferiores aos dos seus pais, com a mesma idade”, explica o estudo.

Reino Unido, por exemplo, um millennial com 30 anos ganha só mais 6%  hoje do que ganhava a geração nascida entre 1946 e 1965. Em valores reais, isto representa uma quebra de 14% do salário médio. As quebras registadas no Reino Unido são maiores do que as ocorridas na maioria dos países analisados. Mas segundo o estudo, os millennials portugueses figuram no grupo dos que registam maiores quebras nos salários médios reais face à geração anterior: 11%.

Desemprego cai para os 8%
O desemprego nacional caiu para 8%, em dezembro do último ano. O Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgou esta semana os dados relativos à taxa nacional de desemprego no último mês de 2017, apontando para uma descida de 0,5% face ao trimestre anterior e de 2,2% face ao período homólogo. Segundo o INE, é preciso recuar até julho de 2004 para encontrar uma taxa tão baixa quanto esta. E a estimativa do instituto é que a taxa nacional de desemprego registe nova quebra em janeiro de 2018, atingindo os 7,9%. 

A taxa de desemprego jovem (15-24 anos) também registou uma redução, passando dos 22,8% apurados em novembro para os 22,2% apurados no último mês do ano. Entre os adultos, a taxa de desemprego permaneceu nos 6,9%, prevendo-se que possa descer para os 6,8% em janeiro deste ano. Portugal registava em dezembro 412,3 mil desempregados, menos 1,3% (5,5 mil pessoas) do que em novembro de 2017. Também esta semana, o Eurostat divulgou os dados do desemprego em janeiro. Na zona Euro, a taxa de desemprego diminuiu dos 9,6% registados em dezembro de 2016, para os 8,6% no primeiro mês do ano. Portugal registou a quarta maior quebra homóloga da Europa a 28: de 10,1%, em 2016, para 7,9%.


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