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Estes sectores não venceram a crise

Estes sectores não venceram a crise

Agricultura, indústria extrativa e negócios familiares perderam 172 mil pessoas desde 2013. E talvez nunca recuperem.

22.04.2018 | Por Cátia Mateus


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A população empregada em Portugal aumentou em 327,2 mil pessoas desde o auge da crise, no primeiro trimestre de 2013, somando agora 4756,6 mil profissionais, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). O número supera até o alcançado em 2011, ano do pedido de ajuda externa e da  entrada da troika em Portugal (4740,1 mil), mas continua a estar muito aquém dos valores de 2008, altura em que o mercado de trabalho somava 5116,6 mil pessoas empregadas. A recuperação do emprego, consolidada nos últimos cinco anos, não se estende a todos os sectores. Há três que ainda não conseguiram vencer a crise e voltar aos níveis de emprego de 2013: agricultura, produção animal, caça, floresta e pescas; indústrias extrativas; e negócios familiares. E para os especialistas o mais certo é que a recuperação do emprego nunca venha a acontecer nestes sectores. A culpa é do envelhecimento populacional, da emigração e também da automação.
 
Em dez anos, Portugal perdeu 290 mil empregos, um número líquido que traduz já o efeito gerado pela quebra da série do INE, em 2011, devido à alteração da metodologia do inquérito ao emprego. Depois de cinco anos consecutivos a perder trabalhadores, o mercado de trabalho nacional conseguiu inverter a tendência e, em 2014, iniciou a recuperação. A grande maioria dos 21 sectores de atividade analisados pelo INE (ver quadro ao lado) viram os níveis de emprego crescer e conseguiram alcançar o número de trabalhadores anterior à crise. 
 
Entre as três exceções que escapam à tendência de recuperação, a agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca é onde se registam maiores perdas. Entre 2013 e 2017, o sector perdeu 32,8% dos seus trabalhadores, totalizando no final do último ano 304,4 mil profissionais. Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), confirma os números e atribui-lhes um rosto, o da automação: “Os empregos que faltam na agricultura correspondem à substituição de mão de obra intensiva pela robótica.” As exportações no sector até têm estado a crescer a um ritmo de seis a 7% ao ano — “no último ano cresceram 20%” — e a capacidade produtiva das empresas está a aumentar, mas por recurso à tecnologia. Ou seja, a dinâmica do sector não se tem traduzido num aumento de postos de trabalho e para Luís Mira, “é de prever que o emprego no sector continue a diminuir, à medida que aumenta o recurso à tecnologia por parte dos empresários”.
 
Evolução natural
Para Paulino Teixeira, docente da Faculdade de Economia  da Universidade de Coimbra, trata-se de uma “evolução natural e até desejável”. O economista admite que o sector da  agricultura poderá nunca vir a recuperar os níveis de emprego do passado (chegou a empregar 585,3 mil indivíduos em 2008) e justifica esta teoria também nos avanços da automação e da inteligência artificial que, argumenta, “sustentam, em alguns sectores a dificuldade em regressar aos níveis de emprego pré-crise”. 
Diz Paulino Teixeira que uma inversão nesta tendência “até seria mau sinal. Estamos perante um processo de evolução natural e global, de substituição de mão de obra intensiva por soluções de automação. É desejável que Portugal não fique para trás”. E o professor até relembra que “um sector pode ser dinâmico e competitivo, sem que isso se traduza, necessariamente, na criação de emprego”. 

O economista João Cerejeira admite, porém, situações em que, quer o sector da agricultura quer o dos negócios familiares — um dos três sectores que permaneceu abaixo (16,8%) do emprego registado em 2013 —, poderiam evoluir positivamente na criação de emprego: “Se voltar a subir o desemprego no país, é possível que estes dois sectores voltem a ganhar trabalhadores.” E justifica: “Quer a agricultura, quer os negócios familiares são ‘sectores de refúgio’. Ou seja, em períodos de pior conjuntura económica, perfilam-se como soluções de empregabilidade face à falta de emprego noutras áreas.” Quando a conjuntura melhora, os profissionais tendem a regressar aos seus sectores de origem. O economista não descarta também os impactos da emigração, envelhecimento populacional e da automação no equilíbrio difícil desta balança (ver texto ao lado). 

No caso das indústrias extrativas, o terceiro sector resistente à recuperação do emprego, as perdas foram menores. O sector que agrega a extração petrolífera, do gás e mineira está a 6,8% de alcançar os níveis de emprego de 2013. Também aqui a tecnologia e o envelhecimento da população, associadas à reduzida dimensão do sector, terão sustentado as dificuldades de recuperação. Juntos, estes três sectores, perderam entre 2013 e 2017 perto de 172 mil profissionais. Os especialistas reconhecem que será difícil que os recuperem. 
 
Crise tirou a Portugal 290 mil empregos
Portugal tinha, no final do último ano, menos 290 mil trabalhadores do que em 2008. Chegou a ter menos 607 mil trabalhadores em 2013, no pico da crise, mas entretanto recuperou. Os números têm por base as estatísticas anuais do inquérito ao emprego, divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) e já acautelam a correção do efeito gerado pela alteração da metodologia do inquérito ao emprego e respetiva quebra de série estatística. Mas há outro ‘prego’ na engrenagem da recuperação do emprego nacional, que apesar da sucessiva diminuição da taxa de desemprego ainda não alcançou os níveis de emprego de 2008. A população ativa potencial do país (calculada a partir da soma da população ativa e dos inativos com idade para trabalhar, dos 15 aos 64 anos) tem vindo a diminuir. Nos últimos seis anos reduziu 4,8%, num total que ronda os 354 mil trabalhadores.
 
O economista João Cerejeira fala da emigração que arrastou para fora do país milhares de profissionais qualificados durante os anos da crise e no envelhecimento progressivo da população portuguesa, como justificação para parte destas contas. No sector da agricultura e noutras atividades de mão de obra mais intensiva, o envelhecimento da população está a gerar impactos sérios. Saem os seniores sem que entrem jovens para estas atividades. O recurso à tecnologia ajuda a travar a criação de novos empregos “humanos”, mas mesmo que fossem criados, o mais certo é que houvesse falta de mão de obra disponível para os preencher.

Emigração e envelhecimento dificultam recuperação
Nos últimos quatro anos saíram das estatísticas do desemprego 501,2 mil profissionais. Nem todos encontraram emprego e basta olhar para os dados do INE para perceber que, no mesmo período de tempo, a população nacional empregada só aumentou em 327,2 mil indivíduos. A emigração justifica parte desta disparidade de números e os dados das Nações Unidas e do Observatório da Emigração comprovam-no. É que, apesar das saídas do país terem dado sinal de diminuir entre 2015 e 2017, continuam a abandonar o território nacional, em média, 100 mil portugueses por ano. Portugal continua a ocupar as posições cimeiras da lista de países europeus com maior taxa de emigração. 2,2 milhões de portugueses vivem e trabalham fora do país.
 
O envelhecimento da população ajuda a justificar o resto o que, para João Cerejeira, é “estrutural na diminuição da população ativa”. Há cada vez menos gente a entrar no mercado de trabalho. Em 2011, cerca de 58% da população ativa tinha menos de 45 anos. No ano passado, essa franja de profissionais não excedia os 53,8% da população ativa nacional. No mesmo período de tempo, os trabalhadores com mais de 45 anos aumentaram 4,6 pontos percentuais, representando 46,2% da população ativa nacional.


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